provocanções

Entre o óbvio e o oblívio.

Letícia Souto

Gata em um mundo cão

Under the Influence não é só um documentário

É o que ninguém nunca conseguiu ver em Keith Richards a olho nu: sua sensatez e sensibilidade estão além de quaisquer rótulos e manchetes superficiais.


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"Eu não estou envelhecendo, estou evoluindo".

É com essa frase que Keith Richards encerra o documentário Under the Influence, lançado no dia 18 de setembro e dirigido por Morgan Neville. Um sopro de esperança e inspiração diretamente no coração de todos os espectadores.

Keith, sagitariano de sete décadas de vida, abriu as portas do estúdio onde gravou seu álbum recém-lançado Crosseyed Heart para falar de seu processo criativo e suas inspirações. Mas acabou sendo muito além disso. Tornou-se uma série de diálogos sobre vida e morte, arte e inspiração, paixão e motivação.

O documentário é diferente de tudo o que se esperava de alguém como o guitarrista dos Rolling Stones, tal como ele sempre foi apresentado. Não se falou sobre drogas, excessos e decadência. Falou-se do presente e do futuro. E não há nada mais motivador do que ver Keith sentado no sofá acendendo um cigarro e falando sobre seus planos e suas conquistas. Maduro e sensível. Keith como ele é e sempre foi. Sentado humildemente ao piano diz que não se considera um pianista, embora tenha composto as maiores obras-primas dos Stones ali.

É incrível como ele fala sobre tudo com uma paixão e humildade únicas. Nascido na Inglaterra e criado pelo Blues estadunidense, teve a honra de conhecer, conviver e até apanhar de seus maiores ídolos. Quando gravou o filme de Chuck Berry, em 1987, se viu sozinho com a guitarra do mestre ao seu lado, nos bastidores. Instintivamente tocou em uma das cordas e fatidicamente, Chuck Berry invadiu a sala com um murro no seu rosto. Keith conta esse e outros episódios com as gargalhadas mais contagiantes e sinceras.

E tudo é motivo de riso. Tudo inspira Keith Richards. Em seus olhos radiantes é possível ver que ele olha o horizonte cheio de esperança, vendo o futuro e muito além. No palco, uma lenda com cinquenta e tantos anos de carreira. Nos bastidores, aquele menino que ganhou um violão do avô e estudou flamenco para melhorar sua habilidade. Seu espírito jovial é tão imortal quanto sua música e seu legado. E depois desse filme, é garantido que deixou mais um ensinamento aos que estão dispostos: se reinventar a cada dia é o segredo da longevidade. E se depender disso, Keith ainda nos presenteará com muitos anos de ritmos, timbres e melodias inspiradoras. Que assim seja.


Letícia Souto

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