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Escrever é meu refúgio. É quando encontro-me e esqueço-me.

Adriane Cruz

Os jovens que somos e os velhos que seremos

O filme “Um senhor estagiário” vai muito além do que dizem as sinopses, abordando não só o envelhecimento e seus percalços, mas os preconceitos sociais de todo tipo e a liberdade – ainda limitada – da mulher


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Nada de clichês a respeito da velhice, desse lance de ficar deprimido por não ter o que fazer... de se sentir só porque os filhos estão muito ocupados vivendo as próprias vidas. Nada de lamúrias a respeito do que fazer quando chegar a tal melhor idade, quando a disposição (física e mental) não for a mesma.

Nossa sociedade está envelhecendo. Além de viver mais, está mais antenada, mais disposta. Nossos idosos nunca foram tão jovens! Às vezes, muito mais que a gente, jovens de fato, porém esgotados do fardo pesado com trabalho, filhos, orçamento doméstico, lazer, autoconhecimento, espiritualidade... Nós, jovens, que estamos cada dia mais confusos com o excesso de informação e com as benditas redes sociais onde, pelo amor de Deus, não há bom senso que dê conta! Muitas vezes somos ranzinzas, estressados no trânsito, intransigentes e, infelizmente, muitas vezes somos infelizes. Talvez por acreditarmos que temos tempo pra isso.

O filme “Um senhor estagiário”, dispensa recomendação apenas por ter Robert De Niro no elenco. Alguns críticos dizem que ele tem feito filmes fracos (críticos chatos). Mas a verdade é que é muito bom ver o De Niro atuando. Aliás, não é só muito bom. É sensacional e empolgante.

Atores como o De Niro fazem com que um diálogo, apenas um, dê o recado de todo o filme. Ele e Anne Hathaway formam uma dupla tão cativante e harmoniosa que quando o filme termina dá vontade de continuar vendo. De que a história prossiga simplesmente pra gente continuar acompanhando a relação e a sintonia dos dois.

Além de abordar questões como o envelhecimento e todos os seus percalços, as perdas mais frequentes que a idade traz e a mudança drástica dos tempos atrás para os atuais, o filme fala de sonhos e de como lidar com eles quando se tornam realidade. Fala de família e dos nós em goteiras que damos pra dar conta dela e de todo o resto.

Fala do consumo, da inovação tecnológica e da importância de se ter um toque pessoal, humano mesmo, na “feitura” das coisas que estão aí para serem compradas. Fala do oportunismo do mercado, que fica à espreita de uma nova boa ideia para, então, dar o bote, e apropriar-se dela, deixando quem a teve pra escanteio.

Mas o ponto principal e mais marcante do filme, no diálogo mencionado, fala da mulher. Das nossas conquistas, nossas angústias e agruras que, convenhamos, são meio que marcas femininas registradas (é como se déssemos mais importância às preocupações que às conquistas e seus desdobramentos positivos).

E, é claro, fala de culpa. Ah, a culpa, companheira de todas as horas, principalmente depois da maternidade. Culpa por não sermos como as outras mães. Por não sermos como as outras esposas. Como as outras profissionais. Essa pentelha que nos acompanha até quando somos – mesmo que em aspectos distintos e atitudes específicas – melhores.

É o caso de Jules Ostin (Anne Hathaway), que está totalmente conectada com o seu sonho que virou realidade e que cresce a cada dia. Quando Ben Whittaker (De Niro) chega, sem exigir nada e numa extrema e sutil elegância, eles acabam ficando muito próximos e, aos poucos, ele mostra a ela que a serenidade é possível mesmo no meio de um turbilhão. E quando ela questiona seu casamento, demonstrando que de alguma maneira se sente responsável pelo seu inesperado estremecimento, ele a convence de que trabalhar duro para conquistar um sonho e o sucesso não deve ser motivo de culpa para uma mulher e nem tão pouco para uma mãe – deve ser motivo de orgulho!

É nessa hora, nesse diálogo, que fica claro o quanto ainda temos que nos libertar! E o melhor: sem aquele tom feminista agressivo. Pelo contrário. Essa noção da liberdade que ainda nos falta é dada por um homem. Um senhor com 70 anos e uma sensibilidade incrível, proporcional à sua discrição. Um velho que de tão autêntico, se adequa à tecnologia enquanto os jovens ao seu redor babam pela sua bolsa retrô com itens vintage.

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Sensato e coerente, Ben mostra, logo no início do filme, que não fez da idade e da aposentadoria um martírio. Muito menos da viuvez. Pelo contrário, fez de tudo até perceber que precisava mesmo era voltar à ativa e trabalhar. E, ao longo da história, mostra também a grande tolice que é não aceitarmos o fato de a mulher ser mais bem sucedida que o homem. Mostra que as outras mães da escola do seu filho não entendem isso. E que os próprios homens, maridos e pais, por mais bem intencionados e apaixonados que sejam, também não entendem. Que nós, sociedade, não engolimos isso ainda. Tanto que, quando a personagem de Anne Hathaway aparece com uma filha pequena, com um a família, a gente se assusta. Porque até então ela é apenas uma workaholic (como se ser workaholic fosse pouca coisa).

Somos limitados quando percebemos assim a mulher. E quando pensamos que a velhice é só pra descansar e viajar. Somos e seremos velhos – e esse é o termo certo pra o que tem muito uso. Velho. Mas, que velhos seremos?

Talvez, quando formos velhos, a gente não ligue muito pras ausências das pessoas, mesmo as mais próximas, afinal, já somos a geração do “vamos combinar” e “nunca nos encontramos”... Ou talvez sejamos a vovó que não se esquiva de aprender, de aderir a novidades. O certo é que iremos a muitos velórios e enterros. E demos graças a Deus por isso. Melhor enterrar amigos velhos, quando velhos, do que jovens, quando jovens. Até nisso ficamos maturados – aceitamos a morte com mais facilidade. “É a ordem natural das coisas...”

Quem é inquieto nunca será quieto. Nem se o corpo perecer. Podemos ser velhos e interagir com os jovens sem encher o saco deles e sem querer fazer com que a experiência de velho seja melhor e mais adequada. Sem querer impor sabedoria, afinal, quando jovens, temos que viver pra aprender.

E podemos ser jovens sem ignorar o fato de que os velhos gostam da nossa companhia. Que eles gostam de rememorar o passado e ter com quem conversar. Podemos ser os jovens que não apenas percebem que os velhos precisam de amor, de carinho e de cuidado, mas que ofertam tudo isso a eles, de coração aberto! Podemos, simplesmente, conviver com eles de igual pra igual. E, de quebra, nos aproveitarmos da sabedoria e mansidão daqueles que viveram mais para, simplesmente, nos sentirmos em paz.


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