pseudônima

Escrever é meu refúgio. É quando encontro-me e esqueço-me.

Adriane Cruz

sendo legal comigo mesmo

Somos muito cruéis com a gente mesmo. E muitas vezes sem nos dar conta de que toda e qualquer escorregada pode se tornar uma equação bem complicada para nossa mente, que vai ter de processar todo remorso e arrependimento e o resultado não há de ser dos melhores. Quando nos criticamos, somos ríspidos e hostis com quem deveríamos ser mais amorosos e cuidadosos: nós mesmos. Sendo auto compassivos, temos mais condições de filtrar as angústias, a raiva, a tristeza e a culpa, calibrando os sentimentos antes que eles se tornem códigos-fonte na programação da nossa mente e das nossas vidas


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Cuidar do corpo é ato de amor próprio. Melhora a saúde, a aparência e a autoestima. Manter uma alimentação equilibrada, atividade física regular e uma vida sem excessos é a regra, clara e conhecida, mas difícil de pôr em prática. Além da insistência patética da publicidade por sermos mais bonitos e mais atraentes, muitas vezes sucumbimos também à nossa própria pressão para nos adequarmos ao "adequado". Tudo isso é óbvio, já foi dito e redito. O fato é que temos, de fato, uma vida pronta para ser vivida, sentida, apreciada e degustada e não para ser apenas e insistentemente questionada.

Dentro de nossas cabeças há espaço suficiente para preocupações, lembranças, alegrias, planos e tudo mais que somos e sentimos. Acontece que quando o cruzamento de tudo isso que guardamos em nosso íntimo é processado de maneira absurdamente conecta e lógica, nem sempre damos conta das conclusões que acompanham o "relatório final" desse processamento, emitido pelo nosso cérebro.

Exemplificando: Você está com uma vontade absurda de emagrecer. E já tentou isso mil vezes, de mil maneiras. Aí, você se matricula na academia, procura um nutricionista, passa a seguir todos os fitness das redes sociais e começa o dever de casa. Daí alguns dias, uma festa de criança ou cerveja com os amigos te tiram o foco e você sai da linha. Bebe mais do que planejado, abre exceção pra algum alimento e toma refrigerante pra curar a ressaca. Entra na internet e vê toda a motivação dos mais fortes e determinados que você jogada na sua cara de uma maneira tão sutil (e até mesmo doce) que a recaída, que foi tão gostosa, fica bem amarga e indigesta. A mente processa tudo isso e o resultado pode ser resumido em uma palavra: culpa.

Então, pra não ficarmos ainda mais machucados e desanimados, nos enchemos de drogas de todo tipo. Aí, a cerveja, coitada, que era pra refrescar, socializar e alegrar, vira remédio para (e não contra) o esquecimento. Pra embalar nosso sono, ao invés de lembranças boas e alegria, rivotril. Pra dar conta da ansiedade que pune àqueles que sempre acham que podiam fazer algo melhor ou mais bem feito, fluoxetina. E pra cuidar da indigestão daquela feijoada que de deliciosa virou um verdadeiro veneno, omeprazol e bicarbonato de sódio. Para a irritação e demais efeitos colaterais desse espantoso excesso de informações e outras drogas, maconha.

Somos muito cruéis com a gente mesmo. E muitas vezes sem nos dar conta de que toda e qualquer escorregada pode se tornar uma equação bem complicada para nossa mente, que vai ter de processar todo remorso e arrependimento e o resultado não há de ser dos melhores. Quando nos criticamos, somos ríspidos e hostis com quem deveríamos ser mais amorosos e cuidadosos: nós mesmos. Sendo auto compassivos, temos mais condições de filtrar as angústias, a raiva, a tristeza e a culpa, calibrando os sentimentos antes que eles se tornem códigos-fonte na programação da nossa mente e das nossas vidas.

Às vezes nos perdemos. E, convenhamos, não é difícil nos perdermos em tempos como os de hoje. A notícia boa é que dispomos de um aplicativo simples, tipo aqueles que a gente baixa pra acompanhar quantos passos demos, quantas calorias ingerimos, quantos copos d'água bebemos. Com a diferença de que este não está disponível para smartphones e dispensa a internet. Trata-se de um aplicativo que a gente instala primeiro no coração. Aos poucos, ele vai emitindo as informações mais adequadas e devidamente selecionadas pra o nosso cérebro, desopilando a nossa máquina de pensar e de ser, a mais perfeita e valiosa de que dispomos.

Se formos mais gentis conosco, mesmo tendo a consciência de que enfiamos o pé na jaca mais do que precisávamos, poderemos ter como palavras-chave da ata do final de semana: felicidade; recomeço; meio-termo. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Amanhã (ou hoje, mais tarde, quando o sol esfriar) é um ótimo momento pra retomar a caminhada rumo aos nossos anseios e objetivos.

Voltamos ao exemplo: Aquele desejo saudável, literalmente, de perder peso nos leva a mudar, devagar, algumas posturas e hábitos. Os excessos passam a não fazer mais muito sentido. O tocar o foda-se fica ameno e menos agressivo. Aí, quando nos excedemos e tocamos o foda-se, já não é mais assim, tão grave. É mais fácil voltar sem o peso da culpa. Por isso é tão importante trabalhar duro para coloca-la no seu devido lugar que é, unicamente, o de nos trazer algum ensinamento. E depois passar. As recaídas já não são mais recaídas, são escolhas – que podem até dar errado – mas não vêm com o selo do fracasso de fábrica. E por aí vai.

Tudo vai melhorando quando a gente fica mais amigo da gente mesmo. Quando fazemos por nós aquilo que fazemos por quem amamos... Colocando no colo, fazendo piada pra minimizar algo sério e doloroso. Cuidando e dando amor, carinho e proteção. Nosso amigo cérebro precisa dessa força para ser legal com a gente. E essa força vem do coração e do que fazemos com os nossos sentimentos.

Tratar da raiva antes que ela nos domine é uma das atitudes mais nobres que podemos ter com a gente mesmo. Desidratar a tristeza com lágrimas também pode ajudar a enfraquece-la enquanto ainda está no coração. E quando ela chegar à nossa mente, vai se somar a outras pequenas tristezas, daquelas que temos até orgulho de acumular, pois sabemos o quanto nos valeram no que diz respeito ao aprendizado, ao valor da sensibilidade que faz de nós pessoas melhores, sem a menor dúvida.

Esse aplicativo traz uma inovação fascinante. Ele pode ter o nome que a gente quiser! Pode ser "Sendo legal comigo mesmo", "Faço comigo aquilo que eu gostaria que os outros fizessem" ou "Amigo cérebro"... Ao intitula-lo, o primeiro passo já está dado: dar nome aos bois antes que eles entrem pela nossa cachola sem lenço e nem documento. Somos nós quem concedemos o visto para o que vai pras nossas cabeças. Nosso cérebro será nosso amigo se formos amigo dele também. Essa troca é maravilhosa como todas as trocas que uma relação de amor e de amizade nos oferta. É a famosa "troca com troco", que além de nos fazer um bem danado, nos acrescenta valores, conhecimento, prazer e felicidade.

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O exemplo do cuidado com o corpo e da busca pela aparência perfeita dado no início desse ensaio é apenas um exemplo simplório. As cobranças podem ser e são de toda ordem: ser mais inteligente, eficiente, melhor mãe, melhor filho. Gastar menos, ganhar mais, ser aceito, enfrentar o preconceito, a miséria e a pobreza de espírito. No final das contas, para todas as nossas angústias e questionamentos, as melhores respostas são aquelas dadas pra nós, por nós mesmos, com amor, carinho e, principalmente, com generosidade e respeito.


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