pseudônima

Escrever é meu refúgio. É quando encontro-me e esqueço-me.

Adriane Cruz

Nota de rodapé para dias de melancolia

É inevitável: de tempos em tempos vamos nos cruzar. E a tristeza também nos ensina, assim como tudo que mexe com a gente. É só deixar que ela venha, diga o que quer e siga seu caminho...


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"Melancolia: Maneira romântica de ficar triste" - Mario Quintana

O perdurar das coisas boas não perdura. Não há dias tão ensolarados que a sombra não alcance. Não há felicidade tão grande que a melancolia não possa abraçar.

Há muito a respeito de se permitir momentos de introspecção e de tristeza. Frases, textos ou letras de música que legitimam o sofrimento e a dor. E não precisa ser uma dor tremenda, daquelas que nos deixam perplexos e nos tiram o chão. Nem um sofrimento tamanho, com motivos realmente válidos e concretos.

Não. A descrença, o desânimo e a melancolia muitas vezes não têm motivos aparentes, nem palpáveis. São sentimentos íntimos, ínfimos até, que nos limitam a alegria e tiram de nós apenas o meio sorriso e a meia palavra.

Esses momentos independem de todo o resto. Eles não medem se tudo está dando certo profissionalmente ou na vida amorosa, enfim, nas muitas relações que estabelecemos com tudo e com todos que nos rodeiam. Nem nas batalhas de convivência que travamos com os outros e com nós mesmos.

Esses momentos não tem nada a ver com fé, ou falta de fé, nem com esperança ou pessimismo. Eles apenas se dão, acontecem, dormem e amanhecem com a gente, sem palavras capazes de justifica-los.

Curtir o baixo astral pode ser uma maneira de se rebelar calado, de cara feia. Uma expressão de descontentamento que vai contra a felicidade escancarada e a qualquer custo que nos é imposta nos dias de hoje. Supere, acorde, caminhe, lute! Seja feliz. Sorria. Ilumine - você mesmo e todos a sua volta!

Perceber-se como o principal estímulo à própria alegria é sensacional. Se esse incentivo se estender para o bem estar alheio também será. No entanto, estímulos só funcionam se forem espontâneos e livres de cobranças.

Portanto, permitir esse momento "pra baixo", que pode durar horas ou dias dependendo da quantidade de coisas a serem compreendidas lá no íntimo, individualmente, pode ser também uma estratégia para que sua próxima visita seja mais rápida.

Vez por outra ele precisa vir, com um monte de bagagens que serão abertas, uma por uma, e entre as quais vamos escolher aquilo que nos serve. O que não nos vale, botamos de volta na mala ou jogamos no lixo. E as próximas visitas virão, outra vez, recheadas de novas e velhas coisas, que, de novo, vamos vestindo ou descartando no decorrer de nossas vidas. E por aí vamos encontrando novos caminhos, descobrindo novas sensações e outras roupas que combinam muito mais com a gente do que aquelas que costumávamos vestir.

A tristeza é solitária, por isso mesmo não perdura. Não há sombra tão grande que o vento não possa dispersar, não há melancolia que uma boa música ou uma boa conversa não possam despistar. E não há, nessa vida, nada que não possa ser modificado e aperfeiçoado – com aceitação, movimento, persistência e amor.


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