pseudônima

Escrever é meu refúgio. É quando encontro-me e esqueço-me.

Adriane Cruz

O filme da minha vida

O Filme da Minha Vida é uma obra completa onde vidas se entrelaçam sutilmente, envolvidas por pequenos detalhes e grandes sentimentos. Inesperadamente, a história nos faz refletir sobre a força e o poder do perdão, que muitas vezes se mostra como único o caminho para a felicidade


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Falar de amor, de cumplicidade entre pai e filho, de decepção, saudade, solidão, sexualidade e traição parece um manjado clichê de novela. Mas nas mãos de Selton Mello, essas temáticas se desenrolam de maneira misteriosa e instigante, do início ao fim, na película O Filme da Minha Vida. Com inegável talento e sensibilidade, Selton fez de uma simples história, passada nos anos de 1960, um verdadeiro relicário. O filme rodeia arte – fotografia, dança, cinema, rádio... Até mesmo a lida na roça, o bordel, a escola e a beira do rio tomam ares plásticos, prendendo a atenção pela beleza e riqueza de detalhes.

Uma luz natural intensa e ao mesmo tempo fosca prevalece até nos momentos sombrios do filme. A fotografia limpa, em tons terrosos, verdes, cinzas e vermelhos, é maravilhosa, assim como a trilha sonora e, juntas, dão vida à arte, cultura e arquitetura evidenciadas no cenário e no figurino do filme.

O protagonista, Johnny Massaro, fez de Antônio, o Tony, um rapaz com grande sensibilidade e uma quase leveza, que em boa parte do filme não consegue fazer prevalecer porque está guardada no peito, amarrada às suas angústias. Sua doçura e calma se criaram junto com ele na educação amorosa e presente que sempre recebeu. E no momento em que decide viver de verdade e não à sombra da saudade e da referência do pai, ele se descobre forte, sensato e justo, o que não o torna um bruto, pelo contrário, avigora ainda mais sua essência generosa. É nítida e brilhante a transição de um menino alegre para um professor triste e melancólico e, depois, um homem decidido, apaixonado e disposto a refazer sua história e de sua família.

O ator francês Vincent Cassel vive Nicolas, pai de Tony, um homem viril, entusiasmado, forte e amável que, sem muitas explicações, deixa pra trás sua mulher e seu filho. O tempo que passa mostra que este homem, traído por suas escolhas e castigado pelo tempo, continua digno e afetuoso.

A história de Nicolas é daquelas que desperta em nós, apaixonados por cinema, aquilo de que mais gostamos: questionamentos e reflexão. Depois de quase duas horas acompanhando o desenrolar da trama, um único momento desperta surpresa, indignação, orgulho e compaixão... Daí, também inesperadamente, o doce Tony desarma a todos. A nós, espectadores, e aos que fazem parte da história.

A atuação de Selton Mello, como sempre, é um espetáculo à parte. Ele dá vida a um coadjuvante forte, sério mas engraçado e com outras características que vão sendo descobertas durante o filme. Paco, seu personagem, tem a rudez daqueles que tratam a vida de maneira muito simplória, talvez para poder suportá-la com mais leveza. No entanto, carrega dúvidas e desejos e demonstra claramente a inteligência e a sensibilidade dos que questionam suas escolhas e seus caminhos. Talvez, assumir seus sentimentos e atos seja demais para um homem como ele.

Mas para o Selton não. Pra ele, com 44 anos de idade e mais de 30 de carreira, nada parece ser difícil. Ao longo desses anos, ele vem crescendo e aprimorando sua arte. Ganhamos nós, com seu trabalho impecável, e ganha muito mais o cinema brasileiro.

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