pulp

Onde tudo é escrito no vapor das madrugadas.

Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio.

A arte sem cortes (ou quase isso)

Birdman é a arte se metamorfoseando. O filme vai além do artista. O "fracassado" personagem briga na vida e na arte para sobreviver aos embrulhos do mundo.


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Existe algo na arte que corre fora da curva. A arte é uma das poucas coisas que consegue moldar, mudar, desfazer, questionar, resistir. O filme Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) é esse tipo de arte. A velha máxima de que, a vida se confunde com a arte: é a cereja do bolo desse filme. Um ator que vive a sombra de um passado publicitário e uma penca de personagens tão loucos quanto à figura de Caver. A vida para um artista é seu maior vicio. Bêbado sem rumo o artista tenta sucumbir sua alegoria, transparecer na merda. A arte é julgada honestamente em uma montagem de um take só. A arte é jogada na parede com sangue e uísque. Nada mais me tira a ideia de que, esse meu texto vai ser julgado repetida e infinitamente por um grupo de pessoas que produzem algo, alguma coisa, nem que seja uma crônica uma nota citando o melodrama de uma usurpadora (novela chicana noventista cheia de noramas). A inesperada virtude da ignorância: sempre ganha. Que seja. A arte escapa porque o personagem não tem técnica para dominá-la (no inicio), mas ela pulsa em suas mãos na sua alucinação diária. Riggan/Birdman tenta sair do personagem principal dos blockbuster, o que faz Riggan desconstruir o papel da cultura de massa que, a mídia, o publico, e, a critica construíram ao longo de bilheterias e tuitadas. A arte gourmetizada. A arte super egoísta. A vida trancada nas polegadas de um celular. A arte precisa sobreviver sem os cinquenta tons de dólares. Nas primeiras quedas do personagem já vamos ao seu elenco que tem: uma filha drogada, uma ex-mulher (milf), uma atriz sonhadora, um ator porralouca (ocupador de espaços), um agente/advogado/psicólogo/cafetão/produtor. O único talvez, que queira atuar de verdade nesse filme (metaforicamente falando é ele quem quer grana). Todos os outros personagens parece interpretarem alter egos duplicados.

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Birdman conversa com Riggan desde seu primeiro ato. O personagem é sombrio como um morcego (sem referencias ou coincidências). Se esconde e circula nos ouvidos de Riggan. Nada como ter asas e não poder voar. Birdman quer fugir desse carimbo de cult e amarra Riggan a suas sutis facilidades fantásticas. Explosões e objetos arremessados telepaticamente não são ironia para um filme que usa uma batida de jazz como trilha naturalista irreal e sugestiva a cada virada de ato. Mike o ator maldito tenta escalar muros do reconhecimento. Riggan tenta dizer para Mike que aquele é seu momento de renascer. Riggan vai dirigindo, escrevendo e renascendo, mas Mike tira sarro disso tudo. O ator tenta criar um humor de Caver em Caver sobre Caver, mas isso não se supera, e logo, ele sai de cena e, nós o acompanhamos para os bastidores, fumando um cigarro tentado ensaiar um jogo com a filha de Riggan que busca a vertigem do fluxo de Nova Iorque. Mike vai além de sua postura marginal e traz uma discussão sobre a primitiva das verdades de si mesmo. Enquanto o filme discute o fato de o critico ser o artista fracassado que não quer sair do palco. Numa visão turva o mainstream se derrete diante dessa película. O segredo de cada personagem é a motivação narcísica que, depois é metamorfoseada em kafkiana quando o pássaro acorda homem. Riggan descansa na espera de sua estréia. Lesley atriz sonhadora quer rever riscos que podia evitar. O sonho americano mora dentro dessa personagem que entra e sai despercebida. A fantasia de Lesley é com o mundo ainda virgem de seduções. Lesley é uma Broadway sem vitrines ou neons. A personagem tem seus momentos bem pontuados. Já Jake o agente de Riggan tenta não derrubar o sal na cerveja de ninguém. O agente é sem dúvidas entre todos o mais caricato. O melhor de Jake são seus trejeitos. É o personagem que mais flerta com o sarcasmo: Jake é literalmente o retrato chapado de hollywood.

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Tento pensar em Birdman como uma arte menor comercialmente (o que realmente é), mas com uma força de vontade colossal. Sendo já esse um dos pontos principais do filme. A frequência de estima dos personagens é derramada na sarjeta simultaneamente com cada segundo que percebemos que “a arte existe porque a vida não basta” uso dessa frase de Gullar como uma das colunas do filme. Na arte tudo pode ter uma relação de amor e o ódio isso é uma reação ao mundo de plástico das opiniões voadoras que chovem na internet. O filme traz questões que geram discussões infinitas. Os critico que ditam a arte? Estamos presos em mascaras sociais? São ideias e discussões validas, até porque lendo e ouvindo sobre o filme tiro algumas anotações sobre a opinião do publico. A grande maioria dos críticos gostou do filme, mas outra parte diz que esse filme é para hipster. Outros dizem que o filme desmerece os blockbuster de superherois. Vou cagar uma regra aqui. Vejo esse filme como uma linha tênue entre as pessoas que tem uma visão imparcial e as de visão parcial, mas por quê? Todos nós somos julgados e julgamos tudo a todo o momento e, dentro disso existe a nossa bagagem cultural social vivida. Tudo influi para julgarmos. Birdman é desses filmes que trabalha com algo muito além da metalinguística. Querendo, ou não, isso incomoda muita gente; porque mexe com o ofício de cada um. O critico se incomoda por não ter a supremacia da palavra. O senso comum se incomoda porque o filme critica o cinema de entretenimento. E a pequeníssima minoria não tá nem aí se o Adam Sandler faz filme ruim, ou se o Wood Allen vai atuar dessa vez. No fim a arte se paga seja ela como for. Birdman foi feito para voar sobre qualquer ponto de vista. No fim do filme concluo que a arte é só uma coisa da nossa imaginação.

Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio..
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