pulp

Onde tudo é escrito no vapor das madrugadas.

Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio.

Ensaio sobre ela

Tudo é sobre ela: as músicas do rádio, o despetador, o ônibus perdido, o vinho seco, o astro vagabundo, o sonho esquecido, a corda de violão partida, o gato, o filho. Tudo de alguma forma é para ela.


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Tudo é sobre ela. Os dias são sobre ela. Até o medo é sobre ela. Por onde ela passa o mundo se agita. Calma. Agora tudo volta. Nas areias de Marte, ou no céu de Netuno ela caminha com seu tédio assistido. Haicai selvagem poesia cilíndrica, circular. Sua rima é penteada nos cabelos castanhos-vermelhos. Ela é tudo. Lágrimas e abismo, sorrisos, autoestrada e solipsismo. Ela só quer repartir a sua partida e mandar os outros se danarem. Ela quer viajar e fugir sozinha deixando os amores no peito, na terra das saudades violetas azuis. Micro solitário ser. Ela vai. Dizer eu te amo seguido de um adeus naufragando. Ela é assim: sonho, tédio, ócio, canção, solidão, enjoada, ciumenta, simpática. Atriz, talvez quando queira? Não segure-a. Ela gosta daquele disco do Geraldo. Só bebe café numa xícara que tem o Chico “xicoró.” Não descobriu ainda o vil metal, nem como usar seu olhar de vazio. Ela percebe quando alguém usa suas palavras numa música. Nua. Ela não tem medo de despir o deserto dos olhos. Minto. Ela não quer despir coisa alguma. Seu corpo cristalino dividiu estrela entre arte e não arte. O que é arte? Sarcasmo e sincronismo. Depois dos sopros salgados do tempo, a vida enferruja o núcleo d’alma dela. Ela. Sono difícil fábrica de trapos papos retalhos frívolos. Quando ela voa para o outro lado; os corações solitários não se aguentam. Ela diz já ter chorado muito. Amores em saturno com ascendente em fracassos. Desespero certo. Olhos nos olhos fazendo jus a canção. Pranto pronto ferindo a mão de um punhal cego. Porre de cafuné e ressaca de carinho. Vinho e sexo. Melhor. Sexo, ócio e preguiça. Ela quem dita. Sem ordem, pois nada a demove. Chocolate, chocolate. Sua pele doce/amarga tímida. Alguma vez o mundo vai resolver parar: só para olhar a fúria dela quando alguém tenta acordá-la. Como pode ser difícil assim imaginar um sonho límpido. Cada gota derramada devolve uma ata do sangue fugaz. Ela desconfia de tudo, antes confiava acreditava no mundo, mas o que houve? “A vida aconteceu” diz ela. As pessoas sempre a decepcionam. Às vezes ela se vê pequenina: chorando, escutando a melodia do silêncio de uma cama vazia. As pessoas não querem nada com ela, não tem furo no futuro que dê jeito. Uma errata em ré menor dói no lar. Na sua morada. Fugir. Escapar. Ela só quer sair de algum jeito, algum dia ela sai dessa carapaça.

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Quando ela se olha no espelho o mundo é outro. Quando ela se olha no mundo, o mundo é um espelho. Existe o luar sobre o seu rosto, existe o vento em algum destino. Toda vez que ela se sente bonita o café que ela faz fica melhor. A comida fica cheia de esperança. Fartura em cada prato. Parto. Mãe de primeira linha. Ela não tem vocação para o berço. Mas quem tem vocação para a vida? Um poema pode fazer com que chore com que grite com os pequenos templários que moram em sua cabeça. Ela não quer saber de onde ou de quando, apenas diga. O fim que ela quer não é nem um fim de hollywood. Ela quer tudo no preto e branco com música de fundo do Alceu Valença. Ela pode tudo o que quer, o que não quer dividi. Busca o espírito selvagem de um poeta maldito. Frágil, seu lado B ainda não foi posto na agulha da vitrola da vida.

Tudo é sobre ela e o infinito parece gélido. Geleiras existem, mas o fogo é inevitável um dia. As flores que ela guarda são flores roubadas do jardim de Deus. O vinho que ela gosta foi roubado da adega de Drummond enquanto olhava meninos em Copacabana, o poeta perdia sua sangria. Ela tem defeitos como todas têm. A perfeição só existe graças a um defeito. A cidade remota reflete cinzas em suas principais vitrines. Exposições do sorriso dela olhando para a estranheza do mar. Ela. Sumindo com a brisa matinal, o tempo vem enchendo potes de desejos e grutas de caminhos misteriosos. Molho de chaves que não abrem coisa alguma. Para ela isso tudo é apenas uma viagem. Ela não quer mais vertigens. Sabendo de todas as dores do mundo: ela resistiu e se espreguiçou lentamente. Foi para o seu sono ensolarado. O presente que ela dá para aqueles que gostam dela são todos. Gosta de se doar, mas não se enganem; ela não vai te adular. Ela pode ser qualquer uma ou nenhuma. Ela pode ser você, eu, nós. Ela vai além daquilo que acha que é, mas não acredita nela mesma. Quem é ela? Para onde ela vai? Quem ela ama? Quem ela odeia? Quem sabe o seu nome? Como pode ela ser e não ser sem acreditar que é. Entende? Ela pode sonhar, desistir, desconfiar, mudar, fingir, mas nunca ela vai deixar de ser. Porque tudo é sobre ela e nada mais basta nessa vida, nem rotina nem desemprego. Tudo é para ela, e o resto é sossego.


Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio..
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