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Onde tudo é escrito no vapor das madrugadas.

Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio.

O verdadeiro super-homem

A essência do super-homem é representada como nunca nessa belíssima animação de Brad Bird. O filme acerta de vez naquilo que nos falta: a nossa humanidade.


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Existem certos momentos que escolhemos para onde devemos ir. Essa escolha vem acompanhada de incerteza, insegurança, ansiedade. O medo do futuro é constante por que, o futuro muda constantemente enquanto pensamos nele. Passamos por coisas às vezes, que influência e modifica nosso código existencial, o núcleo da vida. O caminho é perigoso, as ruas estreitas. Cada vez mais, a vida vem cobrando mais e mais de nossas escolhas. A relação entre o bem e o mal não vai além como Nietzsche queria.

Procuramos, muitas vezes, o necessário para nós mesmos, o simples é frágil, quiçá, perigoso. Choramos muito às vezes rimos pouco. Olhamos algo sem entendê-lo, mas já estamos dispostos para julgarmos. Como tudo na vida, perdemos aquilo que ganhamos naturalmente; invertemos o nosso papel no mundo adequando uma rotina imutável monótona. Conhecemos coisas que mexem com nossa essência, mas não conseguimos mudar mais; ficamos desprotegidos no acaso e criamos uma casca cristalina impenetrável sobre a engrenagem humanista que possuíamos. Ficamos frios seres congelados na miséria abaixo de zero: dentro daquilo que chamamos de corpo. Perdemos o olhar da inocência matutina, perdemos até o caminhar noturno que antes era movido a desafios. Coisas são jogadas constantemente no quintal da hipocrisia, entulho extraordinário.

“Achamos bondade até no inferno” quem sabe a máxima ainda valha para um monte de rio vazio. No fundo no fundo... estamos ultrapassados, pensamos de mais por coisas fúteis, e deixamos escapar um mundo. Um dia movidos por sonhos; hoje nem sabemos mais por que acordamos todos os dias. A retórica é a mesma para o conformismo somos todos industrializados. Uma obra de arte pode transportar o que seria um humanista de verdade. E quando essa obra de arte é um longa-metragem, um filme de um incrível robô gigante com coração de ferro.

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Gigante de ferro é daqueles. Daqueles que pensamos que estamos perdendo nossa compaixão com o próximo. Daqueles que sentimos como é ser algo bizarro. Daqueles que nos faz chorar com alguma esperança em nós mesmos. O filme conta a estória de um menino chamado Hogarth Hughes numa cidadezinha no Maine — Rockwell. O menino mora num casebre bem ajeitado junto com a mãe. O garoto tem o espírito aventureiro gosta de possuir um pouco de emoção na sua simples rotina de ir e voltar da escola. Quando numa noite tranquila o menino vê algo se mexer nos arredores de sua casa. Hogarth sai para ver o que seria. O menino se depara com uma enorme criatura de puro ferro. A estranheza é imediata tanto do garoto como da criatura. O gigante de ferro se alimenta de ferro, e estava ali em busca de sua sobrevivência, mas isso se complica quando o gigante se alimenta do ferro de torres de energia elétrica, logo, o gigante começa a levar grandes cargas de energia.

Essa era a chance que Hogarth tinha para fugir — e fugiu. Hogarth não pensou duas vezes ao ver o monstro agonizando ali, porém, ele voltou e desligou o disjuntor, depois correu assustado para a estrada novamente onde encontraria sua mãe. O menino se perguntava se aquilo era real ou fora só um sonho. No dia seguinte Hogarth escutava pela cidade os boatos de um ser gigante que anda comendo carros, torres e antenas. O menino curioso volta ao local onde tinha visto o monstro, logo, o encontra novamente. Hogarth corre, mas o gigante é mais veloz tem passadas largas. Agarra o menino com uma das mãos e o coloca no chão. O gigante joga o disjuntor no chão mostrando-o como uma espécie de agradecimento. O garoto fica feliz por finalmente possuir o que nenhuma criança possui: um robô gigante.

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A relação dos dois é o bastante para todo o filme. O menino ensina algumas palavras para o robô, boas maneiras, coisas do mundo, etc. O robô passeia pela natureza vê a beleza natural das coisas sem fábricas, sem fumaça, sem pessoas ao redor. O momento é contemplativo de uma beleza única, pois mostra que a natureza do ser muitas vezes vem de sua criação. Somos bons por que nos ensinaram assim e somos maus por que nos disseram que na vida sempre temos que ganhar. Uma linda parábola que o filme faz é quando Hogarth mostra o que é o bem e o mal para o gigante de ferro.

O bem é representado pelo super-homem dos quadrinhos, o mal é representado por um vilão também robô gigante Atom. O gigante se pergunta por que algo associado a ele é considerado como mal? Porque o feio geralmente é ruim? Por quê? Na vida nos é ensinado que o bem é belo, e o mal é feio. Nada disso é verdade. A maior catarse do filme vem no seu fim; quando o robô é digno de um ato mais que humano. O gigante toma a consciência de que ele é o super-homem mesmo não tendo coração humano ele possuía uma alma plena. A referência não poderia ser melhor. O super-homem dos quadrinhos é a representação do ser estranho que caiu na terra e quer proteger toda a raça humana; graças aos princípios que seus pais passaram (lembrando que a referência representa o antigo super-homem da era de ouro). E as almas são eternas, as almas não morrem, assim ensinou Hogarth para o robô. A eternidade vale para qualquer coisa humana, não humana, imaterial, ferro, água, estranha, metamorfa. Que seja. A eternidade vale só para quem tem coragem de possuí-la, assumindo o que é verdadeiramente sem querer esconder nada.

O gigante de ferro prova que ele pode, sim, ser o super-homem, pode ser eterno mesmo que seja só para uma pessoa, ou para uma cidade pequenina como Rockwell. Sem dúvida Brad Bird é um diretor que merece toda salva de palmas possíveis. No seu primeiro filme de 1999 que é baseado no livro The Iron Man de Ted Hughes (mesmo sobrenome do garoto, ham, ham) Bird não se descuida em nenhum momento do filme. Uma boa descrição desse longa-metragem seria: algo que vai além da imagem. Cada cena é tratada com uma delicadeza absoluta não pecando nem no seu visual ou traço, pois estamos falando de uma animação. O que deixa o filme mais atual a cada década que passa, pois vale assistir, também, pelo conteúdo histórico. O filme se passa durante a guerra fria (1957—Sputnik), isso é mostrado sutilmente durante toda sua aventura. O Gigante de Ferro é mais que uma animação sobre guerra e paranóias, é um filme sobre a vida em decadência, e muitas vezes sobre nossos próprios valores morais.


Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio..
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