pulp

Onde tudo é escrito no vapor das madrugadas.

Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio.

Quando ouvimos o outro

Wood Allen mostra que precisamos ouvir a nós mesmos em outras circunstancias. O filme mostra que às vezes precisamos ver nossa vida em conjunto com a de outros, além, da autoanálise ser o grande ensinamento do longa.


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Outra vez estamos aqui perdidos na vida. Escutando nosso eu também perdido. Existem várias outras coisas que esquecemos na vida. Não sei se são sonhos ou algum fragmento da realidade que nos vinha. Embora fingíssemos, o fato é que: bebemos e provamos de tantas coisas durante nossa jornada que tudo parece mais e mais artificial. O azul do céu até parece de plástico às vezes — talvez seja? Quantas coisas na vida que nos deixa tão focado que perdemos o foco nos outros, e naquilo que nos cerca. Família, amigos, companheiros, projetos em conjunto. O quão sério ficamos na busca de algumas decisões. O frio dos olhos vai parecer mais quente e mais constante, até ao ponto de derreter nossa frágil camada de sensibilidade. O filme A Outra de Wood Allen vai atrás desse objeto do passado finito. Marion mulher inteligente madura filósofa; aluga um apartamento em busca de solidão para escrever seu livro. O apartamento que Marion alugará fica ao lado de uma clinica de análise. Marion nota que o apartamento possui um fenômeno acústico devido às entradas de ar. Ela pode ouvir tudo o que se passa na clinica de análise. Marion escuta os pacientes: seus lamentos e preocupações. Ela não consegue achar o silêncio para começar a trabalhar em seu livro. Marion é uma mulher metódica forte e de autosuficiência. Casada com um médico cirurgião Marion se vê com um segundo casamento estagnado já que seu primeiro marido falecerá vitima de algo que fica em aberto no filme. Ela mesma narra suas derrotas. Marion o tempo todo se pergunta como, quando e onde? Escutando os casos do outro lado da parede, ela fica presa nas suas antigas expectativas sobre a vida que queria levar. O diferencial que procura acaba surgindo numa mesma moeda transfigurada num sonho.

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É incrível como depois de algum tempo conseguimos enxergar nossos erros. O passado vem à tona. Nada de cenas boas, essas ficam apenas em algumas fotografias recortadas. O mundo é um furacão de promessas e sonhos basta alguém que confiamos dizer que não somos tão bons, que já perdemos nossas esperanças. A relação de Marion com o pai e o irmão mostra bem isso. O pai de Marion num flashback amarelado discute com o irmão da protagonista. Ele faz uma comparação dos dois filhos: de um lado o gênio Marion e do outro Paul um filho que não se esforçava para ser ao menos regular. Marion se transporta para esse gasto flashback perguntando a Paul o que ele quer da vida. Essa é uma pergunta muito relativa para um jovem. Marion volta ao presente e sabe que errou ao sobressair como algo superior, pois sempre que pedia a sua opinião ela arrumava uma critica negativa. O mundo não pode ficar entre os que tentam e os que não tentam. O ponto final de cada história às vezes é um começo de uma mudança. Os pacientes com suas lamentações puras, democráticas aos ouvidos da outra. Marion. Enxerga-se nos soluços de uma paciente grávida: chega até a segui-la na rua, mas se recompõe. Volta por ironia a lembrar de sua juventude; seu primeiro marido; seus finais de semana; trancada no seu quarto pintando quadros sobre o jardim que circulava a sua casa. Marion caminha perdida pensado no quanto é difícil escrever o começo de um livro. O quanto é difícil terminarmos o inicio. Escrever requer silêncios de dentro e de fora. Seu irmão Paul um funcionário do MU (movimento uniforme) indaga a irmã — por que anda perdida? Marion não sabe mais se sabe de tudo. Seus estudos em filosofia não adiantam de nada agora. Seu marido não se interessa mais pela o amor mais quente. Sua cama fica vazia. Ensaia encontros com outros casais só para fingir um possível carisma do casal. Marion beija outra boca, além da boca de seu companheiro. Larry Lewis um escritor cheio de paixão e intensidade: tudo que Marion sempre teve em pequenas doses. A decepção com a vida que levava a perturbava. Ficava ansiosa por ouvir os lamentos do outro/outra. Às vezes só havia silêncio, e o silêncio a perturbava ainda mais agora. Marion é fria e direta, mas não conseguia ser isso com sigo mesma e, isso só afastava quem queria gostar dela. Marion novamente tenta fazer uma ligação com o passado. Seu pai agora está no divã. “Onde errei com os meus filhos? Dei mais atenção a um, mas o outro...” Nossa busca interna é por uma decisão menos solitária. A decisão plural é uma face apaixonada. A outra sempre busca um caminho incerto.

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O filme já diz em sua primeira cena que, o que está em cheque é uma autoanálise de nós mesmos. Num dos arcos Marion se encontra com o seu possível retrato mais jovem. E ela diz ser triste, a vida a colocará em uma sinuca de bico. Nesse arco, também, vemos o marido a trair com uma conhecida. Marion se reflete em vários personagens do filme. Primeiro: seu irmão Paul com quem perdeu o contato por estar sempre um degrau abaixo do seu. Segundo: a grávida que chora por decisões da vida. Todo mundo chora. O choro é o banho d’alma. Marion leva um tempo para perceber isso. Terceiro: seu pai que busca razões na sua forma de criação e compreensão dos filhos. Quarto: o escritor Larry Lewis a quem dedica a ultima cena. Larry é um romântico. Ele fez com que Marion reparasse que para entender a vida, o amor, basta não querer entende-los. Ver o jogo do lado de fora sempre é mais fácil, mas quantos buracos precisamos cavar para entender isso. Sempre é bom se autoanalisar para não cair nos velhos precipícios que a vida nos coloca.


Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio..
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