pulp

Onde tudo é escrito no vapor das madrugadas.

Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio.

O Céu de Tropix

Céu coloca os cheiros da madrugada paulistana nesse disco que já pode ser considerado uma obra prima da música brasileira.


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O disco Tropix vai da balada alucinante aos ecos do shoegaze. O amor é quem dita o disco. Ou seriam as decepções com todas as formas de amores platônicas subversivas. Desde sua primeira faixa Perfume do Invísivel onde Céu mostra os diálogos corporais de sua música que vai das batidas sintéticas melancólicas passeando pelo bom é velho discol music deslumbrante. A obra não falha no quesito fazer dançar. As batidas de trip hop são também muito bem exploradas em cada faixa do disco. Os arranjos mostram muito bem isso, pois cada toque de guitarra parece soar como uma linda dança nonsense. A segunda faixa do disco Arrastarte-ei busca o balanço da música tropical em que Céu tanto gosta de incorporar em suas canções com o sintetismo virtual. Começando a canção como um “tecnno tropical” a faixa tem grandes feitos harmônicos nada como a genial produção de Hervé Salters (General Elektriks) e de Pupillo (Nação Zumbi) não possa fazer. A mesclagem que é feita do som digital com a música popular é tão frágil nos ouvidos que chega a ser mágico. Arrastarte-ei já busca mostrar qual é há do disco o que ele quer: quais os motivos intenções e (in)certezas. Céu trabalha com melodias e letras bem subjetivas incisivas em cada curva cortante nas dobras das escalas de sua literatura. Amor Pixelado representa a maior das intenções de Céu; que busca o tropical e o digital em um mundo na qual a comunicação nos engole dia após dia. A compositora fala e exclama sobre um amor distante que vive agora só pelos cantos da vida virtual, talvez não seja só sobre isso, a música sempre pode ir além, a arte sempre poderá ir além.

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De todas as formas a melhor que pode-se caracterizar esse disco é: frio. Todas as faixas possuem o tom inebriante das madrugadas o azul da capa, o cinza das canções. Baladas alegremente tristes ou canções sedutoras de amores difusos caídos. Tudo é uma variação de cores tropicais Varanda Suspensa é a música mais quente do disco inteiro; a única que quebra os realces da noite que percorre/perfura em todas as faixas. Na letra Céu fala de uma varanda bucólica onde as coisas descansam junto aos pés de manga e se transfiguram com o ar da tarde-noite que muda. Etílica é uma balada de dance com muitos tons de pop rock a canção é um porre de amor com saudade com o peso necessário que a melodia exige da letra. A Menina e o Monstro é a canção que Céu escreveu para a sua filha que cantarolava a melodia da canção. Os efeitos musicais que são usados ajudam muito na forma que saí o refrão que literalmente corre sobre os trilhos de um trem.

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Outra das músicas que tem tons tropicais mais quentes é Minhas Bics. A faixa une o Mpb com as boas viradas de guitarra. Tem o acerto monocrático dos arranjos e a letra da música é com certeza uma viagem a parte. Céu compõe 90% do disco letras e melodias; é certo em duas músicas Chico Buarque Song é uma delas. A música é um cover da banda paulistana Fellini a canção é um devaneio sobre o cantor. A outra canção é A Nave Vai que é absoluta no ritmo dançante que Céu transforma a canção lembrando as batidas dance e as sonoras elétricas dos anos 80 e 90. Essa faixa é composta por Jorge du Peixe. Sangria é um bolero um choro uma canção mais que amarga. Composta em conjunto com Lira a música traz aos ouvidos o bom tom de canção de cabaré em vermelho sangue. A ausência das portas fechadas e a garota número dose entrando ao som de Sangria a valsa mórbida, o bolero que direciona as passadas lentas que todos querem dançar. Já em Camadas: Céu mostra-nos uma letra forte com a sonante de que ela faz a canção subir e descer como se nos avisasse que o disco está prestes do fim. Camadas é uma música que parece uma ode à vida a dois. As coisas bem ou mal resolvidas. Os abismos e os caminhos que a vida conjunta nos traz. Perdas e ganhos. Como um filme ou um conto da vida real. Camadas é única em reflexão. Para fechar o disco com o melhor possível Céu nos dá Rapsódia Brasilis uma canção que daria um romance um artigo inteiro só para contar essa projeção que é a canção. Com batidas tropicalmente eletro africanas essa música conta uma aventura de Sinhazinha pelas saias da cozinha da cozinheira narradora ativa. Sinhazinha só quer ser livre daquilo que querem impor para ela. A menina-moça quer ficar na companhia de quem ela quiser. Fazer o batucar das coisas da vida do jeito que ela quer. Tropix é uma viagem dançante nas estrelas. Uma obra sobre o amor e suas oscilações. Um disco sobre superação e ascensão. Uma obra magnífica sobre como a música pode ser tantas em uma só noite, em um só dia numa só batida da valsa ao caos aleatório livre de dançar como queiram.


Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio..
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