pulp

Onde tudo é escrito no vapor das madrugadas.

Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio.

Uma semana de Poesia

A poesia do cotidiano sendo escre/vida por um simples motorista de ônibus.


id_40508.jpg Sem mais delongas. Paterson. Mais recente filme de Jim Jarmusch é um grito lirico de silêncios perdidos. O filme conta a história de Paterson (Adam Driver) que é um motorista de ônibus na cidade de Paterson. Sim, o personagem fã de William Carlos Williams tem o mesmo nome da cidade do poeta dos sons desimportantes. Paterson vai rescrevendo seus poemas a cada parada de ônibus. O personagem é uma página em branco que se instiga por novas ideias. Os descobrimentos de Paterson com a própria poesia é um feito único criado pelo ator. Enquanto ouvimos sua declamação em off as palavras vão banhando a tela com a sua ortografia. O que torna a imagem natural; não precisa mais explicar nada: basta apenas, enxergar a poesia que imunda a tela. Paterson é um personagem tímido, vive nos cantos das paredes, seu cotidiano nunca parece imprevisto, seus devaneios parecem calculados por segundos improvisados. Os seus poemas não buscam a rima, o clássico, o espanto, o reflexível. A poesia de Paterson é para ele mesmo se libertar e com isso libertar seus semelhantes, como numa progressão do filme em que Paterson encontra uma garotinho de onze anos que é poetisa. A garotinha lê um de seus poemas para Paterson. Ele fica de imediato extasiado com a agulha poética que a garotinha possui. As inocências dos dois poetas é tocante. Jim Jarmusch coloca a melancolia no andar do personagem nos breves sorrisos, nas apostas. No amor etílico. Sua companheira Laura (Golshifteh Farahani) é uma bela garota com toques sonhadores prodigiosos desastrados, rumos previsíveis de vez ou outra. Laura é a jujuba da relação com o seu cachorro Marvin que pontualmente Paterson o leva para passear à noite quase todos os dias. Laura sonha em ser cantora country e busca convencer Paterson a ir atrás de uma editora para publicar seus poemas. aoCTAwPYvUnz4o5krkVxTeSIeHM.jpg

A direção de Jarmusch é leve como sempre, sútil, sua mão é como uma pluma guiando a câmera. Cada dia da semana Paterson acorda com um poema a ser construindo. Laura pensa em como vai ser o seu estilo de se vestir ou se vão gostar de seus cupcakes na feira da cidade. Outro ambiente a qual vemos Paterson é no bar, tomando sua cerveja depois do jantar. O personagem gosta de fletar com os olhos as poucas coisas que circulam por ali. Parece que ao sair Paterson está sempre em busca de um fragmento que finalize seus poemas. Seja nas conversas que Paterson observa dentro ônibus. Seja escondido do mundo dentro de sua casa trancado num quarto minúsculo onde escreve por horas. O personagem não tem certezas o quanto a poesia o deixa mais vivo. Paterson só descobre isso quando perde o seu caderno com todos os seus poemas. O personagem se vê sem trilhas. Parace que o caderno era o que definia o seu roteiro, Paterson ao escrever fazia um roteiro de sua vida. Onde ele buscava sempre o mais repetitivo caminho. Sua visão para a vida não tem nada de repetitivo, pois Paterson é movido para diagnosticar várias formas de escrever poesia dentro do mesmo cotidiano. Isso é de uma beleza absoluta. Entre os lugares favoritos de Paterson está a cachoeira: cartão postal da cidade de Paterson. Paterson sempre para lá para rascunhar uma poesia. paterson-adam-driver-2.jpg O fim do longa é o fim da semana de Paterson. Acompanhamos a vida do personagem de forma a ser tão orgânica que parece que algo nos falta, talvez, penso que falte a nossa presença dentro daquela melancolia azul-vermelho. Os poemas de Paterson são sobre sua companheira, sobre uma caixa de fósforo, sobre uma noite qualquer, sobre o imprevisto da vida. O personagem tem uma aura de benevolência incrível. O que torna a empatia do espectador sobre ele logo no primeiro take do filme. Para finalizar a linguagem do filme é acessível a qualquer um. Jarmusch faz uma brincadeira linguística com o personagem. Paterson que mora em Paterson dirige um ônibus que circula Paterson. A cidade é sua poesia e ele é a figura ainda a ser lapidada, para virar a argila da cidade que existe dentro de Paterson. Paterson sonha em si transformar em poema, se o seu sonho de virar palavra; tornar-se realidade a cidade de Paterson para sempre será a mesma.


Ernane de Sousa

Escritor, ocioso por natureza tudo que tem na vida é uma máquina de escrever antiga e uma coleção de xicaras de café frio..
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