Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos

A grandeza da pequena Alice no país das maravilhas

Obras recebem o título de clássico quando nos trazem questões que refletem nossas experiências cotidianas e conseguem comunicar-se com nosso subjetivo. Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, é uma dessas. O livro traz questões como imaginação de uma forma simples e muito bem construída. E tudo isso pelos olhos de uma criança. Esse foi o "tom de clássico" do livro de Carroll: uma criança que imagina um mundo.


Alice (pinterest 500k).jpg Créditos da imagem: https://goo.gl/NvaMjE

Os grandes clássicos da literatura sempre nos trazem algo novo. Seu "rótulo de clássico" vem atrelado exatamente a essa novidade de cada leitura, essa identificação subjetiva com as palavras e símbolos que os livros nos trazem. Uma boa leitura de um clássico sempre tem algo a nos dar de novo, de inédito, de encontro ao nosso mundo. Um desses clássicos, famoso por ser destinado a crianças e polemizado por adultos, é Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll.

Classificado dentro do gênero nonsense, a obra traz a história de uma menina loira, pequenina, que está entediada e decide seguir um coelho branco, quando o vê passar correndo com um relógio na mão. Ao seguí-lo, cai no buraco em que aquele havia entrado e vai parar em um mundo "sem sentido", um mundo de experiências que ultrapassam até mesmo o seu "senso de realidade", sua perspectiva de si mesma. Carroll era matemático (nome verdadeiro Charles Ludwig Dodgson) e tinha um grande apreço por contar histórias e divertir-se na companhia de menininhas. Hoje a primeira crítica "adulta" seria já disparada. Porém, seus encontros com as crianças lhe proporcionaram o material que faltava na sua matemática, que é o reino das exatidões, das verdades absolutas e dos números. Foi das crianças que Carroll conseguiu tirar a imaginação nonsense e sem compromisso de uma boa história.

Alice no país das maravilhas tem como axioma a imaginação da personagem principal, a Alice. Esta passa o livro inteiro se fazendo perguntas acerca do mundo ao seu redor, sem importar-se com o fato de as coisas seguirem uma lógica causal diferente da costumeira (e há uma "lógica costumeira"?). As passagens de capítulos deixam evidente, além disso, que a preocupação com o "início, meio e fim" não são importantes para uma boa história; muito menos a "realidade" – e, no entanto, quando Alice busca recitar seus poemas, que havia decorado na realidade fora do país das maravilhas, acaba por trocar muitas palavras e significados. Essas trocas são propositais: como poderiam manterem-se os poemas, com as mesmas palavras e os mesmos significados se a realidade que os produziu já não é mais a mesma? Seria um absurdo, diria Alice. Mas tudo se encaixa na lógica que Carroll quis trazer a sua obra: é imaginação de uma criança, o país das maravilhas, isto é, não deve respeitar em absoluto a realidade (que por si só não deixa de ser imaginada). O que é mais impressionante nisso tudo? O fato de que nós mesmos, ao lermos o livro, mesmo sem imagem alguma, temos a capacidade de enxergar pelos olhos de Alice um país que "não existe". E aí está um grande feito de Carroll: fazer crianças, adultos e qualquer leitor imaginar a imaginação. Mas não para por aí.

O livro traz também discussões filosóficas, existenciais e ontológicas que são ditas por uma criança em conversas com animais e rainhas, isto é, as discussões, baseadas nas experiências de Carroll com as menininhas, são reflexo de questões que, possivelmente, já estejam conosco desde a infância, e que o autor conseguiu exprimir em um livro nonsense para um público, inicialmente, infantil. Um dos maiores exemplos dessa afirmação vem da conversa entre Alice e a Lagarta. Esta, ao ver Alice, pergunta "quem é você?". Alice responde que não sabe dizer quem é, já que passou por várias mudanças desde que acordou nesse dia. "Pelo menos sei quem eu era quando me levantei essa manhã..." é a frase que dá abertura para a pergunta da Lagarta, que traz o conteúdo ontológico do diálogo, quando esta diz "que quer dizer isso? Explique-se!", ao que Alice responde, sabiamente, "receio não poder me explicar [...] porque não sou eu mesma, entende?". A personagem, uma criança, entendeu que, estando ela em uma posição diferente da que estava anteriormente, tendo passado por muitas experiências, já não pode mais explicar-se por já não ser mais "ela mesma", ou a "antiga Alice". Muitas pessoas "adultas", para não dizer a maioria, não chegaram a uma conclusão tão essencial quanto esta; talvez nem filósofos o tenham feito – ou poucos o fizeram –; e o que faz Lewis? Coloca o diálogo e o pensamento em uma criança curiosa e pensante (virtudes caras aos "pensadores adultos").

A magnitude da obra de Lewis Carroll e sua classificação como clássico são, a partir do que foi dito, acertadas. Em um livro supostamente infantil, o autor consegue trazer questões essenciais e perguntas que as crianças com quem convivia, possivelmente, lhe faziam. O livro não tinha a pretensão inicial de ser publicado – fora uma história contada em um passeio de barco com a Alice real, amiga de Charles, e que viria a se tornar um livro-presente para esta –, muito menos de ser vendido. Porém, ao ser disponibilizado para leitura, trouxe reflexos nos leitores que somente Alice, talvez, tivesse sentido. A obra consegue refletir pensamentos infantis, que nos acompanham durante toda a vida. Questões fundamentais que a mais nobre filosofia até hoje estudada. E tudo isso em cenários imaginários, "longe da realidade", criados para divertir, construídos para iluminar um caminho de uma pequena personagem confusa, curiosa e muito criativa – semelhante a todas as crianças.

Alice traça, com o seu movimentar-se por cenários diversos, uma linha que vai para além do sensível. Lewis Carroll deu a menina de carne e osso, sua amiga, uma personagem, homônima, capaz de passar pelas experiências mais incríveis que ele pôde imaginar para uma criança. Alice, a do livro, ao traçar seu caminho, vai construindo uma visão de mundo peculiar; questiona alguns e reflete com outros; brinca, se diverte e procura aprender; segue caminhos confusos, mas pouco se importa onde vai chegar, como a mesma deixa claro ao Gato de Cheshire em conversa com este. Alice é a personagem que representa uma criança real: curiosa, brincalhona, preocupada com questões suas (e somente suas) e com muita energia para buscar respostas. Este talvez tenha sido o grande feito de Carroll: captar a essência daquela criança que não deveria se perder nunca dos nossos olhos; aquela que, se entrasse no buraco do coelho, nós deveríamos seguir, sem se preocupar com o "para onde". Alice no país das maravilhas é clássico por nos trazer em cada capítulo, cada frase, cada pensamento e experiência de Alice um pouco da imaginação que movimenta o mundo e o torna uma maravilha.


Jéferson Alves

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