Jéferson Alves

Professor e filósofo. Servições gerais para manutenção de pensamentos

A justiça é somente negação da injustiça? Se for, temos de repensar nossos conceitos.

A justiça é um conceito muito discutido na contemporaneidade. O que cada um pode e deve fazer, até onde podemos ir, quais punições são cabíveis para quais ações são discussões que banham o cotidiano de todos. Há um novo modo de pensar a justiça e a injustiça? Poderíamos encontrar um modo de vivermos sem a necessidade de punições? Há de se pensar.


A justiça é apenas negação da injustiça.jpg "La Valse" de Camille Claudel - 1889-1905. Link imagem: https://goo.gl/BXCDSA

Em tempos de crises e de balanços éticos no mundo todo, muitas questões têm sido discutidas, muitos conceitos alçados para serem debatidos e muitos destes tornando-se alvo de críticas vorazes e de "especialistas" no assunto. Um dos mais discutidos, em pauta desde há muito tempo, é o conceito de Justiça. Ser justo e arauto da mesma é quase uma regra geral indiscutível. Mas, já paramos para pensar no que é "ser justo"? A justiça é o que eu penso que é certo ou é algo que todos, juntos, pensamos que é certo?

Muito já se pensou sobre essa palavra. Ela já foi dividida em várias (justiça divina, justiça natural, justiça objetiva, etc.), destruída e reconstruída, desmembrada e reagrupada. Alguns pensadores já se debruçaram sobre o tal conceito e o fizeram seu axioma filosófico, buscando em textos, ações e na vivência em sociedade as respostas para "o que é justiça?". Atente: justiça em sociedade, isto é, entre e com humanos. Para ajudar a pensar, vale trazer, aqui, Platão, em República, e Schopenhauer, em O mundo como Vontade e como Representação.

Ambos autores partem do princípio (que será aqui utilizado como forma de reflexão) de que a justiça é negativa, isto é, serve para negar a injustiça. Essa afirmação fica clara em Platão quando o mesmo coloca em Glauco o discurso sobre o "anel da invisibilidade", dizendo que, se todos tivessem os meios e a força para cometer injustiça e, egoisticamente, salvar vantagem, todos o fariam. O anel é o exemplo. Um homem encontra o anel e descobre que pode se tornar invisível – utiliza-o, a partir de então, para descobrir segredos e destruir seus inimigos e ganhar vantagens nunca imaginadas. Platão argumenta que ele o faz por não ter a força da punição, isto é, por não poder ser visto enquanto comete a injustiça (espionagem, nesse caso), não corre o risco de cair na força da justiça (punição).

Em Schopenhauer, vemos uma ideia semelhante, mas que volta-se muito mais para a compaixão e utiliza-se do conceito de egoísmo para dar uma ideia de justiça do Estado e da Lei, trazendo um lado, talvez, positivo para isso. Para o filósofo alemão, a injustiça é ainda a positiva, sendo a justiça a negativa – novamente, para negar a injustiça –, mas aqui há um acréscimo que nos ajuda a entender o conceito e, possivelmente, um ponto positivo (agora no sentido de bom) para a mesmo: a injustiça é o invadir a esfera do desejo da outra pessoa (da vontade, com letra minúscula – o que, em Schopenhauer, é diferente de Vontade com letra maiúscula), invadir "os limites da afirmação alheia da vontade". Como o autor nos mostra, "quem sofre a injustiça sente a invasão na esfera de afirmação do próprio corpo" (corpo enquanto Vontade e sujeito). Assim, quando se sofre uma injustiça, o que está acontecendo é a negação da minha própria vontade por um "indivíduo estranho", alheio a mim.

Pensando a justiça pelas duas perspectivas, portanto, poderíamos entender que a mesma só se pode fazer aplicável caso haja a injustiça – o que é plausível, visto que se todos respeitassem os limites das vontades alheias e da sua própria, não seria necessário uma justiça nesse sentido. Mas, pensando pelo lado do egoísmo, não seria a injustiça uma forma de ganho individual um tanto quanto perecível? Veja: se cometo injustiça, mino a convivência e acabo por minar, também, a sociedade. Ao fazer isso, estou contaminando a mim mesmo com a injustiça e privando-me de direitos e de uma vida em paz de convívio, permitindo que outros desejos meus possam ser realizados. É o chamado "tiro no pé". A justiça, por sua vez, acabaria por ser necessária como punição para o transgressor – sendo assim, também, aplicável a casos semelhantes, se vieram a acontecer –, ou seja, seria criado o medo de uma punição para todos os tempos e indivíduos vindouros. Uma lástima.

A justiça, tão discutida nos tempos de hoje, como já dito, é realmente, então, somente negação da injustiça? Talvez o seja, ainda. Mas há, possivelmente, uma maneira de não mais precisarmos dela, no sentido de negação aqui apresentado. E o nome disso é o que chamamos compaixão. Não a compaixão de pena por alguém, mas sim a compaixão de sentimentos empáticos para com o outro. Seria, utilizando-nos do lado bom do egoísmo, uma troca de egoísmos: pensando em mim e nos meus desejos e na satisfação da maior parte deles, pensarei também no outro, um outro ego, que terá seus próprios desejos. Nós dois, assim, em estado de compaixão, de sentimentos empáticos, agiremos de modo a que nenhum sofra por uma injustiça causada por algum dos dois. Desse modo, torna-se possível um convívio sem a necessidade de uma justiça do medo, da punição – a justiça seria o conceito que exemplificaria o nosso pensar sobre o não cometer injustiças e infundir sofrimento ao outro. E o vetor disso seria o egoísmo, o mesmo causador das injustiças.

Essa é apenas uma breve exemplificação de um pensamento sobre o justo e o injusto, a partir de dois grandes pensadores. Mas há muito o que fazermos ainda. Há de se pensar muito sobre si mesmo para, a partir do entendimento de mim e dos meus desejos/vontades, poder entender como e até onde posso agir para que os mesmos sejam satisfeitos, e pela compaixão, então, poder entender que há outros egos espalhados por aí – alguns, inclusive, que podem me auxiliar na minha satisfação – que também precisam afirmar seus corpos e suas potências, suas vidas, suas Vontades. Talvez, se começarmos a pensar um pouco mais por essa linha, teremos uma maior chance de modificar esse pensamento de justiça que fora apresentado no texto – e que se faz presente, muitas vezes, no nosso cotidiano nos dias de hoje.


Jéferson Alves

Professor e filósofo. Servições gerais para manutenção de pensamentos.
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