Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos

A nossa loucura em O Alienista, de Machado de Assis

A loucura é um tema que atravessa nosso cotidiano, seja em conhecidos indivíduos, seja em costumes de pessoas próximas – mas sempre como um julgamento. Em O Alienista, Machado de Assis volta a essa tão deliciosa discussão: o que é loucura e quem são os loucos? Talvez sejamos nós mesmos.


fixing_myself-1280x1024.jpg "I'm not crazy [...], my reality is just different than yours" - Lewis Carroll. Link imagem: https://goo.gl/h12ATV

Das várias obras clássicas, podemos destacar, no Brasil, as de Machado de Assis. Escritor carioca que faleceu em 1908 e nasceu em 1839, é hoje considerado um dos maiores – senão o maior – escritores brasileiros. Tem sua obra reconhecida e retrabalhada, reestudada e revista permanentemente, visto seus livros trazerem, além de uma vida e uma história especial, um tom de espelho que reflete os indivíduos que o leem. São obras que versam sobre cotidianos ficcionais, mas que dizem muito sobre os cotidianos reais. Uma dessas obras é O Alienista, que trata de um caro termo dos sujeitos contemporâneos: a loucura.

A personagem central da obra é Simão Bacamarte, um médico que se forma na Europa e regressa ao Brasil na intenção de por aqui se estabelecer. Ao chegar, encontra na cidade de Itaguaí uma oportunidade de exercer os conhecimentos que adquiriu em Coimbra e Lisboa, além da Espanha. Exerceria a função de "curandeiro da alma", dita pelo seu brado "A saúde da alma é a ocupação mais digna do médico". Para tal, abriu um hospício, chamado também de hospital psiquiátrico ou de "asilo", conforme o escritor. Qual seria a função da casa e do médico? Identificar os loucos, colocá-los todos em um mesmo lugar e dar-lhes alento, estudando-os, caso a caso, em suas particularidades.

Machado é, sabidamente, um exímio escritor e usa muito bem as palavras e a língua portuguesa. Suas descrições e seu conto de histórias estruturam-se maravilhosamente em termos de organização frasal. Além disso, é um grande pensador e, pode-se dizer, um filósofo literário, brasileiro. Suas histórias conseguem trazer o tom de novidade de pensamento sobre assuntos já vastamente tratados. Em O Alienista não é diferente: Machado trata da loucura e de como a identificamos nos outros, mas dificilmente em nós mesmos, bem como a tratamos como algo que, além de distante, é tido como ruim e depreciativo. Além disso, levanta a questão da veracidade e validade da ciência, termo tão caro à racionalidade do seu século, o XIX. E Simão Bonaparte vai ser o alvo desse pensamento e dessa crítica.

Na obra, o médico passa recolhendo todos aqueles que tem um comportamento diferente, que fujam da "normalidade", ou das normas sociais (podendo encarar isso até mesmo como uma espécie de micropoder foucaultiano) da comunidade. Inicialmente, todos acham lindo o trabalho do médico, visto que ele está preocupado com o "bem-estar" dos cidadãos e busca estudar a loucura como forma de afastá-la daqueles que estão "sãos". Seus estudos se iniciam com alguns indivíduos que tem distúrbios de comportamento e acabam afetando outros indivíduos, passando para aqueles que falam sozinho e depois tomando proporções maiores (ou menores, se considerar o olhar pelos detalhes e especificidades), chegando até aqueles que tem problemas pessoais específicos e discutem demasiadamente.

A reflexão a partir daqui é baseada na ideia de que o médico coloca apenas os loucos no asilo, na Casa Verde – nome dado pela cor das janelas do edifício onde se colocam os ditos doentes. Assim, aqueles que lá não estão podem se considerar sãos. A Casa Verde passa a ser um ponto de referência para o "eu sou normal", isto é, "os de lá são loucos". Porém, o enredo da obra e a maravilha de Machado fica no traçado da seguinte linha: a partir do momento que Bacamarte passa a colocar pessoas que a sociedade ao redor não considera loucas, que considera "boas" – como se ser louco fosse ser mal –, como o seu Costa (homem que na história herdou uma grande quantia de dinheiro e o distribuiu entre aqueles que precisavam, ou seja, um homem que respondeu com caridade a uma fortuna recebida), então todos entraram em choque. Deste ponto em diante, também, com todos em estado de espanto, o "ciência é ciência" de Bacamarte passa a ser questionado, assim como questionamentos da racionalidade e de sua validade e estatuto de "verdade" passam a surgir – ponto que deixar-se-á suspenso para outro momento.

Além disso, nesse momento da obra entra a questão social e a crítica cômica de Machado: quando os cidadãos de Itaguaí não consideram mais loucos alguns dos que estão na Casa Verde, então passam a questionar o que é a loucura e que tipo de ciência o tal alienista está a realizar. O que a obra, então, nos diz? O que nos passa Machado? Com exímio, o autor nos passa a ideia de que consideramos loucos aqueles que são diferentes, aqueles que tem costumes cotidianos diferentes e que é pela ciência – quando aceitamos artigos e escritos porque estão com o falso atestado "pesquisas afirmam" em seu corpo de texto – que embasamos nossas críticas. Porém, quando essa mesma ciência se volta para os nossos costumes e para as nossas "loucuras", então ela passa a ser questionada, refletida e até mesmo invalidada. Surge o refletir, o "desautomatizar" a vida.

Interessante também notar o que é considerado loucura no livro: o não apego aos bens materiais, a crença em maldições e espíritos, o falar sozinho, etc. Tudo que se colocava fora do dito "normal" (que pode ser traduzido por medíocre, médio ou comum) era tido pelo médico como loucura. E os cidadãos apoiavam. Porém, em determinado momento, a diversidade se mostrou, os diferentes hábitos foram expostos e haviam mais pessoas dentro da Casa Verde do que fora dela. Aí se toca no ponto crítico da obra: os cidadãos perceberam que os residentes da casa talvez não fossem loucos, mas apenas diferentes, que talvez o que considerassem loucura fosse apenas o modo de ser de sua comunidade. Quando mais gente está dentro da loucura do que fora dela, então há algo de errado com a determinação da loucura.

Um grupo se forma para acabar com a casa. Um protesto é feito. Uma união da comunidade em prol da própria comunidade. O que é a loucura? Já esta não é mais uma discussão daqueles que protestam. Estes querem que o médico libere os residentes porque não mais os consideram loucos e agora os protestantes sentem-se culpados por tê-los deixado chegar nessa situação. Interessante desfecho da obra: no final das contas o cientista é que era o único louco. Aquele que se dizia o arauto da ciência. Entende ele que seu caso era único e era apenas a si mesmo que deveria tratar. Bacamarte entendeu o principal de sua vida de estudos: deveria curar-se de sua visão deturpada pelas suas próprias experiências. Sua doença era a pré-conceituação de atos de outros. A ciência, assim, regride para sua genitora, a Filosofia, isto é, volta para a reflexão sobre si mesmo e sobre a vida em geral.

O alienista somos nós. Todos os dias identificamos loucuras e doenças em todos os cantos, mas nunca a diferença como simples diferença. O tratar uma doença do outro é, na maioria das vezes, o tratar de si mesmo. O maior estudo e o maior caso de loucura é sempre o meu próprio. Machado mostra isso lindamente em sua obra. Difícil identificarmos problemas quando estes dizem nos dizem respeito diretamente, mas facilmente os identificamos quando nos impedem de seguir vivendo. Talvez o ponto axiomático dessa obra tenha sido mesmo esse: expor a nossa loucura de achar que todos a minha volta são loucos e eu sou o único são. A solução? Machado nos dá: devemos nos internar e nos tornar nosso próprio objeto de estudo.


Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos.
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