Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos

Carta aberta aos meus pais

Todos os dias há alguém preocupado com meu bem estar. Me perguntam se comi, que horas volto, se levei casaco, se estou feliz, se meu trabalho e minhas atividades estão me fazendo bem, como está minha saúde. E eu, quando me preocupo com estes, que me querem tão bem? Esse texto é uma demonstração de como esqueço de agradecer aos meus pais, todos os dias, por tudo que fazem por mim e para mim.


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Olá, pai, olá, mãe. Como estão vocês? Vi que estão sem tempo para muita conversa, preocupados com as contas da casa e a organização, com a limpeza semanal do nosso lar; vi também que param pouco, para um chimarrão, quem sabe, no final do dia, mas que estamos conversando pouco. Como vocês estão? Estão se alimentando bem? Viram que tinha um pudim na geladeira, inclusive foi feito por um de vocês? Estava bom? Podem comer, mais de um pedaço, é todo de vocês.

Mãe, tu, que está trabalhando de segunda a sexta, desde cedo até o final da tarde, como está sua saúde? Tuas pernas ainda doem? O joelho já parou de incomodar? E a coluna? Ontem ouvi pouco sobre o que tu havia realizado no trabalho, mas quero saber, hoje, sinceramente, como estão as coisas por lá. Está gostando de fazer o que faz? Me mostre alguma foto, se puder tirá-las, ou, talvez, algum exemplo do que tu faz. Quero saber, quero conhecer teu trabalho. Lembrei do último troféu que tu me trouxe, que me mostrou os detalhes. Um baita trabalho, parabéns pelos teus esforços. Ah, tu também aprendeu a mexer em uma nova máquina, não é? E como está sendo? Gostou da nova função? Vou esperar tu me chamares, mas saibas que estou feliz por ti.

Fim de semana, já sabes o que vais fazer? Talvez ir com o pai em alguma janta de amigos? Tu gosta das pessoas com quem tu sai? Quem são teus amigos mais próximos? E aquele careca lá, ele é gente boa? Vi que nas fotos vocês estavam todos rindo, deve ter sido bom a última vez que se encontraram. Tu e o pai gostam de sair? Não perguntei, ainda, eu acho, mas para onde vocês gostam de ir, qual cidade, qual espaço? E como tava o dia, ontem? Vi que tu estava cansada, mãe, mas que ainda estava sorrindo conosco, no momento do chimarrão. Ah, obrigado, também, pela força com o estudo para minhas provas, eu precisava de algumas palavras de apoio, e as tuas vieram no momento certo.

Pai, agora que tu cuida da casa, faz a faxina, o almoço, lava as roupas, como está a tua saúde? Anda cuidando para não esforçar demais o joelho? Percebi que está comendo bastante doce, pode te fazer mal, cuida um pouco, quem sabe troca por uma fruta. Tá cansado, ainda? Vi a casa limpa, parecendo um brinco. Sabia que tu havia feito um baita esforço pra isso. Te agradeço agora, já que não pude o fazer antes. E, agora que tu não trabalha fora, apenas em casa, o que tu acha do trabalho que a mãe fazia? Já conversaram sobre isso? É legal comparar as experiências, as vezes.

E o que falar dos teus almoços? Andei reclamando, eu sei, e peço desculpas. Reclamei de barriga cheia, literalmente. Mas é que não consegui enxergar o esforço que tu e a mãe fazem, diariamente, para manter a ordem, a limpeza, a organização e o clima agradável dentro de casa, cada um com suas funções. Sei que o almoço não é a única coisa que tu tem pra fazer todos os dias. Me desculpe pela reclamação. Mas, falando nisso, que baita arroz com feijão foi aquele de ontem, hein? Nunca havia comida nada tão bem temperado e saboroso. Obrigado por isso.

Mãe, pai, eu os amo. Diariamente lhes digo isso, mas talvez demonstre pouco. Não haverá tempo hábil para agradecer e retribuir tudo que fizeram por mim. Nossas batalhas, nessa guerra que é estar vivo, foram vencidas, na maioria das vezes, pela força de vocês dois. Caminhei "por fora", como se diz, levado pela vontade de viver que vocês me passam (e à minha irmã, sua filha), mas aprendi a não voltar atrás e entender que em caminhadas longas as vezes é necessário parar para tomar um fôlego ou, quem sabe, escolher um caminho diferente.

Seus ensinamentos, meus pais, criaram o meu eu, meu ser. Sua simplicidade, alegria, virtudes e defeitos me construíram como ser humano, como indivíduo. Obrigado por cada pedaço de mim que vocês ajudaram a moldar. Obrigado por me ensinarem a aprender a aprender na vida. Esta, aliás, que é fruto de várias escolhas suas, que culminaram hoje, conjuntamente com minhas escolhas, no que sou, no que vocês são. Construímo-nos diariamente, com muito esforço, e hoje somos, posso arriscar dizer, felizes com o que nos tornamos: uma boa e unida família.

Pai, mãe, meus pais, meus amigos, meus criadores, meus exemplos. Vocês estão bem, volto a perguntar. Estão felizes? Acreditam que suas escolhas lhes proporcionaram uma vida agradável e pela qual valha a pena lutar, continuar vivendo? Eu nunca lhes perguntei isso. Talvez por tentar dar o menos de trabalho possível para vocês dois, que já passaram por coisas suficientes. Dar-lhes alegria é o que busco, todos os dias, e onde emprego meus esforços. Faço por mim, também, não se preocupem, mas saibam que estão comigo, em meus pensamentos, todos os dias. Não faria nada que lhes envergonhasse.

Enfim, pai e mãe, termino essa carta. Não há muito mais o que dizer, apenas que precisamos conversar mais sobre vocês. Quero saber mais de vocês, cuidá-los, da mesma maneira que cuidaram de mim durante todos esses vinte e cinco anos de minha existência. Confiem em mim, abram-se. Sou seu amigo e serei seu porto seguro, se assim desejarem. Estarei aqui sempre.

Mãe, pai, obrigado.

Com amor, seu filho.


Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos.
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