Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos

Meu corpo como minha liberdade

Meu corpo é o que sou. A partir dele sinto, recebo sensações – matéria-prima do pensamento – e penso. Meu corpo impõe-se a mim. Meu corpo, meu eu, o que sou. Meu corpo é a minha liberdade.


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Há uma ideia filosófica muito antiga, que data dos primórdios da Filosofia Ocidental – considerada enquanto tal a partir de Tales de Mileto – e que diz que somos uma unidade de dois pontos essenciais: o corpo e a alma. Esta pode ser entendida como o nosso pensamento, nossas ideias (no sentido de Platão), nossa mente, nosso cérebro. O corpo, que seria todo o "resto", é entendido como o responsável pelas sensações, pelo recebimento de excitações do mundo externo, pelos desejos.

Hoje, sabemos que o corpo é o responsável, sim, pelo recebimento das "informações do mundo", isto é, o corpo é o intermediário entre nossa mente, enquanto entendida como "envolvida por um corpo", e o mundo que nos cerca. Porém, conforme nosso entendimento vai além do já posto, compreendemos mais que corpo e alma não pode existir um sem o outro. É uma impossibilidade. E sabemos, também, que não são divididos: são apenas uma coisa – nossa mente é nosso cérebro e este é corpo, logo, corpo é apenas o que temos, o responsável pela produção da "mente" que é também corpo. Ayn Rand, em seu A Revolta de Atlas, coloca-nos perante a verdadeira afirmativa: "Um corpo sem alma é um cadáver; uma alma sem corpo é um fantasma". Ela continua, dizendo que "é esta a imagem que fazem da natureza humana: um campo de batalha no qual lutam um cadáver e um fantasma", criticando a visão supracitada que divide corpo e alma. Ayn Rand está afirmando, aqui, que o que temos é nossa mente, que é, também, corpo.

Partindo-se, assim, do pressuposto de que corpo e alma não são separados, de que o corpo é responsável pela mente tanto quanto essa é dependente dele, uma vez que são uma e única "coisa", podemos entender que é pelo corpo que vivemos, pelo corpo que aprendemos, pelo corpo que perpetuamos o corpo. E, ao realizar essas ações, somos livres. Embora doutrinas ainda presentes optem por continuar com a filosofia platônica (que, se fosse historicamente pesquisada, encontraria-se em raízes mais antigas), temos hoje o corpo em evidencia, em suma importância. Mas pensem por um momento: o corpo aqui colocado, baseado na junção corpo-mente, não é o "simples corpo", formado de músculos, tecidos, órgãos internos e externos, cinco sentidos. Não. O corpo aqui colocado é o humano em sua totalidade. Comparativamente, uma mente que se desenvolve sem corpo é fantasmagórico, um corpo que se desenvolve sem mente é vegetativo. Ambos são um, indivisíveis, e formam, assim, um humano por cada corpo. O corpo se impõe a nós como uma verdade impossível de ser negada, mesmo em teorias de realidades virtuais – que necessitarão de um corpo para manter as ilusões criadas na mente.

Enquanto imposto, o corpo é nossa realidade. Enquanto tal, é o que nos torna humanos e o que nos torna parte do mundo e nos coloca em contato com este. Assim sendo, o corpo é o que somos. Meu eu não é nada mais que meu corpo. Minha liberdade não pode existir sem a liberdade de meu corpo. Trabalhar, expressar, dialogar, ir e vir, pensar, produzir são verbos que evidenciam essa liberdade. Toda forma de opressão, de cerceamento, de punição, de censura é dirigida ao corpo. Quando Jesus, em Mateus 9, "cura" o paralítico, ao dizer "levanta-te, pega tua maca e vá para casa", o que ele está dizendo é "tome consciência do seu corpo, ele é tua liberdade – assume-o e vá!" para um homem que ainda não havia assumido seu corpo, seu eu. Essa é uma interpretação deste que escreve, não a exegese oficial, mas penso muito nesse "milagre" de Jesus como uma conversa franca com alguém perdido em sua própria vida.

Em outro livro, de Marcia Tiburi e Ivete Keil, Diálogo sobre o corpo, Marcia nos conta que Marquês de Sade, tido hoje como "pornográfico" em sentido negativo e pejorativo, tachado por uma moralidade, utilizou-se dessa arte e forma de escrita para explicitar algo importante para a sua época: os corpos dos reis e rainhas também tinham desejos. Como é posto no Diálogo, "estes corpos aristocráticos ou eclesiásticos passaram a ser compreendidos com as mesmas pulsões e desejos e alucinações e erotismo que experimentava qualquer mortal do reino". Note o que fica evidente com o já dito: a liberdade, naquele período (e hoje, ainda), era tirada de todos: dos reis, por fazerem-se acreditar sem desejos e, às vezes, sem mente, já que recebiam de Deus os pensamentos e decisões (com aval do corpo clerical), e isso mesmo quando davam luxuosas festas (como era o caso do Rei Sol, Luíz XIV, da França); e dos plebeus, por serem cerceados pela moralidade que lhes tolhia a possibilidade de experimentar seu corpo em contato com o mundo, por tornar o corpo um pecado em si, um pecado imposto. Em todos esses casos, o que estava imposto era o corpo e é a partir dele que se viverá – ou será ele que será censurado e preso em caso de tentativa de controle (como nos disse Foucault, no século XIX).

O corpo em Sade, em Jesus (desde o "tomai e comei, este é meu corpo"), em Foucault, na Bíblia, na Grécia Clássica e Pré-Socrática, na Idade Média, na Pré-História tem apenas uma coisa em comum: ele é o meu eu, ele se impõe a mim, sou ele, por ele conheço e por ele vivo, ele mantém minha mente em funcionamento e por ele, e apenas por ele, posso ser livre. Sim, considero os desejos, impulsos e afins como liberdade, assim como a satisfação ou não destes – que será um produto moral do pensamento: fazer ou não fazer; mente e corpo como um só. Considero o pensar uma forma linda de liberdade: o pensar pelo corpo, buscar o mundo e as respostas que este tem a me dar. Como já explicitado, mente sem corpo é fantasma, corpo sem mente é cadáver. Unido-os, corpo e mente, resta o corpo, a unidade que nos torna o que somos: humanos. E, enquanto humanos, nossa liberdade só pode ser alcançada se nosso corpo puder existir, expressar-se, pensar-se, viver-se, encontrar-se: consigo e com o mundo.


Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos.
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