Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos

Por que ler obras de novos escritores?

Ler é sempre bom, principalmente quando a obra nos toca e diz algo a nosso respeito. Esse é o poder da arte da literatura. E o que os novos escritores vem fazendo (muito bem) é exatamente isso: dar-nos sua arte para conhecermos a nós mesmos. Os novos escritores são os pensadores que pensam o nosso tempo.


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Os livros são, cada um, uma peça de arte que se bota a prova do leitor, do apreciador, do avaliador. Escrever uma obra é trabalhar a arte, é tornar-se artista, é deixar no mundo marcas de si. Os clássicos são aqueles que conseguiram traduzir vidas, pensamentos, ideias de forma que ficassem claras, límpidas e tivessem no eco pessoal a força de sua arte. Por que lemos? Alguns por prazer, outros pelo conhecimento, outros pelo crescimento pessoal. Todos, no entanto, leem porque, como disse Dostoiévski, somos o que lemos. E eu digo mais: somos, muito mais, o que escrevemos.

Nos dias atuais, uma perda gradativa por leituras mais demoradas e complexas se instala. Um tuíte, uma frase, um dito são mais procurados e consumidos do que grandes obras – ou até mesmo do que textos de uma página. Mas, nem tudo que se produz é apenas uma frase. Há, nos dias de hoje, inúmeros autores que trabalham dia e noite, pesquisam, estudam, leem outros autores, os clássicos e os não-clássicos, e correm atrás de uma meta: a de escrever sua própria obra, de entrar para o "hall dos escritores", daqueles que utilizaram-se de palavras para marcar o mundo e para falar sobre ele e sobre si. Esse texto trata destes indivíduos que, em uma sociedade que perde gradativamente o gosto pela solidez (o mundo líquido de Bauman) e pelo esforço, onde opinião vale mais do que argumento de estudos, enfrentam o desafio de publicarem-se ou de simplesmente escreverem. São esses os novos autores.

Por que devemos ler estes? Pois olhe para a própria Obvious: é um espaço de colaboração entre pessoas que sentem-se impelidas a escreverem sobre assuntos diversos. Todas estas estão diariamente pensando em como traduzir em palavras o que sentem, pensam e sobre o que refletem. Há livros publicados assim também. Alguns são ficção, outros sociológicos, outros ainda poéticos. Todos, no entanto, tem por trás um grande trabalho, um grande esforço, uma atividade laborativa que exige muito mais do que ter músculos. Uma atividade que exige criticidade sobre si mesmo, sempre, além de um esforço intelectual exaustivo. Tudo pela literatura, pelo desafio.

Por que ler novos autores? Ler porque nos falam do hoje, do agora, de nossos tempos e nossa vida atual. Ler porque são indivíduos escritores constituídos por todas as obras que já lemos. Como disse Dostoievski, "o que seria de você se lhe tirassem os livros que leu?". A resposta é nada. Ou algo próximo disso. Ler os novos autores é ler os possíveis futuros clássicos. Todo clássico começou como um "novo autor" e teve um voto de confiança. Ler os novos autores é ler a coragem e o trabalho árduo de se produzir uma obra e ter audácia de publicá-la. É ler os "contra a corrente", falando em termos de Brasil (mas que permite uma análise para o mundo atual) que não tem uma forte cultura de leitura de clássicos, e nem não-clássicos, e onde o livro mais vendido versa sobre uma youtuber. Ler novos autores é ler a responsabilidade que cada um deles assume perante a literatura, dizendo em cada frase de seus livros que "sim, eu acredito no poder dos livros e da literatura, sim, eu faço parte dela e vou mantê-la viva, sim, estou disposto a lutar pela escrita, pela cultura, pela arte".

Ler autores novos é ler quem está contra a corrente de ler apenas cento e quarenta caracteres, quem está remando contra a maré de não pensar mais, de não refletir sobre si e sobre o que se lê – até porque não se lê – contra as leituras de manchetes, contra um gigantesco Google que nos dá apenas frases esparsas, soltas, as infinitas notas de rodapé desconexas, como nos dizia Bauman (parte do mundo atual, líquido).

Alguns autores novos que valem a pena serem citados: Ricardo Armelenti, com o livro Bertrand: A cruz, a espada e o deserto (Editora: Trajetos Editorial), que conta a história de um filho de nobre na França do século XII, um baita trabalho de pesquisa e ficção; Angela Maria de Souza, no livro A caminhada é longa e o chão tá liso: O movimento hip hop em Florianópolis e Lisboa (Editora: Trajetos Editorial), que tem como ponto central a pesquisa do hip hop nas cidades citadas, um trabalho belíssimo de pesquisa sociológica e antropológica; Matheus Peleteiro, autor de três livros, entre eles Mundo Cão (Editora: Novo Século, sob o selo Talentos da Literatura Brasileira), que com um olhar sociológico (e com um "que" de Bukowski) constrói uma narrativa ficcional sobre um jovem da favela Roda Viva no nordeste brasileiro e suas dificuldades diárias de alguém pobre em um país de altas desigualdades sociais; e Gabriela Ermel, com o Alguém como você, que retrata os dramas de uma jovem que não consegue superar seu antigo relacionamento e que vai encontrando-se nas experiências de sua própria vida e de suas dificuldades (Publicado em ebook pela Amazon).

Todos esses são autores – e não esqueça-se que são pessoas – que trabalharam durante muito tempo, pesquisando, estudando, escrevendo, corrigindo e reescrevendo suas obras para que pudessem ter o gosto da criação, da arte, do publicar e do ser escritor. São autores que entenderam o que os clássicos todos tem em comum: todos eles não desistiram e todos, sem exceção, mesmo os ficcionais, escreveram sobre o seu próprio tempo, sobre sua própria sociedade, sobre sua vida e a vida daqueles que os cercavam. Por isso mesmo são clássicos, porque conseguiram colocar na arte da escrita a vida vivida. E os novos autores o fazem, diariamente, em cada gota de suor na testa nas tardes quentes escrevendo, em cada noite fria sentado em frente ao computador digitando ao invés de sair, em cada segundo gasto com o trabalho que os torna quem são, escritores.

E falo aqui apenas dos que se publicaram, mas e aqueles que tem milhares de páginas, poesias, contos, textos e frases aos montes e que não são publicados? São escritores também, mas estão, ainda, longe do alcance daqueles que não fazem parte de seu círculo de convivência. Veja esse poema:

Nome: ...

Quero alguém pra confiar meu silêncio,// Alguém capaz de ouvi-lo, sem cortar;// Quero alguém pra confiar meu silêncio,// Alguém que o ouça sem nada escutar.//

Quero alguém pra confiar meu silêncio,// Pois confiar silêncio é mais que o falar;// Quero alguém pra confiar meu silêncio,// Que o compartilhe e o sinta, sem escutar.//

Meu silêncio é o som mais importante,// O som do nada, aquele que diz tudo:// Aquele que se ouve em tom constante,// Aquele que é de um sentir oriundo.//

Quero alguém pra confiar meu silêncio,// Aquele som que abrange um mundo:// Meu silêncio, o dizer mais intenso,// Meu silêncio, meu eu mais profundo.

- Marina Fülber (não publicado – colocado em um livro como presente para mim)

Você não publicaria um poema desses? É um poema digno de clássicos, que diz sobre mim, sobre você, sobre quem escreveu, sobre nós. É o que fazem os novos escritores. Lutam e trabalham diariamente pelas palavras, pela literatura. São arautos do ler e do escrever. São sociólogos, filósofos, artistas, pensadores, escritores. São os que colocam o silêncio de longos trabalhos em palavras, para que o mundo possa ser lido. Sim, cada escritor versa sobre o mundo. E o mundo é descrito, sempre, por palavras. Uma imagem vale mais do que mil palavras, disse alguém um dia, e Millôr Fernandes, clássico brasileiro, disse "Então me diga isso sem palavras". As palavras são o material e a ferramenta pela qual os novos escritores buscam traduzir o nosso mundo atual. Devemos valorizá-los. São eles, afinal, que tem a chance de ser, quem sabe (e trabalham para isso, mas não apenas), os clássicos de um futuro próximo.

Links dos livros publicados citados:

A caminhada é longa e o chão tá liso (Angela Maria de Souza): http://bit.ly/2ieJsEU

Alguém como você (Gabriela Ermel): http://amzn.to/2iY1zxK

Bertrand (Ricardo Armelenti): http://bit.ly/2j0Xt9W

Mundo Cão (Matheus Peleteiro): http://bit.ly/2j0XY3T


Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos.
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