Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos

Somos todos ridículos e sonhadores: uma análise em Dostoievsky

Somos todos homens e mulheres ridículos. Somos sonhadores efêmeros. Somos seres que têm a capacidade de questionar tudo. Incapazes, no entanto, de modificar o mundo. Modificamos as questões e as respostas, mas o mundo é o único que permanece. O que fazer, então? Há um motivo para se viver? Sim, e Dostoievski, em “O sonho de um homem ridículo”, pode ter uma resposta.


Somos todos ridiculos e sonhadores.jpg Pintura representando o homem ridículo e a menina do conto. Link da imagem: https://goo.gl/TLGhzO

Todos somos sonhadores. Acordados, dormindo, caminhando sem rumo, sentados em contemplação, estamos sempre imaginando um mundo diferente do que está posto aqui, agora. Imaginamos como seremos, para onde iremos, com quem estaremos, quais serão as técnicas disponíveis, qual será a política aplicada, mas sempre em sonho, em outro mundo, um mundo imaginado a partir do mundo posto, dado. E são esses sonhos que nos tornam humanos ridículos.

Saber-se ridículo, no entanto, é algo que poucos tem o prazer de saber. Saber-se um ser efêmero, passageiro, em um mundo em constante transformação e, por isso mesmo, incapaz de satisfazer qualquer necessidade real e essencial humana, é algo que a princípio pode doer, soar pessimista, mas que, no fundo, é a realidade vivida do cotidiano. Somos passageiros. Somos pó e ao pó retornaremos. Somos, todos, criadores do mundo em que não mais estaremos.

Em um conto talvez pouco conhecido, “O sonho de um homem ridículo”, de Dostoievski, escritor russo do século XIX, uma análise é feita sobre essa nossa condição de ridículos, de seres humanos ínfimos ante a grandeza do nada, ante a grandeza do infinito criado por nós mesmos. O conto trata da história de um homem que se reconhece ridículo. Sabe que é limitado, que não tem ligações relevantes com os outros e com o mundo e, por isso mesmo, é indiferente a tudo e a todos. Tanto faz, diz ele com frequência, qualquer coisa pode ser e é. Até que este decide matar-se. Ao ir para casa, encontra no caminho uma menina que mal sabe falar e que lhe pede ajuda, gritando “mamãe! Mamãe”. Como decidiu matar-se, o homem ridículo apenas ignora a menina, afinal, “se vou matar-me, o mundo acabará e nada mais existirá”, ou seja, matar-se será matar a todos e a tudo. O homem vai para casa e senta-se em sua poltrona, lustra seu revólver e o coloca sobre a mesa. Mas eis que adormece e sonha. E aí vem a reflexão sobre toda a sua existência e a da humanidade.

Durante o sonho, o homem é levado por um ser especial para uma outra Terra, para o paraíso. Em seu sonho, o seu suicídio foi bem praticado. Ao chegar a essa Terra idílica, logo vê que não se trata da mesma Terra em que vivia antes de matar-se. Ele está em um paraíso, onde todos vivem em harmonia, não há brigas, os animais são amigos dos homens e mulheres e ninguém entra em conflito. Todos realizam suas tarefas sem questionar-se, sem sequer abrirem a boca. Cantam alegrias e vivem felizes, o tempo inteiro. É o verdadeiro sonho de todos: o espaço de convívio perfeito entre todos os seres humanos. Porém há algo de errado, não percebido inicialmente pelo homem, mas que se revela em determinado momento. E essa é a questão essencial.

Após um tempo passado, ainda em sonho – os sonhos têm temporalidades diferentes das reais, como relembra Dostoievski –, o homem questiona os outros habitantes: como podem viver assim? O que conhecem que ele desconhece? O que fazem? Como chegaram a esta situação perfeita? Pois bem, eis que alguém responde. E a resposta, não dada no conto, traz consigo outras dúvidas. Estas, por sua vez, trazem a discordância. E aí está instaurado o caos. Após algum tempo, a partir de um questionamento, de uma pergunta apenas, o paraíso passa a ser destruído pelo próprio homem. Metáfora bíblica, a cobra agora é o homem ridículo. Ele, o representante mor da humanidade, da Terra como a conhecemos, é a cobra do paraíso.

Essa verdade, como a chama Dostoievski na voz do homem ridículo, é o que transforma o homem. Ele acorda, depois de 1000 anos passados no sonho, na mesma mesa, em frente ao revólver. E aí pensa: descobri a grande verdade e preciso propagá-la! Não mais me matarei. Por que isso? Qual foi essa verdade? A verdade foi a seguinte: o homem, sabendo-se ridículo, reconheceu em si mesmo a podridão da humanidade, os pecados da sociedade, a cobra do paraíso. O homem ridículo agora, depois do sonho, entendeu que o paraíso apenas existe se ninguém interagir, sem não houver questionamentos, se todos vivermos como os animais, sem perguntar-se, sem questionar-se, apenas vivendo. O próprio texto expressa isso quando relata que os homens passaram a valorizar mais o conhecimento sobre a vida do que o viver, o conhecimento sobre o que é a felicidade do que o ser feliz – a individualidade surgiu como forma de destacar-se em questionamentos e, com ela, as diferentes línguas – conheceram a mentira e sua beleza, passaram a apreciar a dor – quando tornaram-se maus, passaram a falar em fraternidade e humanidade. Veja: quando tornaram-se maus é que passaram a falar de humanidade.

O homem ridículo reconheceu em si a origem de todo pecado, isto é, reconheceu em si o questionamento de si mesmo. O homem ridículo entendeu que a maldade que possa vir a reinar nada mais é do que fruto do questionamento do homem: o que sou? Por que estou aqui? Para que nasci? Qual o propósito de minha vida? - e com tudo isso, a individualidade, o ego surgem como base para a convivência: parto, inevitavelmente, de mim, sempre (o que não é ruim, apenas um fato que não podemos evitar), para pensar o mundo e pensar no outro. “O conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade”, diz um dos homens corrompidos do paraíso. Pois bem, eis o que o texto traz: se vivermos sem questionar nada, absolutamente nada, podemos, talvez, chegar a um paraíso. Mas procurando respostas e mais questões sobre tudo, todos os dias, perguntando-se “por que eu?” ou “porque isso aconteceu?” ou ainda um simples “o que farei da minha vida agora?”, então não há possibilidade alguma de paraíso e todos nós nos tornamos cobras deste. Conhecidamente somos seres questionadores. Sabidamente, somos humanos e, como tal, somos incapazes de responder a todas as perguntas. Pior ainda: somos incapazes de viver sem questionar as coisas que nos acontecem.

O sonho do homem ridículo é, assim, o nosso sonho diário. O olhar para um mundo diferente do que está posto agora é sonhar (ou coloque-se idealizar, se tu quiseres). E sonhando podemos, talvez, assim como o homem ridículo, entender que não há possibilidade de uma fuga do mundo dado, do aqui e do agora. Porém não poderemos modificá-lo em direção a um paraíso. Poderemos, sim, modificar os questionamentos e as respostas, mas não o mundo. O mundo é esse nada que é tudo e que nos mostra que somos ridículos, cotidianamente. Os nossos sonhos são efemeridades de seres ridículos, nós mesmos, os pecadores essenciais do paraíso. E por isso devemos desistir de tudo? Não, pelo contrário. É justamente por isso que devemos viver, como o homem ridículo do conto. Somos efêmeros, somos passageiros, somos pó, mas somos capazes de viver mesmo em meio ao inferno que somos nós. Por isso, a saída é continuar questionando (é o que temos de essencial!), mas questionando as questões importantes para nós, aquilo que nos diz respeito, que nos toca no nosso ser. Somos ridículos criadores ridículos de um mundo, mas, ainda assim, os únicos que podem viver nesse mundo de homens ridículos. A saída? É viver.


Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos.
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