Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos

Soneto 66 e o que Shakespeare tem a nos dizer

William Shakespeare é um clássico, um expoente do pensamento humano. Suas obras nos mostram o nosso interior, como espelhos de nosso ser. O seu soneto 66, como uma flecha atirada em nossa consciência, nos mostra que devemos ouvi-lo. Ele ainda tem muito a nos dizer, principalmente em nosso mundo liquefeito. Pela arte, O Bardo evidencia nossas angústias.


Soneto 66 e o que Shakespeare tem a nos dizer.jpg Sir John Gilbert, "The Plays of William Shakespeare", Oil on canvas (1849). Link: https://goo.gl/yNVMgf

No século XVI, no Reino Unido, um dramaturgo sentiu o seu tempo e escreveu sobre ele. Suas peças foram, posteriormente, reunidas em uma grande publicação, que viria, mais tarde, a elevar o seu autor ao mais alto grau de sofisticação na escrita do teatro. Chamado "O Bardo", William Shakespeare conseguiu trazer, por meio de suas peças, os sentimentos e angústias mais comuns e latentes no ser humano. Suas histórias cativam e são chamadas "clássicas" por serem, sempre, atuais. Além de peças de teatro, escreveu também sonetos, onde elogiava alguns amores idealizados e tecia críticas. Em um desses, muito podemos aproveitar para a contemporaneidade: o soneto 66. Leia:

Farto de tudo, a paz da morte imploro

Para não ver no mérito um pedinte,

E o nulo se ostentando sem decoro,

E a fé mais pura em degradado acinte,

E a honra, que era de ouro, regredida,

E a virtude das virgens violada,

E a reta perfeição ser retorcida,

E a força pelo fraco subjugada,

E a prepotência amordaçando a arte,

E impondo regra o tolo doutoral,

E a verdade singela posta à parte, E o bem cativo estar do ativo mal:

Farto de tudo, a morte é o bom caminho,

Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.

- Soneto 66, de William Shakespeare.

Não ver no "mérito um pedinte", o "nulo se ostentando sem decoro", a "prepotência amordaçando a arte" e "impondo regra o tolo doutoral" são críticas extremamente pertinentes em nosso tempo. Desde Schopenhauer e Nietzsche, no século XIX, a crítica contra os acadêmicos e aqueles que julgam que títulos valem mais do que o trabalho real, ou a arte, se faz presente nas linhas escritas pelos filósofos e pensadores. Shakespeare, três séculos antes, já se queixava da mesma questão e enxergava os mesmos problemas dentro de sua sociedade.

O mérito de quem arduamente trabalhou e perseguiu a si mesmo, fazendo o melhor que poderia nas condições de que dispunha (um exemplo do próprio dramaturgo, que não tinha muitos recursos, visto a quase falência e declínio econômico de seu pai, o que o obrigou a iniciar uma vida laboral precoce), hoje já implora por espaço, já que todos julgam-se "meritosos" (ou dignos de méritos). O nulo, isto é, aquele que nada tem de conhecimento em uma área, que não exerce o que tem de melhor e que acredita estar a par de todas as questões da humanidade, é evidenciado nas redes sociais, nas mídias e nas conversas de bar – todos tem uma opinião sobre tudo. A prepotência que amordaça e sequestra a arte, vem daqueles que utilizam-se de seus capitais sociais para produzirem materiais consumíveis e enfiá-los goela abaixo com um "verniz de arte" (veja-se filmes de Hollywood em geral e pinturas abundantes sem uma dor produtiva por trás). O tolo doutoral, que entope as universidades e as mídias, com seu diploma quase "comprado" (aquele que foi pago, mas que não houve aproveitamento real algum do conhecimento do curso) embaixo do braço, é, talvez, o antagônico perfeito de Shakespeare: o ator, poeta e dramaturgo inglês nunca cursou uma universidade e, ainda assim, é o mais lido e comentado nas universidades e fora delas (principalmente de Letras e humanas em geral), o contrário da maioria dos doutores de hoje, que produzem inacabáveis artigos inúteis com o intuito de buscar pontos e não leitores.

Os outros pontos criticados encontram-se com a moral religiosa do Ocidente e dizem respeito a um modo de enxergar a vida muito presente no contexto sócio-político do período elizabetano, sendo pouco aproveitáveis para o presente texto.

As duas últimas frases de Shakespeare, no entanto, são esclarecedoras em um ponto: há que se continuar vivendo, pois é na vida que se pode reclamar àquilo que se tem direito e aquilo que se ama.

Farto de tudo, a morte é o bom caminho,

Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.

Se eu morrer, quem cuidará de meu amor, isto é, quem produzirá o meu trabalho, minhas peças, cuidará de meus filhos e minha esposa, quem é que fará acontecer o que espero que aconteça senão eu, o responsável maior pelos cuidados de meu amor? O dramaturgo coloca em um soneto, fechado a duas chaves de ouro, o que todos nós esperamos da vida: que a vida seja o que esperamos que ela seja. As chaves, no entanto, desmentem essa vida alçada à idealização e trazem aos olhos a vida crua, vivida, que exige de nós um trabalho esforçado e um grande cuidado para transformar o seu amor e mantê-lo perene e sereno enquanto vivermos.

As críticas do Bardo são muito atuais, como praticamente todos os seus trabalhos. A maravilha disso é que um soneto cabe no bolso, anotado em um pedaço de papel, podendo ser lido a cada hora, em qualquer lugar. Para que isso? Para que nos lembremos que a arte, embora muito linda e representativa da vida do homem, só perdura, assim como nossos amores, se fizermos com que perdure. A arte e vida se misturam. E ambas vivem em nós, enquanto vivermos.


Jéferson Alves

Professor e filósofo. Serviços gerais para manutenção de pensamentos.
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