puro achismo

...minhas leituras, possíveis verdades.

Ana Lúcia Gosling

Escrevo contos, crônicas e arrisco poesias no meu blog pessoal (https://anagosling.com/).
Por aqui, vou deixando impressões.

Caminhos da escrita em "Grey's Anatomy" - a morte de Derek Shepperd

"Grey's Anatomy" não é só uma série dramática ou romântica. É uma série que tem seu roteiro inteligentemente traçado e conta com excelentes diálogos e caminhos que surpreendem. O episódio de despedida de um dos protagonistas causou uma reação do público em razão da saída da série do carismático ator. Mas, observando-se de perto a atitude ousada da roteirista e produtora da série Shonda Rimes, evidencia-se muito claramente como são interessantes as escolhas de sua escrita. Neste recorte, é sobre o que vamos falar.


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“Grey’s Anatomy” (ou, por aqui, “Anatomia da Grey”) é uma série dramática norte-americana, que está há 11 anos em cartaz, com sucesso, e já renovou contrato para uma 12ª temporada. Poderíamos dizer que é um drama médico mas esse rótulo reduz em muito a complexidade do roteiro da série. Drama, sim. Médico, não tão-somente.

Para dar fôlego ao sucesso de tantos anos, lançou-se mão de finais de temporada que, primeiramente, eram românticos (versavam, nos primeiros anos, principalmente, sobre a relação do casal protagonista, com seus "ata e desata") e, depois, arriscaram-se, inclusive, a aventuras dramáticas, como, por exemplo, um tiroteio no hospital ou um acidente aéreo envolvendo a equipe médica. E o talento dos roteiristas da série se evidenciou nas costuras através das quais conseguiram estabelecer entre as situações “extras” e a rotina ambientada na série. Perfeitas, eram verossímeis, sempre.

Presa à trama pelos excelentes diálogos, principalmente nas três ou quatro primeiras temporadas, e pelos personagens imperfeitos e interessantes que saem maiores das experiências e são salvos dos seus próprios desajustes, sempre estive atenta aos caminhos de roteiro e escrita da série.

Shonda Rimes, criadora e produtora do seriado, também é uma de suas principais roteiristas. E, como realizadora, tomou recentemente uma decisão que poderia abalar seriamente a estrutura da trama pois, de imediato, já gerou uma reação adversa do público: a morte de um dos personagens mais importantes, querido junto ao público – Derek Shepperd, marido de Meredith Grey, a protagonista.

Assim, quando divulgaram antes do episódio de despedida de Derek, que o público choraria naquela noite, pensei que se escolheria o caminho do dramalhão, que se faria chorar as fãs órfãs do galã Patrick Dempsey (que interpreta Derek) ou que se apostaria na velha fórmula da história amor que seria interrompida. Ledo engano o meu.

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Mesmo conhecendo o principal fato que ocorreria no episódio, seria impossível deixar de render-se à emoção dessa despedida. Era Shonda a roteirista da despedida tão bem engendrada. E ela não seguiu o caminho previsível de um roteiro romântico ou melodramático, como esperado em razão do forte apelo comercial atrelado a essa opção. Talvez porque soubesse que, assim, choraríamos pelo motivo “errado”.

Assim a autora escolheu: após ser o herói que salva quatro vidas num acidente na estrada, Derek sofre ele próprio um acidente gravíssimo e é transportado com vida e semiconsciência a um hospital não preparado para atender traumas. Em todo o tempo do seu atendimento, ele, que sempre foi um dos melhores médicos da série, não podia expressar-se por conta de uma lesão cerebral. Neurocirurgião, preso ao paradoxo de ter a habilidade para salvar-se mas estar fisicamente impedido de fazê-lo, aprovava ou desaprovava mentalmente as decisões dos médicos que tentavam salvar sua vida, bem como suas posturas de insegurança ou arrogância.

Estar na cabeça de Derek nesses momentos foi o que nos quebrou. Foi o que carregou o público para dentro de uma emoção inesperada. Embora, é importante dizer, nada tenha sido apelativo. Seus pensamentos eram calmos, racionais, pragmáticos.

Até que o neurocirurgião que deveria salvá-lo chega de um jantar, após uma hora e meia de atraso (quando deveria estar de plantão e após prometer retornar em 20 minutos), e Derek, de olhos fechados, sentencia: “não adianta mais, você demorou demais”. Não houve dramalhão. Ele não pensou na esposa nem nos filhos pequenos. Não choramos por eles. Não passou nenhum filme na sua cabeça. Ele não sentiu a dor da partida. Durante o tempo em que tinha uma voz dentro do episódio, vivemos o paradoxo das diferenças entre o hospital que o recebeu e aquele em que trabalhava, a medicina exercida com paixão por ele e a arrogante postura dos dois principais médicos responsáveis pelo seu atendimento. Não fosse a própria situação de sua chegada na ambulância uma gritante contradição: ele, herói que salvara, no meio da estrada, quatro pessoas, chegara ao hospital em condições precárias como um desconhecido e fora negligenciado. Ele dizia para si, querendo fazer-se entender pelos médicos: “Estou vivo!”. Se não houve desespero quando morreu, houve quando ainda acreditava que poderia viver.

Sobraram para Meredith, a esposa do personagem, as lembranças emotivas: rápidas imagens de Derek, antes que os policiais batessem a sua porta com a notícia do acidente, as luzes da sirene do carro de polícia transportando-a à infância, quando sua mãe fora hospitalizada, as mesmas lembranças confusas ligadas à hospitalização da mãe, enquanto subia o elevador para ver Derek.

E então Shonda muito bem teceu o desligamento dos dois como o caminho para o desenvolvimento de Meredith, que deve acontecer a partir de agora. As imagens da mãe não estavam ali à toa. Quem acompanha a série, sabe como foi difícil para a filha lidar com a doença e com a morte da mãe. Numa das melhores cenas da série, ela diz que matar sua mãe seria algo que não lhe aconteceria, recusando à mãe a cumplicidade de abrir mão de tratamentos. Com Derek, uma Meredith fortalecida não se furta a assinar os papéis que desligariam os aparelhos do marido. A relação com Derek, apesar das idas e vindas do começo, foi o elemento mais fundamental para a construção do equilíbrio da protagonista. Ele despertou sentimentos e a decepcionou, ao escolher reatar um casamento anterior. Mas permaneceu apaixonado por ela e, mais à frente, depois de muitas tensões em que se torcia para que reatassem, voltaram a ficar juntos. Ela demorou a assumir plenamente a relação como parte importante de sua vida e ele a esperou, entendeu sua fragilidade psicológica, confrontou-a algumas vezes mas, de um jeito ou de outro, pôs-se a esperá-la. Somente quando ela resolveu, em terapia, os conflitos que mais a desequilibravam, ambos puderam construir uma história única e sólida. Enquanto isso, ele a salvava periodicamente: da mãe, de um afogamento no mar, da explosão de uma bomba (quando a consciência dela era a voz e a imagem dele a manter-lhe focada e segura), do medo do compromisso e de ser mãe; ele a salvou dela própria.

Num episódio anterior, ela dissera ao marido: “posso viver sem você mas não quero”. Começou ali a costura de Shonda Rimes. Meredith, anos depois, marido, filhos, vida regular, objetivos à frente, melhor amiga em outro continente, atingira um estado tão completo de equilíbrio e independência que assumira o controle de toda sua vida. Ela podia sobreviver sem ajuda e mais: ainda que tivesse que abrir mão do seu amor. O fortalecimento da personagem principal é escolha mais do que protetora da roteirista. Mas faz total sentido.

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Fãs podem debater-se por abrir mão de Derek mas a verdade é que Meredith é a protagonista da história. Ele? Parecia um herói invencível - levou tiro no peito, caiu de avião, quase teve que largar a carreira por causa de grave lesão na mão, comandou pesquisa para o governo norte-americano...Mas foi um celular caído entre os bancos do carro, distraindo-o num gesto simples e humano, que provocou o choque com uma carreta e criou o momento fatal. Foi a indisplicência de um colega de profissão e de especialidade (que estudava seus artigos, inclusive) que o condenou à morte. E foi a decisão de Meredith que pontuou o momento do fim de sua existência.

Não deu para ignorar o vazio que ficou ao fim dos acontecimentos encadeados. Numa homenagem a seu personagem, Shonda o transformou em herói no mesmo dia em que lhe fez experimentar sua fragilidade humana. Batizou o nome do episódio de “How to save a life”, ensejando um emaranhado de analogias - as vidas que ele salvara, a postura consciente do que faria sua vida ser salva, a sua vida que não foi salva e o nome da música mais famosa da série que embalou o amor dos protagonistas no início de sua história. Na cena do desligamento de seus aparelhos, ao fundo, tocava “Chasing Cars”, numa outra analogia ao início da série e ao romance do casal que, naquele momento, desligava-se para sempre.

Impossível não se emocionar com "Grey's Anatomy". Incrível que isso ainda seja possível na 11ª temporada. Como fã, também fiquei contrariada com a saída de Patrick Dempsey. Mas, como alguém que adora escrever e pensar sobre os emaranhados da escrita, rendo-me ao talento da roteirista. RIP Derek! Palmas Shonda!


Ana Lúcia Gosling

Escrevo contos, crônicas e arrisco poesias no meu blog pessoal (https://anagosling.com/). Por aqui, vou deixando impressões..
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