puro achismo

...minhas leituras, possíveis verdades.

Ana Lúcia Gosling

Escrevo contos, crônicas e arrisco poesias no meu blog pessoal (https://anagosling.com/).
Por aqui, vou deixando impressões.

Frejat, Titãs e o passado pop dos anos 60 - coisas que o rock me fez pensar

Sobre a noite em que Frejat e Titãs citaram Roberto e Erasmo. Sobre como o rock brasileiro nasceu disassociado da imagem revolucionária mundial. Sobre como o rock nacional dos 80/90 é bom e eterno. E sobre como queremos que o rock assim sempre o seja.


frejat.jpg (Frejat, imagem de divulgação)

Estive na platéia dos shows de Roberto Frejat e dos Titãs, recentemente, no Rio de Janeiro. Ex-adolescente nos anos 80, me identifico com o rock brasileiro produzido naquela época, desde a música popular até a de maior qualidade. Testemunhei, no decorrer dos anos, muitos daqueles ídolos se perderem no tempo e virarem apenas referência de uma época. Um ou outro retomar, com sucesso, a carreira mais à frente. E outros construírem carreiras sólidas e criarem novos diálogos com as novas gerações, mantendo-se sempre em períodos de evidência.

Tanto Frejat quanto Titãs estão neste último caso. E formam, com Os Paralamas do Sucesso e Nando Reis, meu grupo de artistas favoritos remanescentes daquela época.

Frejat faz carreira solo há alguns anos, e embora muito ligado à imagem do Barão Vermelho, conjunto de que era vocalista e guitarrista, já possui seu próprio repertório de sucessos individuais. Mas, em seus shows, carrega vivos alguns dos maiores sucessos do grupo que integrou. Titãs que, hoje, é uma banda que conserva um corpo original mas foi, ao longo do tempo, perdendo alguns dos seus elementos, carrega a marca inapagável dos integrantes que saíram. Ouve-se Arnaldo Antunes quando Paulo Miklos canta “Comida”, ouve-se Nando Reis quando Branco Mello canta “Marvin” - mas, principalmente, reconhece-se Titãs (o grupo e não os talentos individuais) nas músicas consagradas.

Estar na platéia deles foi uma alegria enorme, porque me reconheci ali, nas músicas que embalaram toda a minha vida, nas lembranças que elas suscitaram e nas mudanças que apontaram, que envolvem não só a bagagem de vida dos fãs e dos artistas mas o contexto social em que foram criadas.

Foi aí que chamou a atenção um detalhe interessante: tanto Frejat quanto Titãs cantaram, cada um, uma canção de Roberto e Erasmo Carlos em seus shows. O primeiro cantou “Quando”; o segundo, “É preciso saber viver”. Não devia ser à toa que as músicas de RC-EC estavam ali, no mesmo dia, no repertório dos dois artistas.Isso me fez pensar no quanto pode ter-se ou não aproximado o rock nacional dos anos 80 com o dos anos 60.

Assim como os artistas de hoje se debruçam sobre os artistas do rock nacional dos anos 80/90, que compuseram a geração do rock “forte” brasileiro, impulsionada não só pelos talentos da época mas também pelo momento que antecedeu e pelo que sucedeu o processo de abertura política do país, bem como por fatores ocasionais, como a realização do primeiro festival de rock internacional do país (o "Rock in Rio"), a geração 80 bebia na fonte do rock dos anos 60, cujos artistas mais bem sucedidos foram Roberto e Erasmo Carlos, principais letristas de rock da outra geração.

Pelo “Jovem Guarda”, programa de TV dos anos 60, apresentado por Roberto ao lado de Erasmo e Wanderléa, todo o rock nacional da época passou. Seus integrantes se vestiam de uma maneira nova, revolucionária, rompiam barreiras com suas gírias e expressões e o programa ganhou um papel de movimento cultural numa época em que, mundialmente, houve uma série de mudanças estruturais no pensamento político, cultural e comportamental.

Contudo, o “Jovem Guarda” surgiu sob nuvens de críticas intelectuais. Suas canções eram muito simples (diria, mesmo, simplórias) e, em sua maioria, bem infantis. No entanto, com distanciamento crítico, percebem-se valores ali que, conjugados com o cenário da época em que foram criadas, revelam aspectos de rompimento com conceitos, padrões e comportamentos que seriam fundamentais para as transformações sócio-culturais ocorridas no país nos anos que se seguiram.

Desde seu início, o rock está atravessado por temáticas políticas. No Brasil, entretanto, surge, num primeiro momento, desvinculado disso. Celly Campello, Sérgio Murilo, Tony Campello, nossos primeiros roqueiros, cantavam versões comportadas. O rock era ritmo e arranjos inconfundíveis mas as letras eram “para a família”. Celly era uma boa moça e Tony, no máximo, um playboy. No momento seguinte, surgem os ídolos do Jovem Guarda, destacando-se especialmente Roberto, Erasmo, Wanderléa, Renato e seus Blue Caps, entre outros. Entre todos, Roberto e Erasmo foram os que construíram as carreiras mais sólidas, mais bem sucedidas. Erasmo, fiel ao rock e Roberto, tornando-se um cantor romântico.

jovem guarda.jpg (Jovem Guarda, imagem de divulgação)

Os dois integravam o time dos primeiros compositores do rock nacional, substituindo em grande volume as frequentes versões estrangeiras por letras originais e sendo bem sucedidos nisso. Suas canções (e as dos demais artistas do iê-iê-iê nacional) eram, basicamente, canções de amor, repletas de promessas de fidelidade, respeito às regras sociais, frases simples e rimas pobres. No entanto, mascarados em suas letras, havia aspectos ousados para época.

Se no garimpo de suas canções, nada se registra relativo ao intenso momento político do país, noutro aspecto o movimento lança uma semente transgressora: a permanente inquietação de uma sexualidade reprimida e as primeiras considerações sobre o corpo como fonte de prazer.

Enquanto a publicidade explorou a “cara” do movimento (cabelos “longos”, vestuário extravagante, as calças justas dos homens, as minissaias das mulheres, os colares e anéis unissex), muitos se serviram disso para apontar sua superficialidade, como se a ousadia fosse só uma jogada de marketing. Mas é nas composições, justamente no aspecto mais ingênuo que elas têm, que encontramos a pequena revolução em ebulição, se pegarmos seu discurso como termômetro de outras vozes: as dos jovens daquela geração, classe média, pós-glamour dos anos 50, pré-revolução sexual do fim dos anos 60.

Se a publicidade mundial se apropriava do apelo sexual para aumentar vendas, se a medicina anunciava a invenção dos anticoncepcionais, e, socialmente, via-se a ampliação dos espaços da mulher, que culminaria no forte movimento feminista, na histórica queima de sutiãs no final dos anos 60 e na própria Revolução Sexual de 68, tudo isso nos traz a dica de que essa geração vivia sob o desejo cada vez mais forte de romper com a repressão sexual existente.

Se nas narrativas femininas de Celly Campello, por exemplo, notava-se um recato e uma ingenuidade ainda desejável, na música da Jovem Guarda, nota-se já uma expressão mais vigorosa do desejo sexual e de romper com a ordem moral: “deixa essa boneca/faça-me o favor/deixa isso tudo/vem brincar de amor/.../sua boneca vai quebrar/mas viverá o nosso amor”, canta Renato e seus Blue Caps; “pego uma garota/e canto uma canção/e nela dou um beijo/com empolgação/do beijo sai faísca/e a turma toda grita/que o fogo pode pegar/.../sigo incendiando bem contente e feliz/nunca respeitando o aviso que diz/que é proibido fumar”, canta Roberto; “meu bem, meu bem/toda vez que eu te vejo/mais aumenta o meu desejo/.../me acende com teu beijo/me acende”, canta Erasmo.

O beijo é o grande desencadeador da energia sexual, potencializa-o, rompe o paradigma de inocente gesto amoroso para ampliar o espaço do corpo e criar a tensão sexual. O beijo é, pode até dizer-se, um gesto revolucionário: a turma grita para o narrador que “o fogo pode pegar” calcada na voz imperativa da lei (“é proibido fumar”), embora o narrador replique “nem adianta o aviso olhar/pois a brasa aqui agora eu vou mandar”, evidenciando sua vontade irreprimível de transgredir a lei vigente; em “Splish Splash”, o narrador desafia os olhares que o censuram e ainda aponta quem o repreende como alguém que não tem coragem de transgredir quando diz “todo mundo olhou me condenando/só porque eu estava amando/.../todo mundo olhou/mas com água na boca/muita gente ficou”.

Entretanto, o frustrante é que, se é fato que esse desejo se evidencia e é verbalizado, num momento em que o rock nacional parecia dar a mão a elementos de transgressão, paralelo a ele existe um sentimento de culpa, e, muitas vezes, as canções vão buscar o conforto da moral ainda vigente. É o caso de “Namoradinha de um amigo meu”, em que o narrador, diante da dor de reprimir os sentimentos diz “o que é dos outros não se deve ter”. A figura do bom moço ainda venceria a do transgressor na maioria das vezes.

Mas está ali o primeiro grão. E dali em diante, o rock encontraria os caminhos para adubar a semente plantada, já num momento seguinte, com a “Tropicália” expondo as feridas da moral de aparências (como em “As pessoas na sala de jantar”, com “Os Mutantes”, ou "Divino Maravilhoso", com Gal Costa), firmando-se com a irreverência crítica de Raul Seixas nos anos 70 e desaguando no Rock Brasil dos anos 80 e dos anos 90.

Não pude deixar de pensar que o local que o rock dos anos 60 podia ter ocupado de início, seria, de fato, ocupado verdadeiramente pela geração de artistas dos anos 80. Se nos anos 60, houve a sugestão da transgressão mas, paradoxalmente, uma acomodação, nos anos 80 o rock conseguiu romper essas amarras comportamentais de forma bem ampla.

Antes, estava num espaço quase alternativo, cultivado pelos amantes do rock internacional e destacando roqueiros nacionais, como Raul Seixas (o mais reverenciado de todos), mas sempre sob uma sombra marginal. Com a geração 80, o rock se impôs tão fortemente que chamou a atenção não só dos roqueiros “de raiz” mas também de quem amava o “pop” e tinha uma vida enquadrada em padrões, popularizando-se (sem o caráter pejorativo que, muitas vezes, é dado à palavra). Em quase toda casa de classe média, por exemplo, havia um disco da Blitz, que, mesmo provocando as exclamações dos pais, com suas letras irreverentes e maliciosas, virou febre nacional, e, assim como ocorreu aos artistas da geração 60, foi explorada publicitariamente. Mas, sob a lona do Circo Voador ou nos festivais de rock no RJ, SP e Brasília, o ritmo se reafirmava com força e popularidade e, ainda assim, mais fiel ao seu compromisso político (entendendo política como uma noção mais ampla do que “música de protesto”). E o que é ainda melhor: com letras de qualidade, não só no conteúdo mas também na escrita poética.

Mas aquelas antigas canções do rock nacional estavam no inconsciente daquela geração. Muitas músicas dos anos 80 possuem harmonias que lembram os iê-iê-iês de Roberto e Erasmo. Este último, firme na carreira de roqueiro, participou do primeiro "Rock in Rio" ao lado dos nomes dos primeiros grandes artistas da geração que se formava ali: Blitz, Lulu Santos, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens.

Anos depois, o próprio Frejat produziu um disco (“Rei”) em que os diversos artistas da nova geração regravaram canções consagradas na voz de Roberto Carlos, todas em ritmo de rock and roll.

Lembrei-me, então, voltando aos Titãs, que, entre as mudanças estruturais da banda, a primeira teria sido o próprio nome, que era, originalmente, “Titãs do iê-iê”. Significativo exemplo de como bebiam na fonte da geração 60 – não só pela referência ao iê-iê nacional mas também pelo formato dos versos muitas vezes inspirado na poesia concretista do final dos anos 50 e pós-concretista dos anos 60. E Arnaldo Antunes, ex-Titãs, gravaria um CD intitulado "Iê-iê-iê" há poucos anos, misturando o pop com o iê-iê.

titas.jpg (Titãs, imagem de divulgação)

Na contramão do recato presente na fala roqueira dos anos 60, entre as músicas do Barão Vermelho que Frejat selecionou para o show, estavam duas que eram de total ruptura com as imagens que se associavam à ideia romântica que cerca a figura feminina e o amor: “Puro êxtase”, em o narrador descreve uma mulher com poder total sobre sua sexualidade, suas escolhas, imersa numa noite de prazer (até luxúria, pode pensar-se, quando, desfeita a ambiguidade fonética sugerida, “êxtase” vira “ecstasy”) e “Por que a gente é assim?”, em que a entrega sexual é total e acima da puramente romântica - “canibais de nós mesmos/antes que a Terra nos coma”, define o narrador da canção, depois de desejar ser devorado, mastigado e beijado na intensidade do seu desejo. Assim como destrói a imagem recorrente associada aos sonhos de menina quando canta "Malandragem", uma de suas parcerias com Cazuza: "quem sabe o príncipe virou um chato/que vive dando no meu saco?/quem sabe a vida é não sonhar?".

A música atualíssima que os dois artistas produzem atraíram uma multidão de várias gerações ao show a que assisti. O discurso amoroso revolucionário das antigas canções do Barão e também o tom mais maduro das recentes de Frejat falam ao coração de todas as gerações – aos da minha geração, simultaneamente, nos dois momentos. As letras agressivamente poéticas dos Titãs, bem como suas críticas mais lúdicas, encontram identificação na platéia de gerações mescladas. Assistí-los juntos foi como atravessar todos esses anos com os maiores discursos do rock nacional numa noite, considerando-se que Frejat se abriu a vários repertórios e trouxe, ainda, ao palco a música de outros expoentes do rock, como Raul Seixas (aliás, Titãs também cantou Raul), Rita Lee e Tim Maia.

Questiono-me sobre o que o rock nacional de hoje estaria produzindo que o pudesse destacar como um momento tão fundamental ou importante e ainda ser boa música para ser lembrada daqui a 20 anos, como foram os movimentos dos anos 60 e dos anos 80/90. Talvez não seja o rock que esteja fazendo esse papel mas os novos movimentos do funk, ainda que muitos de nós torçam o nariz para essa realidade. Não sei responder, de fato, pois minha análise é mais sentimental do que técnica. Talvez o distanciamento de duas décadas nos traga essa resposta, como trouxe à geração 80 o olhar generoso sobre a de 60 e à atual a permanência da reverência à música da minha geração. Mas espero, sinceramente, que o rock nacional não deixe vazia essa lacuna nesse momento tão significativo que estamos vivendo na história do país. Porque o bom rock and roll pode ser o condutor para uma catarse com todos os elementos fundamentais: beleza poética, consciência crítica e diversão. Como aconteceu quando Titãs cantaram “Desordem” e gritamos pela ordem de um país que ainda não amadureceu no percurso político e democrático que percorreu.

(Sobre Jovem Guarda: "A Aventura da Jovem Guarda, de Paulo de Tarso C. Medeiros, Editora Brasiliense. Foi um livro que li há anos e que me despertou a atenção para a questão do discurso da sexualidade, implícito, renovador e reprimido das canções. Aproveitei idéias aqui.)


Ana Lúcia Gosling

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