puro achismo

...minhas leituras, possíveis verdades.

Ana Lúcia Gosling

Escrevo contos, crônicas e arrisco poesias no meu blog pessoal (https://anagosling.com/).
Por aqui, vou deixando impressões.

Fragmentado: o super-herói ou o super-vilão no universo da humanidade

Considerações a partir do filme "Fragmentado": sobre a capacidade da mente humana, sobre tudo que podemos ser, sobre o vilão e o herói que há em nós e sobre como o universo humano é mais assustador que o irreal.


Um filme é excelente quando a gente, antes de entender os porquês de ter sido arrebatado, sente vibrar-se internamente com as emoções que o filme provocou. Saí de “Fragmentado” completamente contaminada pelo filme. Saí ainda com medo do personagem protagonista. Conversei sobre ele dias. Saí emocionada com Kevin e com sua fragilidade. Impressionada com sua mente doentia e com o que se é capaz de criar e de ser a partir da mente. Fragilidade, eu disse? Potência!

O filme conta a história de um homem (Kevin) que tem Transtorno Dissociativo de Identidade, possui 23 personalidades diferentes e sequestra três meninas para um propósito não anunciado de início. Durante a narrativa, vivemos a expectativa do momento em que elas servirão a tal propósito, enquanto esperamos o surgimento de um visitante anunciado mas ainda não conhecido nem pelo espectador nem pelos personagens, e vemos a mente do protagonista alternar-se entre algumas das personalidades que possui.

Basicamente, é um suspense psicológico, tenso, sombrio, com diálogos que são, quase todo o tempo, íntimos, envolvendo apenas dois atores na maioria das vezes. Sem os “ruídos” que outras falas de personagens secundários ou de fundo poderiam provocar e sem a abertura dos planos nos ambientes das maiorias das cenas, aproxima-se o espectador da intimidade que cercam os diálogos. A câmera está sempre muito próxima, de forma confortável, e permite-se o detalhamento dos rostos, expressões, até da observação das palavras usadas.

fragmentado1.jpg (foto de divulgação)

Estamos ali, bem perto, quando as personalidades-protagonistas se alternam e enunciam suas ideias, nem sempre insanas, às vezes dóceis, e conseguimos notar, só na mudança de postura, quem está em cena, já que o ótimo James McAvoy as distingue com impressionante atuação, expressando suas emoções – boas ou más – de forma talentosamente espontânea. Estamos focados nas expressões da psiquiatra que as atende, dotada não só de curiosidade científica, mas de empatia com seus pacientes, a quem quer “dar voz”, divulgando as teorias que ela própria criou a partir dos anos de observação. Respiramos ansiosos como as meninas sequestradas, sem saber o que virá, o que será, quem abrirá a porta, se devemos ficar ou sair, afinal, estamos tão perdidos quanto elas, apenas acompanhando o bordado da trama engedrada pelo absoluto condutor da história: Kevin, o personagem principal.

Porque entramos em contato com a riqueza poderosa e detalhista da mente de Kevin, do credo de cada personalidade que possui, da história de vida individualizada de cada uma delas (as diferentes idades, sexos que possuem, as diferentes habilidades, humores e graus de extroversão), alternamos em nós, também, vários sentimentos. Se ficamos tensos a maior parte do filme, também rimos, também nos tornamos empáticos em alguns poucos momentos, como quando uma delas diz à médica para não desistir de mostrar ao mundo quem são os pacientes portadores do Transtorno Dissociativo de Identidade.

Mentalmente doente, Kevin pretende ser aceito, amado e compreendido e desenvolve com sua médica uma relação terna de acolhimento, fazendo-nos percorrer entre as falas e as memórias dele, não só a trajetória crescente da sua doença mas os traumas e desamores que sofreu. Testemunhas da sua luta para equilibrarem-se os diferentes impulsos que a mente lhe provoca, impossível não pensarmos em como cada um de nós vive buscando a sua acolhida pessoal, seja de forma abrangente, na sociedade, seja de forma íntima, em nossa própria mente, na simples aceitação de si.

O filme traz à baila uma ideia muito interessante: será que o que chamamos de sobrenatural, na verdade, é a nossa humanidade ultrapassada em seus limites conhecidos?

Em algum momento da narrativa, a médica sugere a um colega que, se a mente de seus pacientes, por um lado, é perturbada, por outro, talvez seja capaz de abrir portas impensáveis para pessoas comuns. Que eles talvez tenham a chave de um portal que a maioria dos homens não suspeita existir dentro das suas mentes. Assim, dando sequência à semente lançada pela personagem, se o Transtorno Dissociativo de Identidade (ou qualquer situação mental diversa do que seria comum) é um fenômeno físico, mental, psicológico e pode proporcionar o uso de uma habilidade que uma pessoa não teria (como, por exemplo, uma cega que possua uma personalidade capaz de enxergar), a explicação para o extraordinário talvez seja puramente mental. Então, ao invés de pensarmos nessas mentes como frágeis e doentes, talvez devamos substituir esse pensamento pela ideia de que elas estejam um ponto acima da evolução, mais próximas de um portal para o que, reduzidos por nossa ignorância ou menor habilidade mental, chamamos de sobrenatural. Diferente do que se crê em geral, o sobrenatural não possuiria sua raiz no espiritual mas na nossa própria humanidade; seria o humano elevado a uma potência maior. Ter um dom sobrenatural, portanto, seria ter a capacidade de acessar uma parte do cérebro que potencializa habilidades que chamaríamos, em outro contexto, de fenômenos inexplicáveis.

Muito diz-se da inexplorada capacidade da mente humana e do quanto é possível alterar-se a realidade com a força do pensamento. Abordagens esotéricas, psicológicas e científicas tratam desse assunto. No filme, após um longo trabalho de elaboração, a mente do protagonista consegue até mesmo alterar seu corpo e elevar sua força física a um patamar acima da normalidade. Ao abordar o potencial desconhecido de sua mente, desmonta outra afirmação da personagem médica que, em outro momento, diz que, mesmo sendo-se capaz de realizar-se o extraordinário, há limites para o ser humano.

Então surge uma opção interessante do roteiro para estabelecer-se a dicotomia entre o bem e o mal: o herói e o vilão existem, alternadamente, na mente. E não é simples como “ah, todo humano carrega o bem e o mal dentro de si”. É mais profundo: são lados que se diferenciam, são vozes que se contradizem, é o mal (e não só o bem) querendo ser entendido e amado, são diversos seres que coabitam na mesma mente. Se nas mentes sãs, eles são entendidos como impulsos e filtrados pela razão, na mente de Kevin, eles se alternam “na luz”, como é dito, e cada um se materializa diante do espectador.

fragmentado2.jpg (foto de divulgação)

O filme nos lança numa constante observação e questionamento, enquanto nos subjuga ao medo do que pode resultar dos movimentos que o protagonista faz em cena e nos põe diante da angústia das moças sequestradas, em especial a da personagem Casey que encontra uma maneira de relacionar-se com seu algoz - ela também, de outras formas, psicologicamente fragmentada. Há muito, muito suspense. Há a expectativa de um universo perverso onde vamos desembocar. Em raras vezes, um riso nos liberta da tensão. A filmagem preciosa, os cenários meio minimalistas, claustrofóbicos, as luzes alaranjadas, os corredores muito estreitos e longos, os planos fechados nos atores, vão colaborando na intensificação das emoções que o filme provoca.

Por tudo isso, já seria ótimo se a história estivesse fechada nela mesma. Mas há, no final, a provocante interrelação com outro filme do mesmo diretor: “Corpo Fechado”. Shyamalan disse, em entrevistas, que os dois filmes fariam parte de uma trilogia. No final de “Fragmentado”, então, as duas narrativas se tocam levemente. Contudo, não é preciso assistir a um para entender o outro. Nem é preciso fazer essa conexão, se você não quiser. Passei uns dias não querendo, resistindo, porque a narrativa de “Fragmentado” me pareceu tão completa e interessante em si mesma que não quis abrir a leitura. Mas cedi e fiquei buscando as relações pelas propositais semelhanças e diferenças. Se o vilão interpretado por Samuel Jackson em “Corpo Fechado” é o antônimo do herói interpretado por Bruce Wyllis, reafirmando a existência da dicotomia bem x mal no mundo, em “Fragmentado”, o vilão de James McAvoy traz tudo dentro de si: é na sua humanidade, que vilão e herói se misturam. Se o corpo físico do Sr. Vidro possui uma rara fraqueza, o de Kevin pode passar de comum a descomunal. A semelhança entre os dois personagens é o habilidoso uso que fazem de suas mentes. E, também, a vontade sincera de que suas existências frágeis se exponham à luz e adquiram um significado aos olhos do mundo.

O primeiro filme se refere de forma direta à narrativa de quadrinhos, o segundo mergulha num universo psicológico obscuro. Por isso, em “Corpo Fechado” nos aproximamos mais facilmente do universo do fantástico e demoramos mais a perceber que nele está presente a mesma ideia vendida no segundo filme: super-vilões ou super-heróis são, na verdade, super-humanos, gente que possui habilidades físicas desenvolvidas além das demais pessoas. É o sobrenatural se curvando a uma explicação concreta e a uma existência justificável. O que não torna os filmes previsíveis em nada nem tira a aura de mistério aos gestos em cena.

Assim, assistindo a “Fragmentado”, quanto mais conscientes somos da fragilidade, da carência e da crueldade que há no homem, mais tememos os desfechos para as situações cênicas e o clímax da história. Afinal, é no universo humano e real que residem os perigos concretos. E reconhecê-los e enfrentá-los é mais assustador.


Ana Lúcia Gosling

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