puro achismo

...minhas leituras, possíveis verdades.

Ana Lúcia Gosling

Escrevo contos, crônicas e arrisco poesias no meu blog pessoal (https://anagosling.com/).
Por aqui, vou deixando impressões.

O Grande Sucesso e, afinal, o que é sucesso?

Sobre "O Grande Sucesso", montagem no Rio de Janeiro/Brasil, em março de 2017. Elenco: Alexandre Nero, Fabio Cardoso, Fernanda Fuchs, Eliezer Vander Brock, Marco Bravo, Carol Panesi, Rafael Camargo, Edith de Camargo. Texto e direção: Diego Fortes. Direção musical: Gilson Fukushima


sucesso.jpg (Foto de Divulgação)

Quem vai ao teatro esperando assistir ao protagonismo do ator Alexandre Nero, vai equivocado. Ele se mistura ao elenco dos atores de O Grande Sucesso e divide com todos momentos de atuação, música, silêncio, fundo de palco, com um personagem que é parte de um elenco de apoio de uma companhia de teatro e, numa coxia, aguarda sua vez de entrar em cena. Embora o ator esteja um pouco mais em foco do que os demais, todos se destacam alternadamente nas cenas vividas, numa distribuição generosa de (não-)protagonismos.

Quem espera assistir a uma peça linear, também se frustra. A peça é uma “metapeça”, ou seja, a peça que vemos ocorre nos bastidores de uma peça de teatro que estaria acontecendo em outro palco. O nosso olhar está na coxia do espetáculo, em que os atores entram e saem de repente de cena, conforme são exigidos no palco principal (que não vemos) e, por isso, os temas, as conversas, os personagens se revezam sob o nosso foco.

Todos os atores possuem também algum talento musical e são afinados e perfeitos no papel que a cena lhes destina. Essa afinação do elenco foi o que mais me agradou. Essa harmonia provoca um constante interesse da movimentação em cena, mesmo no que vai acontecendo amiúde no fundo do palco. Alexandre Nero e Rafael Camargo se destacam nas atuações mais estratégicas e maduras, mas o elenco todo é muito bom.

A peça é um cult se considerarmos sua estrutura narrativa (baseada na metalinguagem), o estilo de atuação dos atores e a proposta de questionamentos filosóficos e metafísicos. Mas o texto é fácil, fluido, e diz-se claramente o que quer dizer-se. Aliás, os personagens criticam as peças incompreensíveis, inacessíveis e cheias de mensagem subliminares ao apontar o excesso de metáforas e a longa duração como defeitos no espetáculo em que atuam. Os personagens, atores também, são eles próprios homens comuns tentando entender o que se passa diante de seus olhos e qual o sentido da vida que escolheram viver.

O questionamento principal, entretanto, versa sobre a relativização do conceito de sucesso. Seja através da fala irônica do personagem de Nero, em que se diz algo como “se o cara planejar fracassar e conseguir, isso é ter sucesso?”, seja na constatação de que as bactérias são bem-sucedidas e, de fato, “o grande sucesso”, ou na revelação feita pelo Criador de que a vida é algo bem elementar: começa, acontecem umas coisas e acaba. Assim, a própria existência humana se reduz a algo mais simples, e outros questionamentos surgem do texto: o medo de encarar a realidade (como no diálogo em que um ator confessa a outro ter medo de procurar o médico), a brevidade da vida (afinal, “acabamos”), as nossas relações com as opções de vida que fazemos (cada ator em cena lida diferentemente com sua profissão; há personagem que diz que, se soubesse, não estaria ali, e há o que aceite, apenas, o exercício do ofício como o próprio sentido de estar ali), a realidade versus a fantasia da vida (o lado de fora do teatro versus o palco principal) e o limbo (a coxia da peça).

No limbo, estão os personagens com as características com as quais nos identificamos. Como na vida real, na coxia do teatro há os que estão ali com o sonho de participar da cena maior e há os que estão ali apenas para sobreviver da profissão; há os que conhecem e entendem a narrativa da peça principal e há os que a acham confusa.

As comparações entre o teatro e a vida são constantes. Quando se fala de um se está falando do outro durante toda a narrativa. O bom é que rimos de ambos. Os temas surgem expostos em falas humoradas, inocentes e com um certo ritmo cômico. Não chegam a provocar um riso “pastelão” - é mais aquele que nasce da identificação com a mesmas esquinas da vida ou com a busca do sentido em viver. Rimos mas sem abandonar a melancolia que o pensamento suscita. Um riso ora nervoso, ora corrosivo, que alivia o pensamento. Mas não nos escapa a percepção de que, na vida, muitas das vezes, ocupamos aquele mesmo lugar dos atores na coxia: o limbo, um não-lugar, um ponto de espera entre o que desejamos e o que não conseguimos alcançar.

sucesso2.jpg (Foto de divulgação)

Por tudo isso, pode-se dizer que, sob alguns aspectos, é uma peça difícil. Em que pese a boa música, o humor, a fluidez do texto, ela nos remete à lembrança das nossas próprias frustrações; de como, de longe, assistimos a outros realizarem sonhos como os nossos, quando nosso tempo ainda é o de espera; de como, às vezes, ocupamos o espaço da não-existência. Lembra-nos que a vida pode ser só rotina e repetição – a peça termina onde começou, o dia que se passa em cena é um entre anos do mesmo ofício.

Duas imagens destaco: a desconstrução do ator-mito da peça principal e sua remontagem com a participação de todo o elenco de apoio, alusão ao fato de que ídolos não são tudo que se imagina e que o sucesso é uma construção, e a pose para fotografia em que todos sorriem exageradamente felizes, mesmo nos momentos em que se perdem na melancolia dos seus pensamentos, clara alusão à vida de aparente felicidade que ganha espaço não só nas capas das revistas mas também nas redes sociais. As duas imagens brigam com a ideia comum de que sucesso é fama, é visibilidade, é felicidade evidente, ao pontuar o quanto isso é ilusório. Sucesso talvez seja algo mais palpável e acessível. Se, no teatro como na vida (e até mesmo para as bactérias), o ciclo é surgir, acontecerem coisas e acabar, conclusão melhor não há de que o sucesso está entre o fluxo de coisas que acontecem e são construídas nas nossas vidas. E se o fim da ilusão nos entristece, a certeza de que o sucesso é algo mais simples e que cabe na rotina dos dias é maravilhosa.

E entre as músicas, todas agradáveis, destacaria “Do lado de cá e de lá”, cuja letra desenha perfeitamente a distância entre o sonho e a realidade do ofício e cuja melodia fica marcada na nossa cabeça, mesmo depois, no caminho de volta para casa. E, ainda, “Poema em linha torta”, livre adaptação de um poema de Alberto de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) que nos enquadra numa sociedade de homens que se esforçam em aparentar a perfeição que contradiz a humanidade em si.

A peça fala de sucessos e fracassos. Fala da vida e, um pouco, da morte. E dos nossos medos, das nossas frustrações, dos dias que se seguem e que, quando vemos, já somam anos. É melancólica e engraçada. Dá nó na garganta e diverte. Esse equilíbrio entre os sentimentos que desperta, o acerto na dose entre o aperto e o riso, é a parte mais interessante da narrativa. Some-se a isso a beleza dos cenários, das melodias, do figurino e o carisma dos atores e estamos diante de uma experiência inesquecível.


Ana Lúcia Gosling

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