Adriana Karla

Estudante de história, revolucionária de sofá, amante de cafés e literatura. Bob Dylan diz que seremos jovens para sempre, isso me serve de álibi para continuar escrevendo um monte de besteiras.

Eu matei minha mãe, mas ainda a amo

Hubert e sua mãe, Chantale, tem um relacionamento conturbado, diferente do que era na infância, essa relação parece ter sido cortada por uma linha fina que é sentida por ambos – semelhante a separação entre mãe e filho quando o médico corta o cordão umbilical.


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Em uma das falas, do longa-metragem: “Eu matei minha mãe” (J'ai tué ma mère), Hubert indaga: "Imagino que, às outras pessoas, odiar a mãe pareça um pecado. É uma hipocrisia. Estou certo de que também odiaram as suas mães. Talvez um segundo ou todo um ano." Estamos diante de um filme que resolveu explorar um dos assuntos tabus da nossa sociedade: as relações entre mães e filhos. Para além de uma visão romantizada de um relacionamento quase imaculado, a película traz cenas que se aproximam dos diálogos que vemos em famílias reais e não nas que estrelam comerciais de TV. O roteiro foi escrito por Xavier Dolan, quando tinha apenas 16 anos, sendo dirigido e estrelado pelo autor que teve como inspiração suas próprias experiências.

Logo na primeira cena, podemos perceber como se dá a relação entre Hubert (Xavier Dolan) e Chantale (Anne Dorval). No momento em que a mãe come um pedaço de pão, o filho a olha com desprezo, analisando as migalhas que se depositam no canto da sua boca. Os trejeitos, as roupas, a decoração da casa, o comportamento da mãe, tudo parece causar asco ao personagem. Enquanto que Chantale não consegue compreender porque o filho é tão calado. À medida que tenta se aproximar dele, ao mesmo tempo, se mostra indiferente aos seus pedidos, como quando o primogênito pede para alugar um apartamento e a mãe concorda, mas está prestando atenção à televisão e não a conversa.

Os personagens principais contrastam totalmente, parecem pertencer a planetas distintos. O que há em comum entre eles, além do fato de serem mãe e filho? Talvez, o questionamento de quando essa ligação entre os dois foi cortada. É perceptível como o autor-personagem se pergunta em que momento a relação foi interrompida, já que, como evidencia suas lembranças, até os 4 anos de idade a proximidade entre os dois era grande.

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Essa linha fina que separa filho e mãe parece ser a adolescência marcada pela busca de uma identidade que se constrói a partir do distanciamento da figura materna. Hubert é um adolescente que não tem muito diálogo em casa, sendo rude quando sua mãe tenta estabelecer alguma conversa. Esconde partes importantes de sua vida, como o fato de ser homossexual e ter um relacionamento com Antonin, (François Arnaud), que é visto somente como um amigo do filho. Enquanto que a mãe parece não saber como agir, por vezes, perde a paciência e em seguida toma decisões por Hubert, como quando o envia para um internato.

Creio que todos nós na entrada para adolescência fomos descobrindo novos gostos e automaticamente repudiando o que fazia referência à infância, porque não queríamos mais ser vistos como crianças e agora precisávamos ter nosso próprio círculo de amizades, formar nossa opinião e até mesmo desobedecer às regras. Será que não foi preciso que Hubert matasse sua mãe, mesmo que metaforicamente, para criar sua personalidade, já que antes se comportava como uma extensão das vontades maternas? Será que de alguma forma nós não matamos partes dessa emblemática figura para que possamos caminhar sozinhos? E deixamos de amá-la por isso?

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As relações humanas são bem mais complexas que a dualidade entre amor e ódio, não resta dúvida que tanto Hubert, quanto Chantale se amam, embora estejam perdidos nesse emaranhado de fios suspensos que uma hora se comunicam, e em outra são cortados. No fundo o que buscam é restabelecer essa ligação, mesmo que agora estejam em realidades e tenham desejos diferentes.

Quem de nós um dia, em um momento de raiva, não disse que odiava, ou mesmo quis se ver longe da figura materna? Mas ao mesmo tempo quem não mataria e morreria pela sua mãe? Essa é a grande contradição levantada pelo filme que faz parte da vida de quase todos os filhos, senão de todos.


Adriana Karla

Estudante de história, revolucionária de sofá, amante de cafés e literatura. Bob Dylan diz que seremos jovens para sempre, isso me serve de álibi para continuar escrevendo um monte de besteiras..
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