queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

A atitude feminina e a interpretação do universo masculino

Se eu estou a fim de um cara, eu não espero muito. Se ele não convidar logo eu tomo a atitude. E, cara, isso é assustador pra eles. No começo eles acham aquilo interessante: essa menina é decidida! Mas depois vão ficando tensos, levemente apavorados. Vão achando que não poderão lidar com aquilo. Eu sei que é exatamente isso que eles estão pensando e assisto de camarote.


Eu sempre tive atitude. Desde que me entendo por gente. Aos sete anos decidi que ia beijar meu namoradinho da escola. Fui lá e beijei. Como uma boa e jovem ansiosa crônica ainda não diagnosticada.

Um ansioso patológico sempre tem atitude. E na maioria das vezes ela é tomada na hora errada ou de forma maluca. Ter atitude é uma grande virtude para a maioria das pessoas. Mas ainda avalio se não pode ser um defeito para aqueles que vivem o futuro o tempo todo. Afinal, temos uma sociedade que ainda espera que o homem “faça as honras da casa”.

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Fui criada para ter atitude e costumo tê-la principalmente no que diz respeito a relacionamento. Aos 17 anos eu decidi que perderia a virgindade com um determinado garoto, porque ele tinha sido minha paixãozinha aos 15. E assim aconteceu.

Se eu estou a fim de um cara, eu não espero muito. Se ele não convidar logo eu tomo a atitude. Não que eu não goste daquele período da conquista. Eu curto e muito. Mas rapidamente eu boto os pés pelas mãos, convido o cara, sugiro o segundo encontro e por aí vai. Deixo claro pra quem estiver lendo que eu puxo conversa mas não fico psicando. Sou ansiosa crônica mas não sou insistente.

E, cara, isso é assustador pra eles. No começo eles acham aquilo interessante: essa menina é decidida! Mas depois eles vão ficando tensos, levemente apavorados. Vão achando que não poderão lidar com aquilo. Eu sei que é exatamente isso que eles estão pensando e assisto de camarote.

É estranho porque a minha intenção é fazer a coisa acontecer e não ser atirada. Não sou desesperada para namorar e nem quero isso agora. Me refiz há pouco de um rompimento e quero coisas leves. Não consigo ver problema nenhum em uma menina chamar um cara pra sair. Mas por algum motivo, muitas pessoas vêem.

Todas as vezes em que eu não tomo a atitude e fico esperando, os caras ligam. Mesmo sabendo dessa “regra do universo”, eu ignoro isso. Solenemente.

O dia seguinte ao primeiro encontro é aquele dilema pra qualquer mulher. A gente não sabe o que fazer e passa a elaborar um questionário mental: se ele tivesse gostado teria mandado mensagem logo de manhã. Mas também pode estar ocupado né? Ah, a mensagem chegou. São três horas da tarde. Tudo bem agora, ele apareceu no dia seguinte. Ufa!

O problema é que eu não espero até as três horas da tarde. Eu tomo a atitude e mando a bendita mensagem. Pronto. Essa é a garota que quer um feedback o mais rápido possível e três horas da tarde é tempo demais!

O dia seguinte a primeira transa então, meu Deus, é um martírio. Se a mensagem não chega às oito da manhã, às onze estou eu tomando a atitude mais uma vez. E aí eu vejo os balõezinhos sobre a cabeça dele: hummm, ela é um pouco maluca, vai começar a pegar no meu pé.

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E não! Não é isso. Eu simplesmente tenho atitude, por ser ansiosa crônica sim, esse é o agravante, mas porque em toda a minha vida eu tive mais atitude do que o usual.

Minha intenção não é fazer nenhum discurso de que os homens não prestam, os homens só querem transar, os homens não querem nada na vida, ou nem nada depreciante para mim, como o cara não gostou de mim, o cara me achou oferecida demais, o cara achou que eu transei rápido demais.

Eu não sei se é machismo da sociedade, dos próprios homens, não generalizando, é claro, mas eles se assustam sim, com uma mulher que toma a atitude. Que diga claramente que quer transar. Que não faça rodeios se quiser ver o cara novamente. Pode ser algo culturalmente impetrado na alma masculina, de que eles devem tomar as decisões e atitudes. Acontece de as coisas fluírem normalmente e eu continuar saindo com o cara. Mas existem aqueles que estampam “estou assustado” na testa.

Ter atitude não é uma escolha minha. Eu não acordo e penso: hum, hoje vou ter atitude!”. É natural, escapa normalmente sem pensar. A tal ansiedade crônica que mora comigo. Aí eu conto com a sorte de pensar que a sociedade não é tão machista, que os caras acham legal uma mulher ter atitude e não se importam de ela dizer que está afim de transar.

Talvez eu só queira viver intensamente. Cada pequeno momento. Talvez eu não tenha paciência de esperar as “coisas acontecerem”, como dizem por aí. Porque no fundo, o que todo mundo quer, e eu quero muito, é ser feliz. E eu não posso esperar por nada pra que isso aconteça.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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