queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Conversa com meu elefante

Senhor elefante, vamos conversar. Eu também tenho poderes mágicos. Eu sei me recolher para descansar do seu peso pelo tempo que for necessário, mas posso levantar e nem sentir você com seu bumbum enorme no meu peito. Eu sei que o senhor está aqui pensando: não levanta não, fique aí deitada e tome mais um remedinho. Senhor elefante, o senhor está enganado quanto à minha personalidade e quanto a força interior que tenho.


Tenho um elefante sentado no meu peito. Ele está aqui, confortavelmente acomodado há uns 15 anos. De vez em quando, levantava e vai dar uma volta. Mas, nas últimas semanas, ele sentou e jogou todo o peso dele no meu peito, dificultando a minha respiração, fazendo minha boca ficar seca e minha cabeça confusa.

Em raros momentos, nessas últimas semanas, meu elefante foi passear. Então, tem sido bem difícil lidar com todo esse peso. Um remedinho ansiolítico costumava aliviar o peso do elefante, só que ele já se acostumou com essa medicação e engorda a cada dia.

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Eu acordo e ele já está lá sentadinho. Vou trabalhar e ele joga todo seu peso em mim. Volto pra casa, correndo, como sempre, ou para buscar a minha filha na escola, ou para tentar fazer um treino decente na academia, ou para ir à terapia, e ele nem se mexe. Imagino eu que meu elefante tenha uma cara blasé, daquelas que passam a mensagem: não estou a fim de sair daqui agora. Me deixe em paz.

Além de pesado, esse elefante tem poderes mágicos. Ele consegue fazer com que eu me cobre o tempo todo, em relação ao trabalho, à criação da minha filha e a minha vida pessoal. Volta e meia ele me faz fazer bobagens, desfazer compromissos, mandar à merda. Outras vezes ele me deixa muito cansada com todo esse peso morto em cima de mim. O cansaço é tanto que fico horas tentando imaginar como posso me livrar desse elefante e por que ele se instalou bem em cima do meu peito.

Fui a vários médicos e terapeutas (os adestradores) pra tentar expulsá-lo. Houveram períodos em que ele me deu uma trégua. Em outros ele ficou mais levinho. Porém esse elefante deve gostar muito de mim porque não me larga por nada. Se aconchega aqui e me faz ficar na cama às vezes. C omo são quase 15 anos convivendo com ele, venho aprendendo a lidar com sua personalidade insistente. Algumas vezes eu digo: Ok, fiquei aí. Não ligo mais. Mas o peso dele é tão grande que, por mais que seja cômodo para mim deixa-lo ficar, eu procuro formas de fazer com que ele pelo menos fique colorido. E ele fica!

Senhor elefante, vamos conversar. Eu também tenho poderes mágicos. Eu sei me recolher para descansar do seu peso pelo tempo que for necessário mas posso levantar e nem sentir você com seu bumbum enorme no meu peito. Eu sei que o senhor está aqui pensando: Não levanta não, fique aí deitada e tome mais um remedinho. Senhor elefante, o senhor está enganado quanto à minha personalidade e quanto a força interior que tenho.

Posso procurar um novo adestrador que faça você se levantar e dar seu passeio. E que seja bem demorado, por favor! Meus amigos e minha família não gostam muito de você, acho que já sabe disso. Então entenda de uma vez que você pode até sentar e esmagar meu peito com seu peso, mas eu estarei sempre te empurrando porque aqui comigo não é o seu lugar. Mesmo que você esteja na cor que eu mais gosto.

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Eu tenho projetos pra realizar, Senhor elefante. Tenho uma filha linda que cresce me enchendo de orgulho. Tenho amigos que me fazem rir e uma mãe que não se importa se carrego todo esse seu peso, ela vai tentar retirá-lo do meu peito sempre que puder. O senhor já sabe então que posso lidar com seu tamanho porque não tenho medo de gente grande. Muito menos de elefante grande.

Meu peito sem o seu peso, Senhor elefante, é leve como o vento de lugares que visitei. Minha cabeça sem ter que descansar do seu peso é muito mais tranquila e coesa. Minhas mãos não tremem, eu não tenho tonturas e consigo respirar facilmente.

Então, Senhor elefante, enquanto eu estiver viva, vou dar um jeito de não deixar você ficar confortável comigo. Não se acomode porque estou levantando e minha força fará você cair. Nos últimos dias o Senhor até que foi de grande valia. Com seu peso consegui literalmente parar e repensar coisas que eu não podia processar. Fui deixando tudo acontecer mas você ficou tão pesado que precisei dar um tempo de algumas coisas para me entender individualmente.

E ao longo desses quase 15 anos em sua indesejável companhia, o Senhor me fez ir construindo meu amor próprio, que hoje está tão forte que não posso aceitar nada menos do que eu mereça. Posso ter que tolerar você mas não pessoas que não gostem de mim exatamente como eu sou ou atividades que não me façam ficar feliz.

Pode ir arrumando suas coisas, Senhor elefante. Já descobri seu nome e sobrenome: ansiedade. Pode ir porque tem brisa calma para entrar aqui. Tem amor, tem paz e tem risadas. Sua opressão pode ir e vir mas nos intervalos eu me encho de tudo o que for bom pra mim. Saiba que sua estadia em cima do meu peito, Senhor elefante, é curta. Está na hora do seu check-out.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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