queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Essa tal felicidade

A felicidade é como uma pequena gotinha de chuva que cai num dia de muito calor. Você pensa em se esconder dela, não quer se molhar. Mas se tomar coragem, toma um banho de chuva como quando era criança. Sim, a roupa está encharcada, o cabelo emaranhado, você terá que ajeitar essas coisas, como os problemas da vida. Mas a coragem de enfrentar a primeira gota e todo o resto da chuva que cai, isso sim, se chama Felicidade.


Final de noite, depois de um dia difícil, cheio de tarefas, vou até a janela do meu apartamento no 18º andar. Olho pra baixo, os carros pequenos passando, os faróis iluminando a avenida. Olho pra dentro de casa de novo. Vejo minha filha assistindo algum filme infantil, jogando, desenhando. Vejo meus cães cochilando calmamente e minha gata deitada na janela, esperando a brisa chegar. Tudo calmo. Felicidade.

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Ao acordar, sento na cozinha e tomo calmamente meu café até que meu cérebro realmente comece a funcionar. Suavemente, minha gata pula no meu colo e espera pelo carinho de todos os dias, no mesmo horário. Me olha como se soubesse que esse é o nosso momento. Felicidade.

Vou buscar minha filha na escola, correndo loucamente, como sempre. Ela me vê na porta da sala e abre aquele sorriso ainda meio desdentado de uma criança de sete anos. Aquele sorriso enorme e seus bracinhos se abrem pra mim. Ela conta com quem brigou, com quem brincou e o que aprendeu. Vamos embora cada uma falando sobre seu dia. Felicidade.

Em uma manhã calma de domingo, vou caminhar com a minha mãe pela praia. Olho em volta e vejo o mar que parece não ter fim, se encontrando com o céu bem lá na frente. Piso na areia, deixo a água salgada molhar meus pés. Respiro fundo tudo o que não consegui respirar durante a semana. Felicidade.

No passeio noturno com minhas cachorras, ansiosas por respirarem o ar de fora do apartamento, vejo naqueles focinhos sorridentes e com as línguas pra fora o amor e a devoção. Aproveito essa energia e sinto o ar da noite, vejo as pessoas levando as crianças para brincar na praia. Deixo que minhas bichinhas cheirem, sintam e se tranqüilizem. Felicidade.

Deito do lado desse cara especial. Tarde da noite, somente o som das músicas MPBs e o vento entrando pela janela. Sem dizer nada, ficamos ali deitados olhando um pro outro, dizendo mentalmente que aquilo tudo, que parece tão simples, é bom demais. Felicidade.

Em um bar qualquer, com meus amigos mais próximos, peço mais uma cerveja e conto uma das minhas mil histórias. Olho pra cada um deles que está na mesa, ouço a música de fundo. Cada um sorrindo como pode, diante dos problemas, das saudades, das faltas diárias. Mas sorrindo. Celebrando de alguma forma. Felicidade.

Final de tarde em um dos lugares que eu mais amo no mundo. Sento na areia fofa do Litoral Norte. O calor do dia se mistura com o vento fresco da noite. Deito na areia e olho pro céu, ficando multicolor depois que o sol vai indo embora. Felicidade.

Entro no mar com a minha filha em um sábado de sol. Ela ama estar no mar comigo só pra poder ir mais para o fundo. Brincamos de sereias mágicas que viram humanas. Remamos na pequena prancha de bodyboard dela. Mergulhamos juntas. Rimos juntas. Felicidade.

A barriga sente aquele frio, básico e tradicional de quem está gostando de uma pessoa. Estou pronta, checo o cabelo mais uma vez e desço. Chegando perto do carro vejo que aquele cara especial já me espera sorrindo. Abro a porta e o sorriso dele se abre mais, como se sorrisse com os olhos. Encosto a cabeça no banco do carro, coloco a mão no pescoço dele, no cabelo, respiro fundo. Felicidade.

Passo a manhã no mar com esse cara especial, que me faz rir tanto e me filma caindo da prancha mil vezes até eu conseguir sentar e remar. Pago mico, a praia está cheia. Mas pra mim ali não tem mais ninguém a não ser eu e ele. Felicidade.

Demora um bom tempo na vida para se perceber que a felicidade não é permanente e uniforme. É feita de pequenos bons momentos. Das coisas mais sutis, dos sinais, dos cheiros, dos sorrisos. De meia hora de silêncio. De toques, frases incompletas, piadas. De coisas que não duram 24 horas por dia e por isso quase nem reparamos quando elas acontecem.

A felicidade é como uma pequena gotinha de chuva que cai num dia de muito calor. Você pensa em se esconder dela, não quer se molhar. Mas se tomar coragem, toma um banho de chuva como quando era criança. Sim, a roupa está encharcada, o cabelo emaranhado, você terá que ajeitar essas coisas, como os problemas da vida. Mas a coragem de enfrentar a primeira gota e todo o resto da chuva que cai, isso sim, se chama Felicidade.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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