queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Por que amo tanto meus animais

Ouço muita gente dizer que o mundo está mais obcecado por bichos do que por crianças abandonadas. Ouço todo tipo de crítica. Meus animais não são tratados como gente. São tratados como cachorro e gato. Eu simplesmente tento retribuir todo o amor que eles me dão, todos do dias quando, mesmo me enlouquecendo muitas vezes, conseguem me passar a mensagem mais importante pra mim atualmente: gratidão.


Todos os dias saio cedo de casa e volto só à noite. Chego em casa exausta, cansada da rotina diária. E sou recebida com um monte de lambidas, latidos felizes, corre corre pela casa e olhinhos que não desgrudam de mim. Sim, tem sujeira pra limpar, jornal pra trocar, comida pra encher o pote, remédio pra dar. Mas essa energia incrível me contamina e me sinto mais leve.

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Esses olhinhos que me recebem, tão cheios de um amor absurdo, incompreensível na visão de alguns, me alimentam. Lá em casa são três olhares atentos a mim. Polly, a mais velha, uma Daschund de 9 anos, meu chicletinho; Fiona, a gata mau humorada herança do meu último relacionamento, e a mais nova integrante: Pankeca, uma vira-latinha de nove meses que transforma tudo em uma grande bagunça.

Sei que parece loucura uma pessoa como eu, que trabalha pra caramba, passa muito tempo fora de casa, tem uma filha de sete anos pra criar e mora em um apartamento pequeno, ter três bichinhos em casa. Mas pra mim não é loucura. É amor.

Por que eu gosto tanto de bicho? Minha ligação com eles é antiga mas se intensificou quando tive meus primeiros episódios de depressão. Polly e Marley (outro Daschund incrível que se foi ano passado)entendiam tanto aquela coisa toda e grudavam em mim. Era como se me dissessem: “você não está sozinha”.

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Quando fiquei grávida da Manu, a Polly, sempre maternal, deitava em cima do meu barrigão, prestando atenção em cada movimento do bebê. Os dois salsichas me acompanhavam nas caminhadas diárias pra cuidar da diabetes gestacional que desenvolvi.

Com o bebê em casa, os dois baixotinhos montavam guarda ao lado do berço. Ao menor sinal de choro, corriam pra me avisar. Nas mil noites em que ela não dormia, os dois ficavam acordados comigo na sala, assistindo milhares de filmes e me ouvindo cantar canções de ninar que eles pareciam entender.

Nossos passeios eram malucos. Amarrava Polly e Marley no carrinho da Manu e eles iam puxando, todos felizes e contentes com a bebê da “mamãe”. Manu cresceu com eles. Se ela sumia por um segundo, a encontrava sentada ao lado dos potes de ração experimentando o sabor do dia. Manu comeu muita ração. Me julguem, pediatras.

Durante a minha depressão pós parto, em que eu passava dias sozinha, lá estavam meus dois companheiros. Ao lado da banheira enquanto eu dava banho na Manu, ao lado do cadeirão enquanto ela comida, deitados do lado dela velando seu sono. E o meu.

Fiona , a gata, chegou em casa para que eu cuidasse dela um final de semana por causa da castração. E não foi mais embora. Iniciou um caso de amor com Polly (Marley já não estava mais conosco) e foi me adotando como mãe dela. E eu passei a amar muito aquela bichinha chatinha, temperamental mas extremamente atenta aos meus sentimentos e energias.

Nos meus piores dias, com o transtorno de ansiedade e tudo mais, Fiona deita sobre a minha barriga como se disse que tudo vai ficar bem. É maluca, se pendura na tela de proteção da janela, já fugiu algumas vezes e é arisca com outros animais. Mas todos os dias de manhã, enquanto tomo meu café, ela sobre no meu colo e espera pelo carinho matinal.

Não contente em ter dois bichos em casa, durante um trabalho de assessoria de imprensa em conjunto com uma emissora de TV, que gravava e ajudava uma senhora acumuladora de animais (ela tinha 250 bichos em casa), conheci a Pankeca. Ela se destacou por ser a única que dormia em meio a tantos latidos. Peguei no colo, magrinha, fedida, cheia de pulgas e carrapatos, pêlo branco todo encardido. Já era. Assinei o termo de adoção e levei pra casa.

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Gastei horrores com ela, que foi crescendo cada vez mais linda e alegre. Minha filha enlouqueceu por ter um filhote conosco e as duas começaram mais um caso de amor em casa. Sapatos roubados, sono interrompido no meio da noite pra brincar, mais gastos com ração. Com o diferencial da energia maravilhosa que se instalou no meu lar.

Descobri há pouco que Pankeca é epilética. Agora toma Gardenal duas vezes ao dia para controlar as crises, que não cessam, mas diminuem bastante. Penso que ela deveria mesmo ser minha.

Ouço muita gente dizer que o mundo está mais obcecado por bichos do que por crianças abandonadas. Ouço todo tipo de crítica. Meus animais não são tratados como gente. São tratados como cachorro e gato. Eu simplesmente tento retribuir todo o amor que eles me dão, todos do dias, quando, mesmo me enlouquecendo muitas vezes, conseguem me passar a mensagem mais importante pra mim atualmente: gratidão.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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