queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Sobre o romance que deveríamos ter

Sabe aquele romance que você pode dizer: "Vamos ficar na sua casa hoje, vendo filmes?" Sem que um dos dois não surte porque "é muita intimidade frequentar a casa um do outro"? Aquele romance no qual você abre um vinho e conta mil histórias que fazem o outro rir, e depois rola o sexo mais gostoso desse mundo, sem nenhuma ação mecânica porque “hoje é sábado e é preciso transar”? Só muito tesão e beijo na boca?


Eu gosto mesmo é de um romance. Posso parecer moderninha, mas eu quero um romance. Não digo namoro, relacionamento sério, mas sim um romance daqueles que você tem vontade de mandar mensagem no meio do dia mas não bombardeia nem é bombardeada de torpedos. Daqueles que te deixam bem sorridente, mas não com cara de boba, quando lembra daquela noite que foi demais.

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Quem não quer um romance daqueles gostosinhos, pra viajar com a pessoa num final de semana qualquer, ou simplesmente passear pela Avenida Paulista de mãos dadas? De pegar uma praia num dia ensolarado, de ir pra balada junto e se divertir mesmo, e não como se fosse um daqueles casais chatos, que saem juntos e ficam cada um em seu smartphone.

Sabe aquele romance que você pode dizer – Vamos ficar na sua casa hoje vendo filmes? – sem que um dos dois não surte porque é muita intimidade frequentar a casa um do outro? Aquele que você abre um vinho e conta mil histórias que fazem o outro rir e depois rola o sexo mais gostoso desse mundo, sem nenhuma ação mecânica porque “hoje é sábado e é preciso transar”, só muito tesão e beijo na boca?

Eu gosto mesmo é daqueles romances que você pode ligar para a pessoa de madrugada sem ela achar que você é grudenta. De romance com diversão, quando numa mesma situação você pode ficar mimimi e dar gargalhadas de alguma idiotice que o outro fez. Daqueles em que se vai ao cinema pra sentar na última fileira e dar uns amassos.

Romance bom é aquele que você deita em silêncio no peito da pessoa e ouve várias músicas sem falar uma única palavra. Não porque estão entediados. Mas porque é um momento de paz, que não define o rótulo do relacionamento, só faz curtir umas horas especiais.

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Eu quero um romance que eu possa ligar ou mandar mensagem desabafando sobre meu dia terrível no trabalho sem que isso pareça que eu queira juntas meus problemas e minhas trouxas.

Gostaria muito que a tecnologia não atrapalhasse esses romances, que podem durar e aí virar um relacionamento rotulado se ambos quiserem, ou acabar em poucas semanas mas ter sido incrível mesmo assim. Queria que a tecnologia de apps de paquera não deixasse a lei da oferta e da procura tão forte a ponto de não se curtir vários momentos diferentes com a mesma pessoa.

Aquele romance em que uma mensagem de bom dia não signifique nem seja interpretada como um “quero me casar com você”. Eu queria um romance que tá difícil hoje em dia. Porque as pessoas têm medo. Medo de se envolver, de se entregar para algo novo e totalmente imprevisível e desconhecido. Então elas enrolam a coisa. Protelam um novo encontro. Evitam falar muito no whatsapp pra não se apegar.

Ninguém se entrega de cara. Ninguém deixa que um conheça o outro um pouquinho mais nos primeiros encontros. Não temos tempo. Temos mil compromissos e já marcamos com a outra pessoa que conversamos pelo Tinder. Essa sexta não dá.

Eu fico saudosa de outras épocas, em que as pessoas gostavam desse romance. Dessa coisa que dá um friozinho na barriga sem perder a concentração no trabalho. Daquilo leve, calmo, sem pressão mas com um pouquinho de ciúmes. Porque um tiquinho de ciúmes é uma delícia.

O que eu quero é isso. Um romance. Talvez não tão perfeito como eu descrevi. Que tenha defeitos que possam aborrecer um pouquinho mas com um “oi, tudo bem, quero te ver. Me desculpa”, a chateação fique pra trás. Sem rótulo. Só vontade de ficar junto.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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