queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Transtorno de ansiedade X maternidade: a relação mais sincera que existe

Minhas conversas com minha filha são francas e verdadeiras. Explico o que acontece e porquê me sinto assim ou assado. Não posso criar uma princesa presa em uma redoma de vidro. Ela vive uma realidade comigo. Se estou certa, não sei. Mas, ela sabe do meu amor por ela. Sabe o quanto luto para ficar bem por ela. E nossa casa é recheada de amor e carinho, mesmo nos dias mais difíceis, em que é quase impossível respirar.


Depois de três testes de farmácia com aquelas duas listinhas vermelhas indicando a gravidez, fiz o exame de sangue que comprovou que eu esperava um bebê. Naquele minuto, o mundo parou, e eu só conseguia pensar em como iria ser mãe se há sete anos lutava contra a síndrome do pânico e o transtorno de ansiedade.

Manu nasceu linda e perfeita. Olhei pra ela e pensei: bom filha, somos eu e você agora. E vamos lutar contra esse desequilíbrio de serotonina do meu corpo sozinhas.

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Os seis primeiros meses foram enlouquecedores. Manu não dormia, muito menos eu. Não conseguia comer nem tomar banho direito. Emagreci uns 15 quilos e entrei em depressão pós parto. Cara, eu não desejo isso nem para minha pior inimiga. Eu só conseguia cuidar dela e nada mais. Chorava muito, tinha crises terríveis de pânico e ansiedade e não podia tomar nenhum medicamento porque ainda estava amamentando.

Meu médico me sugeriu a volta para a terapia, e interromper a amamentação para iniciar um tratamento com remédios. Aceitei a terapia e recusei a outra sugestão. Em hipótese alguma eu deixaria de amamentar minha filha porque eu estava com um problema. Isso estava fora de questão.

Coloquei Manu numa escolinha de meio período para que eu pudesse ter algumas horas para cuidar de mim. Minha mãe morava em uma cidade muito longe, e a família do meu ex-marido em uma cidade próxima, mas eram distantes da gente. Só contava com alguns amigos e uma babá.

O tempo passou, voltei a trabalhar como jornalista. Eu só pensava em mostrar para minha filha que eu conseguia. Que ela poderia se orgulhar de mim quando tivesse idade para entender. Mergulhei nesse trabalho, alternava períodos tranquilos com fases de extrema ansiedade. Voltei a não comer quase nada porque, na minha cabeça, qualquer alimento me faria mal.

Depois que me separei, a questão sobre como ser mãe, tendo transtorno de ansiedade, tornou-se bem mais latente. Éramos realmente só nós duas, meus dois cachorros e meus remédios. Eu tinha crises e mais crises e precisava dar conta da Manu, da escola dela, da casa, do meu trabalho, tudo isso sem cair. Sem me dar ao luxo de passar um dia inteiro na cama isolada do mundo.

Minha filha cresce me vendo lutar contra o diagnóstico do Transtorno de Ansiedade Generalizada. Ela me vê fazendo um esforço enorme para passar pelas crises. Me vê chorar quando meu corpo não aguenta mais. Mas, me vê levantar no dia seguinte e transformar o dia dela nas 24 horas mais incríveis para uma criança.

Culpo-me por ter ganhado uma companheira. Afinal, ela é consciente sobre a minha doença e fica ao meu lado durante as crises. Só que ela é só uma criança de sete anos. O que uma menina dessa idade entende de TAG? Nada!

O dia mais triste para mim foi quando ela me perguntou: mãe, por que você fica sempre doente? Isso foi como uma faca bem pontuda entrando no meu coração, devagar. Engoli o choro e coloquei Manu sentada na minha frente. “Filha, a mamãe tem TAG. É isso que acontece comigo”.

Minhas conversas com ela são francas e verdadeiras. Explico o que acontece e porque me sinto assim ou assado. Não posso criar uma princesa presa em uma redoma de vidro. Ela vive uma realidade comigo. Se estou certa, não sei. Mas ela sabe do meu amor por ela. Sabe o quanto luto pra ficar bem por ela. E nossa casa é recheada de amor e carinho, mesmo nos dias mais difíceis, em que é quase impossível respirar.

Nos períodos de crise, conto bastante com a ajuda da minha mãe. Mas faço questão de assumir toda a criação da Manu pessoalmente. Mesmo com a taquicardia a mil, as mãos trêmulas e querendo me enfiar em um buraco, eu sento, faço a lição, converso sobre a escola. Eu quero participar de absolutamente tudo.

Alguns dias não são tão fáceis como descrevi. O cansaço mental é enorme em um período de crises frequentes. Eu simplesmente deito e durmo por horas. Gostaria de estar acordada e fazer qualquer coisa legal com ela. Mas quando chega o meu limite eu não posso lutar contra. Preciso deixar vir para levantar no outro dia de cabeça erguida, corpo destruído, mas pronta para outra batalha.

Eu não gostaria que ela passasse por isso. Gostaria de ser uma mãe que não entrasse em pânico quando está atrasada para algum compromisso. De não perder a paciência por estar me sentindo tão mal. De passar o domingo inteiro brincando com ela. Só que eu apenas não posso me cobrar tanto porque eu descobri que quanto mais eu me cobro, menos feliz eu sou e consequentemente, menos feliz ela é. Nesses sete anos de Manu, aprendi que preciso estar feliz para fazê-la feliz.

E eu fico feliz em ter forças para começar um novo tratamento, como faço agora. Me sinto feliz em poder ser forte o bastante para explicar pra ela o que acontece comigo. Me sinto feliz em ser verdadeira com ela, mesmo sofrendo horrores nos períodos críticos.

Então, a ideia de felicidade é muito clara para ela. De alguma forma, ela sabe que a felicidade é simples se você lutar por ela com todas as suas forças. E eu vejo na Manu uma grande energia de felicidade, assim como outras pessoas vêem e me dizem. E no final, eu percebo que, apesar de tudo, estou sendo realmente mãe.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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