queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Viajar é preciso, sim!

Encontrei pedacinhos quebrados cada vez que via algo pela primeira vez em uma destas viagens, cada vez que me senti feliz por estar conhecendo algo diferente.


“Não fuja dos problemas. Quando você voltar eles estarão no mesmo lugar”. Ouso discordar desse quase ditado. Na vida às vezes é preciso dar uma fugidinha pra colocar tudo dentro do lugar na gente.

Há alguns meses atrás eu estava muito apaixonada e ia me casar. A menos de dez dias da nossa mudança de casa, os planos foram por água abaixo e eu me vi deitada em uma cama, sem forças pra levantar e superar o que aconteceu. Foi aí que resolvi fazer uma viagem. Precisava sair do lugar onde vivi tantas coisas bonitas. Do mesmo lugar onde tudo não passou de planos.

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Um feriado estava bem próximo e sem pensar direito, arrumei as malas e parti para São Thomé das Letras com uma amiga. Já falei sobre São Thomé aqui, e como aquele lugar é mágico. Mas no meu caso, essa viagem teve um significado especial: o início do encontro comigo mesma.

Lá entrei em contato com todas as energias positivas que eu conhecia. Fui da dor extrema à tranquilidade, quando subi no alto da pirâmide e caminhava em direção ao mirante mais alto. Em São Thomé eu vivi o silêncio das matas e das cachoeiras, o paladar voltando a dar o ar da graça com a incrível comida mineira de um restaurante muito charmoso chamado O Alquimista. Voltei a beber vinho. Quase fiz uma tatuagem em um estúdio onde o tatuador estava completamente chapado.

Voltei pra casa depois de três dias. Recuperada? Ainda não mesmo. Mas eu havia plantado uma sementinha naquela pequena viagem.

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Ainda embalada pela dor, fui seguindo meus dias tentando buscar a normalidade. E mais uma “fugidinha” rápida para a tão querida Colônia de Férias dos Conferentes em Campo Limpo Paulista. Aparentemente simples demais, as viagens para esse lugar sempre foram símbolo de paz e amizade. Fogueiras pra espantar o super frio à noite, descanso na grama embaixo de uma árvore, churrascos, feijoadas, passeios a cavalo, muita conversa e risadas.

De volta ao dia a dia, como eu estava? Relativamente melhor. Havia dor ainda mas essas duas “escapadinhas” ajudaram a mudar algo em mim.

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Um tempo depois decidi esticar um final de semana com a minha filha e minha mãe, em Boiçucanga, no Litoral Norte. Ali só procurei paz. A praia de Paúba, linda, limpa e cheia de tranquilidade,, a cachoeira que caia bem atrás da pousada, o final de tarde na areia, algum programa bobo na TV, já deitada ouvindo o som do silêncio.

Na volta pra casa eu estava diferente. Me livrando da dor e entrando numa das fases mais malucas da minha vida. Eu estava finalmente me descobrindo interiormente e fazendo algumas bobagens pra chegar nessa descoberta. Depois de meses de espera, chegou setembro e o tão desejado Rock in Rio. Parti para o Rio de Janeiro com a mesma amiga que me acompanhou em São Thomé das Letras. Meio simbólico, talvez.

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Sou apaixonada pelo Rio. Só de pisar em Copacabana já sinto uma energia louca pulsando, algo que chega a ser surreal. Nos hospedamos em Copacabana, o bairro que eu considero mais carioca. Caminhamos lentamente pelas ruas, ficamos estendidas na areia mais famosa do Brasil, ficamos encantadas com a vista do terraço do hotel, que dava para o Vidigal ao fundo e pro mar carioca à frente. Ficamos ricas almoçando num restaurante caro em Ipanema, comemos como loucas no Pizza Hut, descobrimos que o Jardim Botânico é lindo, andamos de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas, tomamos café da manhã ao som de vários idiomas diferentes, dançamos músicas desconhecidas no quarto do hotel, fomos a um pub e conhecemos um cara que falava tanto que nos espantou, e é claro, sentimos novamente a mágica da Cidade do Rock, o som das vozes dos caras de quem cantarolamos músicas especiais. Dançamos, compramos mandioca frita, bebemos alguns chopes, e voltamos pro hotel exaustas depois de uma caminhada de mais de 1 km até o taxista.

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Ali no Rio fiz a grande descoberta. Estava curada. Livre da dor do amor desfeito, dos planos que ruíram, dos sonhos em conjunto, do sentimento de abandono.

Cada um dos lugares que visitei deixou uma pecinha dentro de mim, que fui montando devagar até completar aquele quebra cabeça complicado que era o estar sozinha. Um dos grandes medos da minha vida. Era tão necessário na minha vida que curiosamente eu estava gostando. De me descobrir. Me reinventar. De perceber que a minha vida estava ali esperando por mim o tempo todo, pra que eu voltasse pra ela e dissesse: vou ficar por muito tempo desta vez. Encontrei pedacinhos quebrados cada vez que via algo pela primeira vez em uma destas viagens, cada vez que me senti feliz por estar conhecendo algo diferente.

Pequenas viagens, lembranças incríveis que me ajudaram a estar novamente no meu eixo.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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