queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

A história de um romance que não era pra ser

O envolvimento parecia rápido demais, tanto quanto o início dos desencontros de comunicação. Ele pilhado com problemas no trabalho. Ela lutando para sair de uma recaída de depressão. Ela dizia A. Ela entendia B. Eles se desentendiam. O fim daquele romance, que nem chegou a começar, estava decretado.


Marcaram o primeiro encontro. A noite foi perfeita. Conversas aleatórias e uma química incrível. Fazia frio e garoava naquela noite. Ele, falante e à vontade. Ela, tagarela e feliz por ele pedir para fumar um cigarro. Tomaram uma garrafa de vinho e, no carro, ouviram a banda preferida dela.

Ela disse que queria fazer mais uma tatuagem. Ele prometeu levá-la ao estúdio de um amigo tatuador. Ela é apaixonada por São Thomé das Letras, Minas Gerais. “Quero conhecer a cidade com você”, ele disse. Mostraram fotos e vídeos dos filhos, cada um com sua corujisse. Ele arrancou os melhores sorrisos que ela tinha para mostrar.

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Na mesma semana, se encontraram mais duas vezes. E foi divertido, encantador e engraçado. A noite perfeita acabou numa suíte inundada pelo esquecimento da torneira do ofurô aberta. Algumas roupas molhadas, muitas risadas e um café da manhã juntos.

O envolvimento parecia rápido demais, tanto quanto o início dos desencontros de comunicação. Ele pilhado com problemas no trabalho. Ela lutando para sair de uma recaída de depressão. Ele ligava para consolar durante as crises de pânico dela. Ela ouvia atentamente os desabafos e planos dele.

Ele dizia “bom dia.”. Ela achava aquilo “seco” demais e reagia inconscientemente ao receber mensagens dele com assuntos de trabalho. Ele estava focado em se reinventar. Ela esperava um “quero te ver hoje”. Ele queria mesmo vê-la. Mas não tinha tempo de dizer. E assim foi se abrindo uma parede invisível entre os dois.

Ela entrou em pânico. Não poderia ficar triste por causa de um cara. Os dois tinham a mesma prioridade: a recuperação, cada um de problemas distintos. Mas os objetivos imediatos eram diferentes e foram fazendo com que aquela parede crescesse ainda mais. Ela tentava escalar a parede e olhar por cima do muro. Ele se mantinha lá embaixo, e de vez em quando colocava uma escada para vê-la.

Ela dizia A. Ela entendia B. Eles se desentendiam. Ela ficava triste, ele cada vez mais fechado em sua concha. Ela achou que tinha tido uma ideia brilhante ao preparar uma cesta com vinho e chocolates para um novo encontro. Ele gostou da surpresa. Conversaram, tomaram vinho, comeram os chocolates, ficaram juntos e adormeceram rapidamente.

Mesmo assim, a comunicação piorou. Não se entendiam direito, não sabiam ao certo o que queriam dizer um para o outro. Ele resolvendo seu próprio destino, não pôde corresponder. Ela com medo e preocupada em se recuperar rapidamente, recuou. Não foi a primeira vez. Mas recuou decidida.

Ele tomou a importante decisão de mudar de cidade. Ela então teve a certeza de que o recuo foi o melhor a fazer. A comunicação já era difícil, imagine à distância. Ele se chateou. Ela também. O fim daquele romance, que nem chegou a começar, estava decretado.

E todas as vezes que ela ouvisse a música “Cataflor”, do Tiago Iorc, ela se lembraria dele. Com todo o carinho do começo daquela história que durou pouco porque simplesmente não era pra ser.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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