queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

A intensidade nossa de cada dia

Nunca sei quando vou acordar com os sintomas do Transtorno de Ansiedade exaltados, mãos tremendo, coração acelerado, saindo pela boca. Não tenho como prever uma crise brava, daquelas que me tiram a pouca organização mental e o ar que eu respiro. Não sei se amanhã estarei bem, com o coração batendo sem a taquicardia que me persegue. Então viver tudo plenamente é a melhor forma de administrar a ansiedade e não deixar passar nada, nem um segundo sequer de felicidade.


Ansiosos são intensos. Não falo de ansiedade comum, aquela saudável que trabalha os sinais de alerta que nosso cérebro precisa ter. Falo de ansiedade patológica mesmo. Não conheço uma pessoa que possui o Transtorno de Ansiedade e seus derivados (síndrome do pânico, depressão etc) que não seja intensa. Porque a gente sente tudo demais. Muitas vezes mais do que deveríamos.

Já sofri e sofro demais com essa intensidade. Está presente em absolutamente tudo o que eu faço. E cada vez que algo sai do meu controle, ou não acontece como eu gostaria, vem aquela decepção bem amarga. “O que foi que eu fiz de errado?” é a primeira coisa que vem a cabeça, que a essa altura já está produzindo algo cinematográfico para o que ainda está por vir.

intensidade2.jpg

Jogo intensidade na minha rotina. Hoje não teve nada emocionante? Já me chateio. Sou intensa no trabalho, me apaixono por cada projeto, cada vitória. Tenho uma intensidade descabida no amor pelos meus amigos. Digo eu te amo o tempo todo pra eles e dane-se se me acharem louca. Fico completamente arrasada quando brigo com algum deles.

Se eu gosto de um cara, sou intensa mesmo. Falo o que sinto, faço o que tenho vontade. Obviamente essa minha característica, ou põe o cara pra correr, ou me faz parecer doida ou, em raros casos, é interpretada de forma legal. Todo mundo me diz: não se jogue de cabeça assim! Mas eu penso: por que não me jogaria? Por que devo omitir o que sinto, o que me dá vontade, para fazer um joguinho qualquer? Não, obrigada.

Depois de tanto ouvir esse conselho, parei pra pensar no assunto. Como se eu já não pensasse demais em tudo o tempo todo. Mesmo assim dediquei um tempo para observar qual é o motivo da minha intensidade, além do fato de ter Transtorno de Ansiedade bem presente na minha vida, todos os dias. E encontrei a resposta exatamente aí.

Nunca sei quando vou acordar com os sintomas exaltados, mãos tremendo, coração acelerado, saindo pela boca. Não tenho como prever uma crise brava de ansiedade, daquelas que me tiram a pouca organização mental e o ar que eu respiro. Não sei se amanhã estarei bem, com o coração batendo sem a taquicardia que me persegue. Então eu demonstro, falo e faço tudo o que eu quero, sendo assim, considerada intensa demais.

Só que eu não posso perder tempo. Todos os minutos em que eu me sinto bem, disposta, ou nem tanto mas conseguindo fazer minhas coisas, eu aproveito. Com toda a força e amor que eu tenho dentro de mim. Curto cada pedacinho de uma conversa bacana com amigos. Cada bate papo com a minha mãe tomando um café na cozinha de casa. Cada cartinha de amor que recebo da minha filha. Cada beijo que dou no cara que me faz bem hoje. Cada lambida e olhar de paixão dos meus bichos para mim.

Está aí a explicação da minha intensidade. Talvez a intensidade de tantas outras pessoas que, assim como eu, querem controlar o amanhã mas na realidade não fazem a menor ideia do que vai ocorrer. Então viver tudo, plenamente, é a melhor forma de administrar o Transtorno de Ansiedade e não deixar passar nada, nem um segundo sequer de felicidade.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Aline Rollo
Site Meter