queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

A simplicidade em meio ao caos de São Paulo

Observar o mais simples da vida também é possível na maior cidade da América Latina. É preciso silenciar internamente para descobrir um pouco mais sobre si mesmo e sobre os encantos de São Paulo. Voltei pra casa pensando em toda essa simplicidade. E nas mensagens que chegavam para mim enquanto eu ouvia aqueles senhores italianos, que de tão fofos, dava vontade de beijar. “Se perdoe”. “Se sinta mais”. “Se permita dizer mais nãos”. “Esteja sozinha por um tempo, por favor”. “Fale menos”. “Respire mais”. “Deixe ir”.


Em busca do meu silêncio interior, me permiti ter um final de semana inteiro meu. Marquei com um amigo querido um encontro em São Paulo. Amigos queridos sempre renovam nossas energias. E São Paulo não é exatamente uma cidade silenciosa, porém minha quietude interna aflorou de forma singular por lá.

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Hospedados em um hotel na Avenida Augusta (mais barulho ainda), percorremos o entorno e a Avenida Paulista demoradamente. Visitamos o Masp, e pudemos parar em uma exposição de fotografias do Cineclube. Datadas da década de 20, 30 até os anos 60, cada foto me trazia uma análise singular daquela imagem. Cada pedaço de construção no papel, cada detalhe de enquadramento e cada mensagem despertavam ainda mais a minha busca pelo simples.

Os hippies e seus produtos, contrastando com aquela selva de pedra generosa, fizeram o caminhar mais leve e doce na Avenida Paulista. Os estilos de moda urbana, o vai e vem de pessoas, os skates que faziam barulho na calçada, tudo me remetia a mim mesma. A tudo o que venho buscando. No meio de todo aquele caos, senti paz.

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Me permiti apreciar a culinária paulistana. Ninguém quer engordar, nem eu, mas eu queria sentir o sabor paulistano. Queria ter prazer em comer, sem pensar que a minha calça jeans não ficaria contente comigo na segunda-feira. Abrimos um vinho, comemos o que quisemos, rimos de coisas inúteis.

Sempre que vou à São Paulo me concentro na Avenida Paulista e entorno. Desta vez, com a sugestão do meu amigo, me aventurei pelo bairro do Bexiga. Chegamos à Praça Dom Orione e passamos a percorrer cada barraca com voracidade. Vinis, telefones antigos, conjuntos de chás, brinquedos, plaquinhas decorativas, grandes e pequenas máquinas de escrever. O que já foi moderno hoje está lá exposto em uma feira de antiguidade.

Os sotaques à minha volta me davam a sensação de estar no meu lar. Italianos falam alto, riem alto e brigam alto. Na minha casa, as risadas sempre eram altas e gostosas e a TV gritava o tempo todo.

Paramos em uma cantina fofa para tomar uma cerveja e, óbvio, comer comida italiana. Mais comilança, mais prazer, mais simplicidade. Quatro senhores italianos, com seus instrumentos, iniciaram a música ao vivo do lugar. Ali mesmo, na calçada, ouvi um dos melhores chorinhos da minha vida. Eram canções que eu conhecia porque minha avó ouvia. E o cantor, com seus cabelos grisalhos, cantava com o coração tão apaixonado como se ele mesmo tivesse composto aquelas músicas.

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Passamos horas ali. Praticamente em silêncio. Degustando a música, a comida, o lugar, o sol que batia invariavelmente em nossos rostos. Permanecemos ali sem dizer nada. Eu, totalmente voltada ao meu silêncio interior, que ali foi intensificado. Me levantei um minuto para fazer carinho em um cão fofo que passou mas fui mordida por ele. Entendi a mensagem. Fique com seu silêncio que eu fico com o meu.

Voltei pra casa pensando em toda essa simplicidade. Em todas as mensagens que venho recebendo desde que passei a querer silenciar um pouco. Mensagens que chegavam para mim enquanto eu ouvia aqueles senhores italianos, que de tão fofos, dava vontade de beijar. “Se perdoe”. “Se sinta mais”. “Se permita dizer mais nãos”. “Esteja sozinha por um tempo, por favor”. “Fale menos”. “Respire mais”. “Deixe ir”.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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