queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

A arte do desencontro

Cada qual sentia saudade, e cada qual não reagia. Mas a saudade batia todos os dias na porta do coração dos dois, quando ouviam uma música ou sentiam um cheiro. Quando pensavam no toque e no beijo um do outro e em como se olhavam bem nos olhos quando estavam juntos. E assim seguiam seus dias. Cheios de saudade, incompletos, mas com suas verdades irrefutáveis, fazendo com que o desencontro fosse o maior destaque daquela história.


Era uma vez uma garota muito agitada que, por algumas coisas do passado, preferia afastar todos os meninos que se aproximavam. Essa garota parecia ligada em uma tomada 220 volts, cheia de atitude, de compromissos, obrigações, e bem pouco tempo pra ela. A ajudinha de alguns remedinhos era fundamental para que a garota pudesse respirar de vez em quando.

Um dia, tão despretenciosamente quanto sua crença no amor, a garota conheceu um cara. Relaxado, engraçado, despojado, com uma vida tão simples e tranqüila que mal se podia acreditar que isso existia.

A primeira coisa que a garota reparou foi no sorriso desse cara. Quando ele sorria, os olhos ficavam pequenininhos e quase fechavam. Ele literalmente sorria com os olhos. A segunda coisa que chamou a atenção da garota foi a maneira simples que ele encarava a vida. Ele fazia seus horários de trabalho e não perdia um final de tarde em um lugar tranqüilo.

desencontros.jpg

A vontade de ver esse cara novamente veio tão natural que os encontros passaram a ser freqüentes. A garota via aquele sorriso e tudo mudava em seu dia. E o cara a aconchegava em seus braços, falando alguma bobagem que fazia a garota rir sem parar. Ela sorria mesmo no silêncio e ele a olhava como se ela fosse uma princesa. E do lado dele, ela se sentia assim mesmo.

Esse cara gostava de dizer o quanto a garota era linda. O quanto seus pequenos gestos bobos o deixavam apaixonado. E a garota dorminhoca acordava no meio da noite pra ver esse cara, que havia ultrapassado a barreira que ela mesma tinha imposto em sua vida, enquanto ele estava no sono mais profundo.

A garota roncava pela manhã e esse cara não se importava. Era ocupada demais e ele não se importava. Sua casa era cheia de bichos de estimação mimados e ele não se incomodava. Mas havia um ponto nessa relação tão bonita que incomodava aos dois. Era a diferença. O oposto de duas idéias diferentes, de duas concepções antônimas.

A diferença, somada às duas fortes personalidades, levaram a garota e o cara a se separarem, em meio a uma briga descabida. Não se pensou, não se esperou, não se conversou. Tão rápido como se apaixonaram, a garota e o cara também terminaram.

Aquele ponto diferente foi mais forte do que qualquer razão que se pudesse ter no momento de uma discussão. Os opostos não se atraíram naquele momento. Cada qual com a sua razão, ficaram apenas com as inúmeras fotos lindas e divertidas que tinham e as canções que faziam um lembrar do outro.

Cada qual sentia saudade, e cada qual não reagia. O coração apertava, mas nem a garota nem o cara telefonavam. Ninguém queria deixar aquela diferença para trás. Mas a saudade batia todos os dias na porta do coração dos dois, quando ouviam uma música ou sentiam um cheiro. Quando se lembravam de um dia incrível juntos e das noites conversando sobre todos os assuntos do mundo. Quando pensavam no toque e no beijo um do outro e em como se olhavam bem nos olhos quando estavam juntos.

E assim, a garota e o cara seguiam seus dias. Cheios de saudade, incompletos, mas com suas verdades irrefutáveis, fazendo com que o desencontro fosse o maior destaque daquela história de amor. Mesmo a vida sendo a arte do encontro, segundo Vinícius de Moraes.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious //Aline Rollo