queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Carta aos pais ausentes

Esse texto é para todos os homens que, em um determinado momento de suas vidas, se despiram do papel de pai e abandonaram seus filhos. Àqueles homens que engravidaram suas namoradas e viraram as costas, deixando apenas um dinheiro para o aborto ou uma tristeza profunda e um vazio naquele ser que ainda nem nasceu. Aos homens que se separam de suas esposas e de seus filhos.


O que é ser pai para vocês? Aparentemente, pagar uma pensão mensal (ou não) e dar uns telefonemas de vez em quando. É postar foto bonitinha no facebook em um final de semana raro de visita. Para outros, ser pai não significa absolutamente nada. Esses são os que abandonaram suas namoradas grávidas e sozinhas e nunca mais voltaram nem para ver o rosto do bebê.

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Eu digo com conhecimento de causa. Vocês perderam um grande aprendizado na vida. Perderam a oportunidade de ensinar seu filho a dar os primeiros passos. Perderam noites de sono recompensadas com sorrisos e aquele cheirinho incrível de bebê. Não viram sua filha se vestir de princesa e acreditar na fada do dente. Não perceberam que seu filho não gosta de futebol mas adora o mar e uma prancha de surfe.

Vocês, que após a separação, acharam que não tinham mais obrigações na educação de seus filhos. Que não podem dar conta de suas novas esposas e seus antigos filhos. Eles não se enquadram mais em suas vidas, não é mesmo? É uma pena que vocês não enlouqueceram com a lição de casa, os trabalhos escolares, as brigas e amores com os amiguinhos, a falação sem parar após a escola, as febres, vômitos, contas a pagar.

Sinto muito se ficar com seu filho no seu dia de folga é chato para vocês. Se vocês nem sabe o nome do filho que abandonaram nas mãos de uma mulher que precisou ser forte e criar um ser humano e um futuro cidadão sozinha. Que pena que vocês não lembram a data de aniversário da sua criança. E nem vão saber quando ela entrar em uma faculdade ou passar dificuldades na vida.

Não é para o colo de vocês que seu filho vai correr quando precisar chorar. Ufa, né? Não é o carinho dele que vocês vão sentir depois de tomar várias rasteiras da vida. Não são aquelas mãozinhas pequenas com esmalte vermelho que vocês vão segurar depois de um dia daqueles no trabalho.

Felizmente, você não terá nenhuma preocupação, afinal tem alguém cuidando muito bem da sua criança por você. Felizmente, você não vai perder o sono quando seu filho for para a balada. Você não terá vontade de socar a parede quando a criança faz birra. Você não terá cabelos brancos antes da hora. Não vai dormir exausto depois de ajudar na lição, levar na natação, no balé, no inglês. Não vai chorar ao ver seu filho chorar também.

O final de semana é somente de vocês, olha que beleza! Vocês não precisarão ensinar a andar de bicicleta sem rodinhas e ficar com dores nas costas de tanto empurrar. Vocês não terão aquela alegria de assistir seu filho pedalando sozinho após várias tentativas. Vocês não perderão seus tempos assistindo o por do sol ao lado de sua criança nem falando sobre o universo e as coisas mais lindas da vida.

É uma pena, caros homens que só são pais em uma certidão de nascimento (às vezes nem isso), que vocês não possam ter nada disso que foi dito. Nem a parte boa nem a parte ruim. Vocês não saberão o que é amor incondicional. O que é ter um companheiro pro resto da vida que vai te amar com todas as forças que ele tem. M as sabem, fiquem tranqüilos. Seus filhos crescerão saudáveis, inteligentes, com alguns traumas, mas nada que vá fazê-los se tornarem pessoas fracas. Muito pelo contrário. Sabe por que? Porque vocês deixaram seus bebês com mães. Mães de verdade. Que às vezes sentem vontade de fugir, se trancam no banheiro pra chorar, ficam exaustas e irritadas com os choros, as manhas, as malcriações. Essas mães conseguem ter os mais variados sentimentos e ainda assim amar tanto seus filhos e se tornarem a mulher-maravilha por eles.

Então fiquem descansados. Seus filhos serão bem cuidados. E vocês continuarão livres e despreocupados.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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