queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Crônica de uma história de amor

Parafraseando Tiago Iorc, ninguém escapa do peso de viver. E essa história de amor foi vivida com todas as suas forças. Não deu, não durou. Mas foi vivida. E foram guardadas delicadamente dentro de um bolso as boas lembranças. A parte ruim, foi para qualquer lugar escondido onde não se possa mais ver.


Sou daquelas que acham o amor o máximo. Que adoram uma história de amor, com todas as circunstâncias boas e ruins que um romance carrega. Gosto de ouvir essas histórias e saber como todas essas pessoas são corajosas ao enfrentarem tanta coisa para viver um amor, que nem sempre tem a duração desejada mas é vivido de forma intensa e bonita enquanto estiver vivo em uma das partes.

Pois bem. A história de Julia e Rodrigo é uma dessas.

Julia, aquela garota com ar de maluca, com o peito cheio de coragem e o corpo tatuado. Veio para este mundo para exibir aquele sorrisão gigante por aí, sem se importar com o que os outros pensam. Bióloga, Julia é apaixonada por tudo. Principalmente pela vida, pelas aventuras que o mundo proporciona.

Como nos acasos da vida, Julia conheceu Rodrigo. Numa ocorrência policial que precisou fazer. Foi assaltada e Rodrigo a atendeu em uma delegacia qualquer da vida. Se olharam profissionalmente e se apaixonaram perdidamente.

Foram três meses intensos, vividos como se fossem 365 dias. Dormiam e acordavam juntos. Liam juntos. Corriam juntos. Faziam amor e terminavam a noite abraçados. Iam a padaria, ao mercado, ao bar, à praia. Julia sorria e Rodrigo se iluminava. Julia chorava e Rodrigo a amparava. Era intenso e verdadeiro. Era felicidade plena e sem o medo característico que quase todo mundo tem. Ninguém quer se apaixonar porque ninguém quer sofrer. Julia e Rodrigo não faziam parte dessas estatísticas tristes.

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Mas Julia tinha um projeto inadiável. Planejou, guardou dinheiro, quase morreu de ansiedade pelo sonho de morar seis meses no paraíso chamado Chapada Diamantina. Chegou a data da viagem. E o coração dela viajou despedaçado por deixar Rodrigo. Mas ele estaria ali quando ela voltasse. “Vá e realize seu sonho”, ele disse.

E na Chapada Julia foi muito feliz por um tempo. Teve a experiência de vida que quis, fez os amigos que quis, trabalhou com muitas coisas que envolviam a natureza e sua paixão por ela. Fez de uma coruja, que voltava todos os dias para sua casinha alugada, sua melhor amiga. Viveu todos os sentimentos de um grande sonho.

Mas um belo dia, Julia percebeu que Rodrigo talvez não estivesse mais esperando por ela, que contava os dias para voltar para o calor daquele cara que a tinha feito acreditar no amor. Não haviam mais tantas ligações dele. As mensagens eram escassas. Nada disso fazia sentido para ela.

Julia voltou da Chapada. E descobriu que aquele Rodrigo, que disse que iria espera-la, não existia mais. Ela voltou correndo, antes da data determinada, para seu grande amor, que agora já tinha outro amor.

Como acreditar no amor daqui para frente, se Julia passava os dias em estado de choque, paralisada, sem querer sair da cama pela manhã, sem querer fazer o café que ele tanto gostava, sem poder pisar naquele apartamento onde viveram tantas coisas lindas?

Como o sol que nasce todos os dias, Julia nasceu de novo. Levantou da cama, pisou e dançou no apartamento, buscou sua paz, ser recomeço. Mas tudo aquilo deixou uma sequela. Julia entrou para as estatísticas dos que têm medo do amor. Afinal, aquele sofrimento não poderia mais ter espaço em sua vida.

E Julia seguiu. Estudando e trabalhando. E nunca mais viu Rodrigo, que também seguiu, com seu trabalho e seu novo amor.

Me pergunto agora se este final foi feliz ou triste. Mas analisando profundamente e parafraseando Tiago Iorc, ninguém escapa do peso de viver. E ela viveu esse amor com todas as suas forças. Não deu, não durou. Mas ela viveu. E guardou delicadamente dentro de um bolso as boas lembranças. A parte ruim, foi para qualquer lugar escondido onde ela não possa mais ver.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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