queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Dedo podre

Toda vez que eu me aborreço com um cara que estou saindo ou namorando minha mãe me diz a mesma frase: filha, você tem o dedo podre. Quando escuto isso sempre digo: - mãe, tudo depende do ponto de vista. O cara pode ser um sociopata mas eu sempre aprendo alguma coisa com o relacionamento. Ela faz aquela cara de “tá bom” e eu fico lá tentando fazê-la acreditar na minha teoria.


Toda vez que eu me aborreço com um cara que estou saindo ou namorando minha mãe me diz a mesma frase: filha, você tem o dedo podre.

Ela sempre me disse isso, desde a adolescência. Aos 14, descolei um namoradinho que tinha fama de mau na cidade. Aquele menino que nenhuma mãe quer perto de sua filha. Mas aqueles olhos verdes me deixaram cega, surda e muda. Não é preciso dizer que ele me fez de gato e sapato e eu fiquei péssima. E lá veio a minha mãe com a frase, dita pela primeira vez.

dedo podre.jpgQuando escuto isso sempre digo: - mãe, tudo depende do ponto de vista. O cara pode ser um sociopata mas eu sempre aprendo alguma coisa com o relacionamento. Ela faz aquela cara de “tá bom” e eu fico lá tentando fazê-la acreditar na minha teoria.

Porque eu realmente acho a minha teoria válida. Por mal ou por bem, a gente aprende alguma coisa com relacionamentos falidos, fadados ao fracasso ou incríveis.

Aos 17 aprendi que se você não transar com aquele cara mais velho que você está saindo, ele te troca por outra que transe. Simples e cafajeste assim. Aprendi que o fato de eu ter esperado e escolhido o cara com quem eu perderia a virgindade valeu muito a pena.

Mais velha, aos 20 e poucos, e namorando havia 5, descobri que a distância pode sim acabar com um relacionamento. Que viver de telefonemas não sustenta um amor tão bonito. Que é preciso abrir mão de muita coisa para se viver sozinha tendo um namorado a milhares de quilômetros de distância.

Percebi que esse sofrimento dá brecha para o surgimento de um novo amor. E assim me casei e depois de uns anos, ganhei o maior presente do mundo: minha filha. Muitos casamentos começam a dar sinais de problemas após o nascimento de um filho, principalmente quando se tem depressão pós-parto. Aprendi que os casamentos chegam ao fim.

Descobri que quando uma pessoa se separa ela fica tão frágil que cai na conversa de qualquer babaca. E eu cai muitas vezes. Caia, me apaixonava, sofria, levantava, caia e assim por diante.

Hoje vejo que os babacas me ensinaram muita coisa. A não programar a minha vida em função deles. A investir num cara até certo ponto, sabendo a hora de abandonar a causa. A não levar a coisa a sério, a evitar certos comprometimentos, a transar só porque estou com vontade.

Mas os caras legais, ahh, esses me fizeram sentir amada, desejada, cuidada. Me fizeram parecer tão legal como eu realmente sou e do jeito que eu sou. Me ajudaram a curtir as pequenas coisas da vida, como ver o pôr do sol na praia, pedalar ou ficar horas jogando conversa fora.

Não estou mais com nenhum desses caras legais. Por muitos motivos. O amor acabou restando só um grande carinho; as coisas bonitas descambaram e se perdeu o respeito; um dos dois se apaixonou por outra pessoa; alguém ficou muito confuso, e por aí vai.

Eu chorei por alguns desses caras legais. E ouvi a frase: filha, você tem o dedo podre. Eu chorei por alguns babacas. E a frase de novo. Então deduzo que, ou eu realmente estou fadada ao fracasso amoroso (o que não acho que seja verdade) ou o dedo só se torna podre quando as coisas acabam. E tudo nessa vida tem começo, meio e fim. Portanto, mãe, meu dedo não é pobre. Está saudável e fazendo as escolhas para ser feliz no momento.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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