queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Diário de Bordo de uma ansiosa

Esta é a história de um dia na vida de um ansioso. Esta é a história de tantos dias na minha vida.


Volto na noite anterior de uma viagem incrível pra São Thomé das Letras, meu lugar de paz, e no dia seguinte estou de pé às 7h30. Tomo meu café da manhã respondendo pra uma amiga pelo whatsapp como foi a viagem. No caminho do trabalho já começo a sentir o peito oprimindo. Vou respirando fundo até chegar.

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Corro para a minha xícara de café. O coração já acelerou. A mente já trabalha em ritmo alucinante. – Preciso pegar o papel para fazer o Imposto de Renda. – Cacete, esqueci de comprar a ração das cachorras. – Aquele cara que conheci semana passada era estranho... – Preciso fazer um texto urgente, meu Deus. E não sai nada! –Vou marcar a Canoa Havaiana pra sábado. – Tenho que preparar o próximo bate papo!!!!!

A essa altura meu cérebro já começa a dar sinais de fraqueza. Mas a mente trabalha rápido demais e em segundos já pensei mais umas cem coisas diferentes. E todas elas me trazem angústia.

Na hora do almoço a respiração já está ofegante. Sigo em frente, temos trabalho, reuniões. Começo a sentir aquela estranheza típica e aquela agitação que não me deixa muito tempo parada na cadeira. A concentração vai se esvaindo devagar mas me esforço muito para continuar o que estou fazendo.

Hora de ir embora e o coração já está saltando pela boca. Os ombros doloridos pela rigidez do corpo. Vou direto pra casa pensando que preciso fazer o funcional porque comi horrores em São Thomé. Nos primeiros momentos do treino, o fôlego está péssimo. Depois vai melhorando e consigo me concentrar. Em um determinado momento, me desconcentro e começo a pensar nesse texto. – É uma boa ideia, já que não consigo escrever nada mesmo. Vou contar como a minha cabeça funciona o dia todo. Como a ansiedade vai me dominando com o passar das horas e me deixando enlouquecida.

Termino meu dia ouvindo minha filha ler algumas histórias, batendo papo no whatsapp e escrevendo. A respiração ainda não voltou ao normal apesar de eu estar deitada no sofá enquanto escrevo isso. Mas hoje já projetei tanta coisa. Já me culpei de tanta coisa. Já tive tantas conversas internas. Leva tempo pra normalizar a mente e aquietar o coração.

Provavelmente eu vá dormir com o peso no peito ainda. Boa noite.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
Saiba como escrever na obvious.
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