queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Hora de parar

Um tempo de sanidade (sim porque um ansioso crônico permanece em estado insano pelo menos 18 horas por dia) me fez ter condições de tomar decisões sobre aspectos da minha vida que também me davam prazer, assim como o cigarro, mas que também eram nocivos para mim. Estou deixando o cigarro e espero que para sempre. E quero deixar algumas lembranças tristes, atitudes depreciativas e uns tombos irem também. Vai ficar o que é bom. Que não polua meus pulmões, meu coração e minha vida.


Após um final de semana terrível de intoxicação alimentar, consegui levar minha filha na escola. Ainda fraca, passei em frente a uma farmácia. Simplesmente entrei e pedi pra atendente: - Você tem aqueles adesivos pra parar de fumar? Tenho. Escolhi, paguei e sai pensando: hoje começo a parar de fumar.

Com o meu transtorno de ansiedade generalizada, parar de fumar sempre esteve fora de questão pra mim. Veja, um ansioso grau 10 não tem como viver sem a fumacinha relaxante do cigarro. Após alguns meses da troca de medicamento me sinto preparada para parar.

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Esse tempo de sanidade (sim porque um ansioso crônico permanece em estado insano pelo menos 18 horas por dia) me fez ter condições de tomar decisões sobre aspectos da minha vida que também me davam prazer, assim como o cigarro, mas que também eram nocivos para mim.

Meu lema sempre foi “vamos viver intensamente, nem que precisemos viver loucamente”. Então eu fiz muitas loucuras. Muitas “cacas”. Principalmente depois do término difícil do meu penúltimo namoro. Sai daquele relacionamento enlouquecida.

Queria viver tudo ao mesmo tempo. Viajei, fui pra balada, entrei em aplicativos de paquera, conheci vários caras, saí com alguns deles. E essa situação toda foi se desenrolando de tal forma que a ansiedade dominou por completo. Logo que o lance com um carinha chegava ao fim, embarcava com outro em seguida.

Passei a viver como eu pregava. Me diverti horrores, acumulei tantas histórias pra contar. Comecei a abrir a minha vida e a minha doença aqui, adotei uma cachorrinha, mesmo tendo mais uma cachorra e gata em casa.

Comecei a namorar um cara muito bacana, amigo de um amigo. Eu gostava de ficar com ele, gostava dele, mas também gostava de estar solteira. O cara era muito ciumento e obviamente as coisas não terminaram muito bem.

Me joguei numa viagem insana por Buenos Aires. Eu e minha amiga ficamos sem dinheiro lá. Fomos a uma balada surreal de tão roots. Cada lugar novo que eu conheço, ou volto porque amei, ocupa um espaço diferenciado no meu coração. E com Buenos Aires foi assim.

Mas um dia, após mais uma loucura, movida pela ansiedade, é claro, eu parei. Fui ao banheiro me olhar no espelho. O que vi foi alguém que já está estabilizada mas insiste em dar espaço para que a ansiedade estrague alguma coisa. Alguém que consegue respirar normalmente 70% do dia. Alguém pronta para mudar muita coisa.

A coisa do cigarro é a primeira delas. Estou aqui escrevendo com meu adesivo no braço e com uma leve tendência a acender um cigarro. Mas a vontade passa. Vamos ter que vencer esta etapa de mudança.

Mais mudanças virão. Afinal são 36 anos, alguns deles dedicados a burrices divertidas, mas que algumas vezes me faziam chorar no meu travesseiro à noite. Foram muitas coisas que me desvalorizaram, algumas que me magoaram muito e é preciso deixar essa mágoa ir embora para sempre. É preciso encontrar o equilíbrio entre se valorizar e não perder a minha personalidade.

Estou deixando o cigarro e espero que para sempre. E quero deixar algumas lembranças tristes e uns tombos irem também. Vai ficar o que é bom. Que não polua meus pulmões, meu coração e minha vida.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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