queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

O que eu aprendi durante os meus 36 anos?

Depois dos 30 me descobri como mulher, profissional e mãe. Comecei a entender cada passo que eu dava e porque eu fazia determinadas coisas. Entendi que é preciso deixar entrar na minha vida somente o que me trás felicidade de alguma forma, que me motiva a ser melhor. Percebi que realmente gosto de mim de verdade, do jeitinho que eu sou. Com 30, 32, 36, tanto faz. Se eu tiver rugas, que sejam de felicidade.


Mulher tem essa coisa com a idade. Acordei hoje apavorada por completar em breve 36 anos. Não terei mais 35, já passei dos 30. Agora sigo como um foguete rumo aos 40.

Muita gente me diz: não se deprima, você está ótima! Sim, eu me sinto ótima e leve para ter 36. Ainda guardo um pouco da mentalidade adolescente. Sou uma causadora nata entre os meus amigos. Mesmo assim, os 3.6 me assustam. Porém sei que esses longos trinta e seis anos me ensinaram coisas incríveis.

Aprendi que o universo tem planos pra gente e nem desconfiamos. Aos 17, bati o pé que queria morar sozinha e ter toda a independência que eu quisesse. Hoje, quero ficar mais perto da minha mãe. Deixarei minha privacidade e voltarei para a casa dela, pra ficar mais pertinho.

Aos 25, 26, acreditava que um filho não tinha o mínimo espaço na minha vida. Afinal, eu queria viajar pelo mundo vendendo miçangas com uma mochila nas costas. Aí, aos 28, o universo me presenteou com a criaturinha mais lindo do mundo. Sou mãe e não posso mais vender miçangas por aí. Abro e continuarei abrindo mão de muita coisa pela Manu.

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Minha filha nasceu e eu queria fazer tudo absolutamente sozinha. Dar banho, trocar fralda, fazer dormir. Colocar na minha cama? Jamais. O bebê tem que se acostumar a ficar no berço. Hoje, com quase 36, faria tudo diferente. Manu dormiria na minha cama, assim eu também poderia dormir e não precisaria chegar aos 45 quilos por falta de sono, parecendo um cadáver ambulante. Daria mamadeira à noite para que eu não precisasse amamentar exausta. Pediria ajuda a Deus e todo mundo.

Após a minha separação, fiquei um tanto quanto maluca. Meus relacionamentos acompanhavam meu ritmo de vida, ou seja: eram malucos. Eu não dizia o que queria dizer e metia os pés pelas mãos. Eu não pensava bem no que eu queria. Ia me envolvendo e quando percebia, tudo estava mais complicado do que quando começou. Ainda não acho que tenho uma maturidade exemplar para relacionamentos, mas hoje sei o que quero: paz, tranqüilidade, companheirismo, romance e sexo gostoso.

Durante muito tempo na minha vida não me achei uma boa profissional. Sempre achei que tinha falhas, me cobrava absurdamente. Ao longo dos anos, percebi que poderia transformar minhas falhas, colocando foco nas minhas qualidades. O que é bom, supera o que é falho. Também exercito o “no stress” (não que eu consiga progredir muito nisso, mas eu tento).

Nunca fui muito apegada a bens materiais. Jamais economizei dinheiro. Nem sei fazer isso. Acho um problema isso na minha vida. Por outro lado, aprendi que posso não estar mais aqui amanhã. Então vivo cada dia como se fosse o último. Como o que eu tiver vontade, planejo minhas pequenas viagens. Mesmo com toda a minha falta de tempo, priorizo o que vou levar na minha alma depois que eu me for. O resto não interessa muito, na verdade.

Sempre tive muitos amigos, graças a Deus. E alguns poucos que são como a minha família. Nesses 36 anos de vida, pude contar com cada um deles em diversas situações. Aprendi que cada um tem uma personalidade e nem sempre todo mundo estará feliz e contente, pronto pra aceitar seu convite para uma cerveja. Percebi que ignorar os defeitinhos e me apegar no quão incríveis eles são me dá a sensação de amparo e de amor, além de perceber meus defeitos bem de perto.

Depois dos 30 me descobri como mulher, profissional e mãe. Comecei a entender cada passo que eu dava e porque eu fazia determinadas coisas. Entendi que é preciso deixar entrar na minha vida somente o que me trás felicidade de alguma forma, que me motiva a ser melhor. Percebi que realmente gosto de mim de verdade, do jeitinho que eu sou. Com 30, 32, 36, tanto faz. Se eu tiver rugas, que sejam de felicidade.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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