queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Nem sempre duas pessoas que se gostam ficam juntas

Não podemos controlar o outro nem ultrapassar limites. Uma das coisas que nos faz seres corajosos e fortes é entender que nem todo mundo que se gosta acaba junto. Aquela máxima de que “quem quer dá um jeito” não funciona muito bem na prática. E ficar buscando isso de maneira incessante gera mágoas desnecessárias, podendo estragar uma relação de grande cumplicidade e amor, de carinho, afeto e preocupação com o bem estar do outro.


Era uma vez um cara e uma garota. Já se conheciam, mas não tinham contato próximo. Como a vida é engraçada e aproxima pessoas de forma improvável, caíram nas graças deste destino. Se aproximaram e tiveram uma identificação única, construindo algo raro nos dias de hoje: uma relação de muito carinho e cumplicidade.

Claro que, sendo um homem e uma mulher, foi inevitável que ficassem juntos, de forma intensa e bonita. E óbvio que, sendo seres humanos, cada um tinha uma visão diferente da situação, com seus bloqueios e travas pessoais. Era um relacionamento muito fácil e muito complicado ao mesmo tempo. Cada um no seu tempo, cada qual a sua maneira de agir. Foram idas e vindas, algumas situações tristes, mas a maioria bonita e feliz. Idas e vindas que não duravam muito tempo entre uma pequena separação e outra. Eles estavam ali um para o outro, mesmo que não fosse um relacionamento amoroso definitivo. Eles simplesmente estavam ali para o que der e vier e permanecerem muito tempo separados parecia surreal.

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Algo fazia com que eles se entendessem mesmo com os desentendimentos e desigualdades banais. E foi se criando uma relação diferente de muitas outras que são vistas por aí. Eles se entendiam, mas não podiam ficar juntos. E não existe um porquê para isso. Simplesmente, naquele momento, não era possível.

Essa história não é muito comum. Poucas pessoas lidam bem com relações que não são taxadas e rotuladas pela sociedade. Ela não lidava bem com isso. Porque faz parte do ser humano querer ter provas do bem querer do outro o tempo todo. Provas palpáveis. E assim se esquece dos pequenos gestos e sinais, de que mesmo que uma relação não seja consolidada ou até mesmo não se estabeleça de fato, o carinho e o amor faz com que a ligação entre duas pessoas seja mais do que um relacionamento rotulado.

Aprender a lidar com o que não está sob nosso controle faz parte do nosso autoconhecimento, de nossa busca pela paz e felicidade. Não podemos controlar sentimentos, travas emocionais, bloqueios. Não podemos controlar o outro nem ultrapassar limites. Uma das coisas que nos faz seres corajosos e fortes é entender que nem todo mundo que se gosta acaba junto. Aquela máxima de que “quem quer dá um jeito” não funciona muito bem na prática. E ficar buscando isso de maneira incessante gera mágoas desnecessárias, podendo estragar uma relação de grande cumplicidade e amor, de carinho, afeto e preocupação com o bem estar do outro.

E agora eu pergunto: isso não é uma forma de amor? Ter o cuidado de olhar o outro, como o casal da história, que não tem desfecho mas já possui uma bonita trajetória que será sempre guardada na mente dos dois, não é amar? Diante de tantas relações rasas, frias e vazias cada vez mais comuns nos dias de hoje, eu digo: sim, isso é amor. E posso garantir também que é um amor mais completo e sereno do que se espera obter ou se vê em cenas de cinema.

Se o casal da história vai ficar junto, não se sabe. A vida dá voltas e cada um cuida de suas feridas antigas ou atuais para que, cicatrizadas, possam dar lugar a tatuagens bonitas de momentos únicos e felizes. Para dar lugar a um carinho que pode permanecer pelo resto da vida de duas pessoas.

Nem sempre duas pessoas que se gostam ficam juntas no tempo que querem. E podem não ficar juntas nunca. Mas o que a vida mais quer nos ensinar é que uma relação tem tantos braços e abraços apertados, tantas situações de parceria que o que vale mesmo a pena é conservar por perto essas pessoas. Elas entraram em nossas vidas por algum motivo. E se nos fizeram rir, nos acolheram em seus colos muitas vezes machucados também, formou-se um amor para ser guardado pela vida toda.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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