queime depois de ler

A arte imitando a vida

Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante

Sobre meu coração partido

Já quis muito que tudo desse certo, que pudéssemos voltar no tempo e dar um jeito nas coisas. Que eu pudesse refazer algumas atitudes. Durante muito tempo achei que ele sentia minha falta. Hoje, eu não acho mais que ele sinta a minha falta. Não quero mais refazer atitudes nem voltar no tempo. Precisei de alguns meses sozinha pra entender que por mais que a gente faça, não será suficiente se não é pra acontecer. Simples assim.


A gente pensa que nunca vai ter um desses amores na vida. Desses que tem tudo pra dar certo, mas não dá. Que todo mundo diz como vocês combinam, mas naquela realidade bem dura da relação, você sabe que vocês não tem nada a ver um com o outro. Que está na cara que aquilo tudo não faz muito sentido e você tem que tomar algumas decisões que vão te marcar pro resto da vida.

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“Você parece durona, mas sabe se enfiar muito bem dentro de um abraço”. Assim que ele me disse isso, tive a sensação de que ele enxergava dentro de mim. Eu podia mostrar ali toda a minha fragilidade escondida pra sobreviver neste mundo “non sense”. Eu sorria cada vez mais, e muito mais quando ele estava comigo. Embarquei em algo que pra mim parecia ser muito natural, mas aos olhos dele não era tão simples assim.

Tínhamos longas conversas, sobre absolutamente qualquer coisa. Ele apareceu em um momento delicado da minha vida e entendia minhas crises de pânico após beber um pouco a mais e conseguia me acalmar de um jeito surreal. Só por me abraçar e fazer o tempo parar uns minutinhos.

Quando as coisas começaram a não dar tão certo como o que estava no script, e após alguns rompimentos, comecei e entender que aquela relação não daria certo. Por mais que eu tentasse, me esforçasse, e ele também, cada qual a sua maneira, eu simplesmente sabia que não daria certo.

Precisei me afastar. Quando nos víamos, eu voltava pra casa chorando por não ter cedido mais uma vez. Seria mais contraditório se eu não pensasse em me enfiar naquele abraço o tempo todo, mesmo tendo consciência de que sofreria muito mais cada vez que eu esperasse mais do que ele podia me dar.

Foram algumas decisões de não ficarmos mais juntos pra não estragar uma amizade bonita. Hoje dou uma boa olhada em volta e não acho essa amizade. Não acho mais a cumplicidade de antes. Não acho mais nada além de um leve desconforto quando estamos juntos ou entre amigos, porque nenhum dos dois sabe lidar direito com essa situação. Desperdiçamos algumas chances pra preservar algo que não existe agora. E isso me entristece às vezes.

Já quis muito que tudo desse certo, que pudéssemos voltar no tempo e dar um jeito nas coisas. Que eu pudesse refazer algumas atitudes. Durante muito tempo achei que ele sentia minha falta com algumas demonstrações que eu sempre precisei colocar em códigos para decifrar.

Hoje, eu não acho mais que ele sinta a minha falta. Não quero mais refazer atitudes nem voltar no tempo. Precisei de alguns meses sozinha pra entender que por mais que a gente faça, não será suficiente se não é pra acontecer. Simples assim. Lutei pra caramba, fiz uma porção de coisas pra funcionar. Devo ter errado várias vezes também. Mas eu fiz.

Só que não deu. Algumas coisas são assim na vida. O mais importante pra mim é que, mesmo que às vezes eu ainda sinta falta daquele abraço que freava o tempo, finalmente aceitei que não deu. Não tenho como mudar nem controlar isso. Quando sinto o cheiro do perfume dele parece que ele está bem pertinho de mim. Mas é uma boa ilusão olfativa. Nada mais do que isso. E quando a gente aceita de verdade que acabou, fica mais fácil mandar embora aquela tristeza que bate na porta de vez em quando.

Se eu faria tudo de novo? Faria. Porque eu sou essa pessoa que cai de cabeça mesmo. Gosto de me apaixonar. Cair e levantar faz parte da vida e, sem querer ser clichê, as quedas fazem a gente se erguer mais madura. Talvez um pouco dura. Mas com o coração sempre aberto.


Aline Rollo

Essa metamorfose ambulante.
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