questão de gênero

Sob um campo de ideias

Sandra Frietha

Poetisa. Louca por Rock'n Roll. Amante da escrita libertina. Que vezes se perde nesse emaranhado de letras, decifrando (como se fosse possível) frivolidades desse mundo belo e repleto de caos.

Luis Buñuel, Um Cão Andaluz - A Ruptura Com os Paradigmas e o Pecado da Bestialidade

O cinema europeu traz à perspectiva - O ato de pensar. Algo que a nós ocidentais influenciados ao formato fast food, comumente, saímos de uma sala de cinema ao imposto guela a baixo. A morte de estereótipos. Do primitivo ao orgânico. “Um Cão Andaluz”, curta metragem rodado na França, cujo seu lançamento tanto para bem, como para mal se deu em 06 de Junho de 1929. Uma débil e complexa obra da vanguarda surrealista.


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Do universo paralelo ao de Dante Alighieri, o inferno entronizado na mente de uma criança. Nasce na pequena província de Teruel, Aragão, no dia 22 de Fevereiro de 1900, uma das mentes mais inquietas e apreciadora do incomum - o cineasta Luis Buñuel. Espanhol que mais tarde se naturalizaria mexicano. De uma criação jesuíta, com a adolescência, se torna ateu. Numa citação ao punk rock dos anos 70’s, rebela-se, dando as costas ao clero e tudo o que ele acreditava trazer (im)progresso ao homem. A rebeldia estava estabelecida, e Luís Buñuel permaneceria fiel a si mesmo até o fim sua vida.

A dicotomia de conceitos pré-estabelecidos, proporciona a anarquia dos sentidos. Neste parâmetro, Luís Buñuel se doa ao surrealismo, vindo de vertentes que se conversam como o cubismo, dadaísmo. Pincela em suas obras na sétima arte o pensar de questões que temos como oníricas.

Numa busca pela liberdade, cria estereótipos marginais, e de forma crua, detalha obscuramente uma sociedade simulada (a burguesia). Buñuel rasga o véu dos ditames, elevando sua arte ao expressionismo do movimento para seu tempo - A vanguarda do surrealismo. Na produção e roteiro deste obra, conta com a companhia do imaginário apocalíptico do então amigo Salvador Dali, ícone das artes plásticas e integrante do movimento, cuja filosofia pós freudiana, incita a se libertar de si - o surrealismo. Dali, exerceu grande influência, não somente no trabalho, mas durante sua vida.

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O quanto a religião escraviza e em detrimento, desvia da rota de quanto há em universo em nós. Históricamente segundo Leandro Karnal, renomado historiador e professor na UniCamp: "ateismo ou religião, não tornam o mundo melhor ou pior, apenas torna o mundo tal jeito que ele é".

Conclui-se a partir dessa linha de pensamento, que independente a nossa experiência religiosa, beirando ou não ao fundamentalismo, alguns sobressaem, sendo capazes de na linearidade criar, avançar, desprendendo de ensinamentos arraigados e enraizados pelo senso comum. Para essas almas cheias de mistérios, o certo ou errado, tem papel secundar a ânsia que reclama pelo cultivo do novo. De tempos em tempos, mortais, pessoas comuns, são incubidas a responsabilidade em traduzir do mundo imaginoso, questionamentos ao que venha se tornar palpável ao sensorial

Para uma mente que rompeu pensamentos, chega a ser o advento do cataclisma, certas objeções que para alguns – muitos; sua obra “Um Cão Andaluz”, causa, verberizado ao dito comum “nonsense”. Porém, Buñuel afirma:

“Ciência não me interessa. Ignora o sonho, a chance, o riso, o sentimento e a contradição, coisas que são preciosas para mim”

Olhamos que seja, mil vezes no espelho, porém, há uma miopia que estagnada na íris, impede de ver a si, o homem só, o mim contido em cada gesto, tal qual o pulsar que se ignora por simplesmente já respirar. Bruhnel, um inquieto aquariano segue a corrente do que acredita.

Entre Guerras

Borbulha a curiosidade do então lançamento de uma obra tão alegórica ter ocorrido antecedendo ao “Crash” no mercado financeiro em Outubro de 1929.

De uma Europa já reconstruída da 1ª guerra mundial, temos no emblemático curta metragem rodado em quinze dias e acertados quinze minutos de duração (há controvérsias quanto a duração, chegando alguns mencionar dezessete minutos).

Foge ao artista o depreciar o publico diante o retroprojetor, reprimindo a intenção da então acostumada narrativa. Un chien andalou (Um Cão Andaluz)... Do erudito Wagner, alternando ao tango argentino, sua trilha sonora só seria incluída na película em 1960. Em suas primeiras apresentações ao público, o próprio Buñuel manipulou o gramofone. Pousava um ambicioso projeto ao qual não se tinha referência. Vivenciado até ali, ao revés, somente através de telas nas tavernas de alvenarias maciças.

Elementos de uma nova linguagem artística, despudoradamente foi explicito em milímetros. Há paradoxos, que a primeira vista só o detentor de olho clinico chegaria ao ápice da compreensão. Transportando o expectador de sua sebe, entre gestos indigestos, chegando a epifania de estar perante a o quão magnânimo e conflitante é o homem em sua mera condição humana. Buñuel e Dali conseguiram o alvo inesperado, pois há boatos que na noite da estreia do dia seis, ambos carregavam pedras no bolso. Porém, para surpresa, e hoje nosso deleite, foram por unanimidade aplaudidos.

De atmosfera densa e melancólica, onde em frações de segundos nos remete ao “deja vu” de uma poção romântica cadavérica a um homem andando de bicicleta pelo centro da cidade vestido com roupa de freira, estabelece num iato o irônico menosprezo ao sistema de governo clerical. Utiliza elementos da linguagem cinematográfica, como plano de fundo e closes dramáticos, entre eles o da célebre cena com foco da navalha em direção ao globo ocular de uma mulher. Pausa e náuseas à indigesta consciência.

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Para todos, a vida é sempre a mesma. Alegorias, alegrias, rede de intrigas. O quadro é único. A moldura é o que diferencia. "A Bela da Tarde" certamente não contestaria tais argumentos. Shakespeariano a celebre frase retirada do monólogo "Hamlet", o princípio do "Ser ou não ser", ou estar ou não estar, embutido num contexto e suas regras sacras, indefere ao homem. Muito se acredita que se desprendido desse ponto, ele se vê capaz de alçar novos movimentos de estéticas. Esta ai um paradoxo, pois, tão somente no momento em que deixa de ser cativo consciente ou inconsciente em detrimento a seu ponto de vista, o homem consegue se transpor ao universo que lhe apetece.

Seja Buñuel, seja Dali, seja Nietzsche (em sua escandalosa e equivocada interpretativa pelo homem de sua época - século XIX, à afirmativa, ”Deus estaria morto”). Seja qual mente inquisidora for do que é visível, o mundo nublado de veras, se torna nítido para seres como esses tidos como loucos . A verdade, bem sabemos - o homem nunca saberá. Mas seguimos na trilha com olhar atento a esses exímios talentos, onde suas obras clássicas nos levam a novos prismas do pensamento.

Ao imaginário, resta-nos vislumbrar o que no burburinho descompassado do dia a dia foge ao nosso olhar.


Sandra Frietha

Poetisa. Louca por Rock'n Roll. Amante da escrita libertina. Que vezes se perde nesse emaranhado de letras, decifrando (como se fosse possível) frivolidades desse mundo belo e repleto de caos..
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