Mentes

Somos produto daquilo que permitimos nos tocar, das palavras lidas em um livro centenário ou a letra de uma música que de modo tão simples nos permite compreender todo um universo de perguntas complexas. Somos mentes divergentes, cada qual marcada e moldada a seu próprio modo, e ah, como é maravilhosa essa diferença pintando no mundo uma tela abstrata de nós.


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Sou extremamente fascinada pelas coisas despadronizadas, vejo beleza em lugares sombrios, sinto mundos além dos que posso ver, vivo inúmeras histórias possíveis ou que nem mesmo com todo o avanço da ciência poderiam de fato se concretizar.

Minhas palavras, que não passam disso no início, vão se juntando, segurando as mãos e lentamente se definindo, formando tempestades, nevascas, amores, tragédias, formando, vezes em uma tela em branco, vezes em uma folha de papel, qualquer um dos vários eus que estão por aqui em uma eterna brincadeira de esconder. Me fascino por coisas que geralmente são classificadas como tabu, doenças, aberrações. Imagino como deve ser sentir o gosto de um som, ter amigos que estão somente dentro de você, qual a sensação de ligar e apagar as luzes pela terceira vez antes de deixar o local.

Shakespeare costumava me entender, no início da adolescência onde o romantismo ainda queria seu lugar aqui dentro, mas a realidade seca e fria foi me mostrando que tragédias românticas eram apenas isso, nada mais, não por não terem potencial, até que tinham muito, mas estavam fadadas a um único fim, foi aí que conheci Poe, encontrei nele um amigo. Arthur Conan Doyle me apresentou Sherlock, Isabel Allende trouxe aquele gostinho de cenários e vidas por viver, e depois quando eu já estava enterrada até acima do pescoço em melancolias mórbidas e tão docemente inteligentes esbarrei com Bukowski.

Entendam, tive muitos em quem me apoiar, Clarice me ensinou como brincar de ser mulher livre nesse mundo de homens carcereiros, Drummond me ensinou que ser visionário é um dom e que deveríamos escutar aqueles que realmente têm algo a dizer, Agatha me ensinou que podemos ser o melhor e o pior de nós mesmos, meus exemplos sempre foram maravilhosos, inspirações diárias que me fizeram ver o mundo desse jeito todo distorcido. Como Frankenstein eles foram me montando ao decorrer dos anos, e sinto que ainda há muito para acontecer por aqui.

Voltemos a Bukowski. Meu primeiro contato com ele foi meio inesperado, gosto de palavras rebuscadas, tempos verbais desorganizados, poemas estilo Cecília Meireles, gosto do profundo, daquilo que se pode ter/ser/viver/sentir e o repetir com o virar de uma página, Bukowski não era assim, não importou dez páginas e eu era dele. As palavras de baixo calão, a transparência, as dores, as feridas que nunca se fecharam, ele era sujo, e eu me apaixonei por sua bagunça, era parecida com a minha. Ele também via o mundo cinza, turvo. Ele via o meu mundo. Eu via o mundo dele.

Poucas vezes encontrei mentes diferentes pelo caminho, não me refiro a ideias diferentes, sim a mentes. Conturbadas e maravilhosas. Costumava buscar isso em todos ao meu redor, acabando sempre por voltar a busca-los nos livros empilhados pela casa, em dado ponto desisti sem nem mesmo perceber, já não buscava mais, guardo hoje para mim esse desejo e me delicio quando ele finalmente me é concedido, um arrepio percorre o corpo e o sangue esquenta em um orgasmo mental.


version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Millene Lima