Muito além dos girassóis

Em busca das entrelinhas encontrei em Van Gogh uma admiração latente que ao florescer mostrou-se mais bela que qualquer jardim. Entre as incertezas de sua mente tão fascinante quanto perdida, mostra-nos através da arte sua genialidade taxada por tantos anteriormente como uma loucura tola.


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Não há dúvidas que existem milhares de novos pintores a serem explorados e admirados, a arte é algo que sempre se renova ou que acabamos por ver com outros olhos com o passar dos anos. É isso que a torna tão especial. Apesar de estar sempre propensa a ir em busca do desconhecido e me deliciar com o mistério do novo, não há entre aqueles com quem me deparei pintor que mais me toque a alma que Van Gogh. O louco que mutilou a própria orelha em um ato digno de uma peça shakespeariana, menosprezado em vida, motivo de chacota entre aqueles que o conheciam cujo trabalho artístico fora por vezes ridicularizado. Aquele que pintou Os girassóis mostrado pelos professores de artes antes da discussão sobre ser ou não ser um cachimbo. Não. Não esse Van Gogh, o que tanto me fascina são as entrelinhas, as profundidades que nos negam, os abismos cobertos por nuvens opacas.

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Acerca de sua doença mental, Van Gogh uma vez disse "Após a experiência dos ataques repetidos, convém-me a humildade. Assim pois: paciência. Sofrer sem se queixar é a única lição que se deve aprender nesta vida". Aqueles que já sentiram o beijo gélido e mórbido das doenças mentais poderão compreender a beleza indescritível dessa frase. Ataques e alucinações marcaram sua mente em tons mórbidos e texturas variadas que foram tão genialmente reproduzidos em suas obras. O quarto, tão singelo, representa muito mais que um lugar de descanso para aqueles com mentes marcadas, é um refúgio, um templo. Tem-se a segurança que lhe protege do mundo que não fora adaptado para lidar com necessidades tão especiais e um ar sagrado como se finalmente fosse possível respirar normalmente.

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Não obstante, temos em minha humilde opinião, o quadro mais poderoso dentre tantos expostos ou guardados A noite estrelada (1889) quando Vincent aos 37 anos estando em um asilo utilizou técnicas de pintura a óleo fazendo nascer aquele brilho no olhar dos amantes da arte. O mais intrigante sobre o quadro é a acordância com a realidade. Vincent Van Gogh conseguiu por meio da arte expressar um fenômeno físico chamado turbulência, o que está por trás da sensação de movimento, como se ele tivesse de fato capturado o próprio movimento da luz e o intercalado com a percepção de cores. O pintor , sempre tão ligado a natureza, uniu sua turbulência interna com a do cosmo, representando tanto física quanto artisticamente a genialidade por trás da dor.

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