Quantos precisamos ser?

Muito além de um filme, uma reflexão sobre a vida e nós mesmos. Frankie e Alice tem um enfoque psicológico acerca de múltiplas personalidades que serviram de escape à Frankie após sofrer um terrível trauma, mas a questão é quantos nós precisamos ser para lidar com nossos próprios traumas ou pressões que sobre nós decaem com tanta frequência e intensidade?


Frankie-and-Alice.jpg

Frankie e Alice dirigido por Geoffrey Sax (2010), é um filme canadense estrelado pela maravilhosa Halle Berry. A protagonista do filme é uma stripper chamada Frankie, que vive uma vida boêmia, mas sem muitos mistérios, até que começa a agir de forma diferente, e quando volta a si não consegue se lembrar do que aconteceu durante o período.

Seu comportamento acaba chamando a atenção de um psiquiatra e professor frustrado, que passa a dedicar todo o seu tempo a ela, conhecendo-a e aprendendo tanto sobre ela quanto sobre si mesmo. Os dois se envolvem em uma relação de amizade e cumplicidade mútua.

Para se livrar de ser presa, Frankie aceita ser admitida como paciente em um hospital psiquiátrico sob os cuidados do Doutor Oz, o único em que Frankie sentia-se capaz de confiar. Durante sessões de hipnose o psiquiatra se depara com algo inusitado, não havia somente Frankie, ela vinha acompanhada de Gênio, uma garotinha de sete anos cujo QI era equivalente ao de um gênio, e Alice que achava ser uma mulher branca e rica, com ideias conservadoras e preconceituosas.

Intrigado o Doutor Oz busca saber o máximo sobre a vida de Frankie para descobrir o que desencadeou seu transtorno. Aos poucos vai conhecendo um pouco mais sobre cada personalidade e sobre o passado de sua paciente, que traz uma história de amor conturbada, entre ela e um jovem branco de família rica, o que em uma Los Angeles de 1973 era inconcebível. O que no início o psiquiatra pensa se tratar de um caso de abuso, percebe com o tempo que a dor e sofrimento causados eram decorridos de algo ligado a alma, o amor puro e arriscado de dois jovens que simplesmente não podiam se amar.

O doutor se vê tão ligado à paciente que se recusa a desistir dela, mesmo quando tudo começa a desmoronar. No fim, o trauma de Frankie acaba sendo desvendado e após o choque inicial ela busca lidar com a verdade e com suas personalidades distintas.

Todos nós temos um pouco de Frankie por dentro, tentamos fugir de algo que nos machucou ou traumatizou a ponto de nossa mente buscar fugas por todos os lados, alguns sucumbem a bebidas, outros a jogos de vícios, sexo, drogas ilícitas, comida em demasia, todos nós estamos, estivemos ou estaremos, em algum momento de nossas vidas, tentando fugir de nós mesmos.

A realidade é e sempre foi muito dura para seres que foram criados com razão e emoção, duas coisas tão distintas quanto óleo e água sendo forçadas dentro de um mesmo recipiente não poderia resultar em nada mais que um caos interno que eventualmente é expelido por cada poro de nossos corpos.

A pressão social, pessoal, profissional, temos que ser bons funcionários, bons pais, bons amigos, bons em tudo, um sorriso sempre estampado no rosto frente a outros, qual máscara deveremos usar hoje? Frankie, Alice ou Gênio, quantos podemos ser? Quantos precisamos ser para sobreviver?


version 3/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Millene Lima