Rafael Nogueira

Historiando Histórias.

Esquecimento da política

O maior paradoxo da política é que os homens não podem viver sozinhos, mas ao mesmo tempo relutam em viver juntos.


O crescimento do número de desinteressados pela política é político, já que temos clareza de nossa escolha e do que virá depois. Podemos ser livres, mas ao mesmo tempo somos escravos das nossas escolhas. Quando negamos isso deixamos a organização da política para outras pessoas que façam isso. A questão é o que é política então? Desde o surgimento do homo sapiens a humanidade sempre se organizou politicamente de alguma forma, ou seja, sempre viveu em comunidades, a pólis propriamente dita. Aristóteles afirma, no começo do seu famoso livro “Política”, que: “o homem é um animal naturalmente político”. Podemos dizer também que a pólis é um lugar de troca permanente e de bens reais – mercadorias e os bens simbólicos – a linguagem.

Em resumo, a pólis é o lugar de homens construindo um mercado de coisas e ideias. Já para São Tomás de Aquino, “a política é a arte de governar os homens e administrar as coisas, visando ao bem comum, e de acordo com as normas da reta razão”. A vida política, no entanto, é cheia de vicissitudes e percalços. Ser brasileiro ou inglês é ter um sentimento de pertencimento à determinada comunidade política. Achamos muitas vezes que esse sentimento se perdeu, mas a memória sempre dá um jeito de trazer ele de volta disfarçado de nostalgia. O maior paradoxo da política é que os homens não podem viver sozinhos, mas ao mesmo tempo relutam em viver juntos. Conviver é o mais político dos atos. Temos a impressão de que a natureza faz com que a humanidade viva contra a sua própria natureza. E essa fragmentação é doravante a política. É o que Kant fala em “Ideia de uma História universal com um propósito cosmopolita” ao que chama de “insociável sociabilidade”. Precisamos ter clareza de quando ignoramos a política e tentamos nos livrar dela, ela retorna sob outra roupagem. Negar a política é negar a nossa cidadania. Em outras palavras os “ausentes nunca têm razão”.

São vários os fenômenos que nos últimos 40 anos podem ser elencados do por que do refluxo da política, por um lado o suposto messianismo revolucionário, por outro lado, o suposto progresso da democracia, pelo menos no limite da palavra democracia. Há um possível remédio contra o esquecimento da política? Não temos um que cure imediatamente. Mas há três possibilidades possíveis: o ativismo, a militância e a “profissão de ser cidadão”. Não só usando o voto, mas informando-se diariamente por diferentes canais, buscando desenvolver uma consciência política ativa. Isso passa pela pluralidade dos partidos políticos e o seu funcionamento é vital para a democracia. Não quero com essa afirmação reduzir a discussão para a política partidária. Pelo contrário a participação fora do campo dos partidos tem o mesmo nível de importância. Afinal a democracia implica dizer que somos iguais em direitos, mas também em valor. O poder não pode ser dado ao mais sábio, bonito ou que fala melhor, mas sim aos que são como todo mundo e aceitaram nos representar por um tempo. Se esquecermos da política daremos um poder sem limites aos políticos, sendo que o único limite somos nós.

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Fonte: Gazeta Guaçuna.


Rafael Nogueira

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