Rafael Nogueira

Historiando Histórias.

A Desescolarização: uma questão contemporânea

Antes de tudo gostaria de dizer que este texto não tem pretensão cientifica, seja no âmbito da Pedagogia ou da Psicologia. É no limite da minha capacidade um texto introdutório de opinião refletindo sobre a chamada desescolarização.


1. Problemas e contradições

A grosso modo, essa forma de educação que não pode ser confundida com a educação domiciliar que segue a grade curricular das escolas, é gerida pelos pais da criança, fugindo de objetivos e regras. Vejo o primeiro problema aqui. A criança não sendo educada dentro de regras, objetivos e princípios da vida escolar tende a se tornar uma criança individualista e sem o senso de vida coletiva própria de uma escola. Ela não aprende de certa forma o “contrato social” em que vivemos na nossa sociedade.

O segundo ponto é a legislação que é clara: Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. ” (BRASIL, 1996, p. 9, grifos meus).

Destaquei algumas palavras que considero essenciais. Como o artigo diz a família tem o dever na educação, mas não sem a presença do Estado, que tem o papel de garantir esse direito que está na categoria dos direitos fundamentais na nossa Constituição Federal. Longe de ser jurista, penso ser inconstitucional relegar apenas a família a garantia do direito à educação. Outra questão é o valor da solidariedade e da cidadania presente no trecho. José Murilo de Carvalho nos traz a reflexão de Alberto Sales que no começo da república brasileira já postulava que os brasileiros eram até sociáveis, porém pouco solidários. Em outras palavras, conseguiam conviver em grupos pequenos, mas não se organizar em sociedade. (CARVALHO, 1990, p. 30). Entramos de novo na questão do espirito coletivo que a criança terá dificuldade em desenvolver sem a vivencia na escola, um lugar por excelência para ter essa noção do público. Tem sido problemática nossa coesão em sociedade. Uma forma de educação que tende a desenvolver o individualismo, acarreta ainda mais isso. A preparação para o mundo do trabalho passa exatamente por respeitar ordens e princípios, e só a escola pode ser um espaço para possibilitar esse entendimento a criança.

2. Autonomia e responsabilidade:

Em uma matéria do jornal Folha de São Paulo sobre o assunto uma das mães adepta desse tipo de educação, afirma que o objetivo é “[...] desenvolver o potencial de criança e o que ele chama de “auto-responsabilidade”. ” (FOLHA DE SÃO PAULO, 2017). Não vejo como construir um lado criativo sem o contato com o diferente, com a alteridade, com outros pensamentos e hábitos que contrapõem-se com o seu. Tampouco vejo como uma utopia achar que a criança vai criar uma auto-responsabilidade. Um exemplo disso, que parece ser banal é a fila. Pode parecer simples e trivial, porém ela é um entre tantos meios de organizar a vida social. Uma das primeiras provas de auto-responsabilidade é aprender a respeitar a ordem da fila. Respeita-se o outro, e assim todos se respeitam.

A responsabilidade se aprende na relação com o outro, entendendo que cada um tem o seu espaço e direito, que não podem ser desrespeitados na sua condição de dignidade humana. Quando tenta-se afirmar que a autonomia para ser responsável é um dos desdobramentos da desescolarização, penso ser complexo essa questão. Sempre se espera dos pais que protejam os filhos, entretanto, a linha que separa o proteger do superproteger é tênue, não tem como controlar esse instinto de proteção. Ingenuamente os pais pensam estar protegendo seus filhos quando na verdade estão os prejudicando. Muitas vezes julgam estarem dando autonomia, contudo estão apenas superprotegendo. Em nenhuma hipótese defendo o outro extremo, isso é, deixar a criança sem nenhuma atenção ou cuidado. O tocante aqui são os prejuízos de ordem psicológica que a criança pode sofrer, resultantes da superproteção: insegurança, timidez excessiva, fobia social, transtorno de ansiedade, ataques de pânico, depressão entre outras. É com certeza difícil para muitos pais principalmente os de primeira viagem compreenderem que é a escola a instituição que vai fazer a ponte entre a família e o mundo externo. Dói muito ver a prole ir embora para a escola todos os dias, mesmo que por algumas horas. É angustiante pensar que o filho está fora da sua proteção e para além disso ter o sentimento de impotência de não poder fazer nada enquanto o rebento está na escola. E se ele voltar machucado? E se ter dor no estômago? O que poderei fazer? E se não voltar? São perguntas de pais preocupados com seus filhos.

Diante disso não estou condenando eles. Eles não conseguiram romper o cordão umbilical, tem dificuldade de lidar com a perda dos filhos para o mundo real. Não os culpo. Quem seria eu para isso? O argumento que em minha opinião confirma é a parte da matéria da Folha de São Paulo que explica a razão dos pais aderirem a essa educação: “Muitos dos pais que optam por tirar os filhos da escola dizem que a decisão tem mais a ver com a opção por um modo de vida diferente do que com a discordância em relação ao modelo tradicional de ensino. ” (FOLHA DE SÃO PAULO, 2017, grifo meu) A escolha pelo “modo de vida” é o ponto de fuga achado para não se desprender do filho.

3. Preparar para a vida:

Um outro problema que poderá surgir no futuro é a falta de preparação para a vida. Novamente analisando o artigo da Folha de São Paulo visualizo esse despreparo para enfrentar o mundo como ele é, resumido na fala de uma mãe: “Não acho que a escola socialize. É um grupo de crianças juntadas aleatoriamente. Você sofre e no dia seguinte tem que estar de novo com o agressor. ” (FOLHA DE SÃO PAULO, 2017). É justamente na escola que pode existir a contraposição de ideias e o melhor de tudo a criança saber que existem outras pessoas que discordam dela. Talvez o que ela chama de “crianças juntadas aleatoriamente” é a pluralidade de ideias e visões de mundo. Uma criança que foi criada para crer que o mundo gira ao seu redor realmente irá ter dificuldade em socializar seja na escola ou na vida. Segundo o jornal ela tirou o filho devido a episódios de bullying. Eis um erro grande, proceder desta forma. Mais do que nunca é que a criança tem que continuar na escola. Primeiro porque tirar o aluno só vai empoderar o agressor e mandar ainda que implicitamente um recado que ele venceu e pode fazer o que quiser, pois ele é quem cometeu a violência e o agredido é que terá que ter toda a logística de procurar uma nova escola. Segundo, o erro vai na direção de não ter ciência que esse aluno-agressor precisa de um acompanhamento psicológico, que no fundo a violência é uma catarse para desnudar uma frustração que quase sempre desemboca numa família desestruturada. Rafael e o sofrimento do agredido? Precisa também de acompanhamento e cuidado psicológico. O cerne é o aprendizado. De qualquer modo a criança necessita aprender que existe violência e pessoas violentas e que uma hora ou outra vai ter que aprender a lidar com essa característica da nossa sociedade infelizmente. Crianças despreparadas para a vida tem grandes chances de sofrerem muito no futuro e desenvolverem todo tipo de transtorno psicológico. Outras escondem esses problemas por meio de atitudes violentas e o egoísmo. A escola é o estágio que vai aprontar a criança para encarar o mundo, tirando isso dela, só faz com que esse processo seja mais demorado e difícil.

Para o professor Ghiraldelli nos mentimos para a criança quando dissemos “tudo vai melhorar”. Como podemos atestar isso? Com que capacidade? Nenhuma. Do mesmo modo os filhos também mentem. Já que somos levados a pensar que eles serão bons filhos, que vão nos amar e cuidar de nós quando ficarmos idosos do mesmo jeito que cuidamos deles. Apesar disso existe a chance de que tudo isso não aconteça. Novamente Ghiraldelli ao tratar do tema sobre a vontade de ter filhos ou não, nos questiona:

"Teremos maturidade para enfrentar o fracasso dos filhos na condição de filhos, de quem esperamos cuidado e amor, como demos? Não podemos cobrar isso? Devemos ser máquinas que não esperam amor dos filhos, pois somos os que dizem “tudo vai ficar bem” para eles, mas não podemos dizer isso para nós mesmos? Ora, que conversa!" (GHIRALDELLI, 2016).

Para ele ter um filho não pode ser decidido a base do “eu quero”, muito menos reforçado pelo “eu posso com tudo isso”. Ter um filho é ter a noção que ele vai uma hora ou outra ter que estar preparado para o mundo.

4. Considerações finais

Reafirmo que o meu texto não tem caráter cientifico e nem pretender sobrepor os conhecimentos psicopedagógicos que estão consolidados no meio acadêmico. É senão uma análise de um jovem professor que está iniciando a carreira e que tentou trazer algumas reflexões ainda que modo simples e sem teorizar seus aspectos. Creio que muitas das minhas afirmações vão gerar discussões e discordâncias. Respeito todas as críticas que vierem a mim, desde que não sejam discursos de ódio evidentemente. Sem mais, espero ter lançado luz e alguma contribuição a este tema tão intricado que é a desescolarização.

Ivan-Illich. Fonte, nicholas gimes.jpg

Imagem: Ivan Iliich autor do famoso livro "Sociedade sem escolas" Fonte: Nicholas gimenes.


Rafael Nogueira

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