Rafael Nogueira

Historiando Histórias.

A não participação na política e as teorias da conspiração

Quem matou Teori Zavascki? Entender essa desconfiança é entender como o processo de cidadania é longo no Brasil.


O instituto Paraná pesquisas fez uma pesquisa interessante que é sintomático sobre a população brasileira. A pesquisa perguntou sobre o acidente aéreo que resultou na morte do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Teori Zavascki e apontou que 83,1 % dos entrevistados consideram que o avião foi sabotado, ou seja, não foi acidente. Apenas 15,6 % dizem crer em uma tragédia. O 1,3 % restante, não sabem ou não responderam.

A pesquisadora é reveladora do que vem acontecendo no processo de cidadania em nosso país: a baixa participação do brasileiro na vida política. A vida política moderna entendida pela representação, já que com o desenvolvimento do comércio e indústria, não dispomos de deliberar em praça pública, como faziam os gregos antigos. Este tipo ideia de sabotagem encontra terreno fértil, exatamente onde temos pouca participação do cidadão no processo político.

Segundo o professor Paulo Ghiraldelli no continente europeu as democracias mais desenvolvidas e tradicionais, com um histórico de revoluções burguesas e movimentos operários com bastante força, apresentam poucas criações conspiratórias no imaginário popular. Diferentemente os Estados Unidos que monopolizou a questão política em torno dos dois maiores partidos do país, acabou afastando a população do jogo político. Ele ainda nos lembra que as agências de espionagem consagradas na cultura pop só vieram a reforçar as conspirações na política norte-americana. Para isso, se aproveitou de gerações de cidadãos sem interesse pela política.

Em nosso país como foi dito a motivação é a mesma: pouca participação popular na política. Alberto Sales no começo da república brasileira já postulava que os brasileiros eram até sociáveis, porém pouco solidários. Em outras palavras, conseguiam conviver em grupos pequenos, mas não se organizar em sociedade. Ao mesmo tempo, a sempre dependência estatal do brasileiro que sempre olha ele o Estado de fora e não de dentro, dá margem a teorias da conspiração. O poder cada vez mais longe no horizonte e inalcançável oferece a oportunidade para que o cidadão comum crie um mundo mágico onde os atores políticos podem fazer coisas extraordinárias. Esse imaginário também pode ser credito ao desencantamento da política nos últimos anos. Isto é, uma fuga disso usando o fantástico.

A pesquisa fez uma segunda pergunta sobre quem seria o nome mais indicado para suceder a vaga de Teori Zavascki. Só 31,1 % preferem que Sergio Moro seja nomeado por Michel Temer e 65% se posicionaram contra. A justificativa dos entrevistados é o receio da Operação Lava-jato não ter continuidade sem Sérgio Moro. Novamente a falta de informação oriunda da falta de interesse pela política resulta neste pensamento.

Dito de outra forma, ninguém duvida da honestidade e da competência de Moro, mas tem-se o medo de a Lava-jato não continuar mais. É como se resolvesse o problema de um lado e abrisse outro pelo o outro lado. Numa balança seria dizer que Moro sendo ministro do STF aumenta a massa de um lado, pois agora poderia julgar políticos com foro privilegiado, entretanto para isso teria que deixar de julgar políticos sem mandato e consequentemente sem foro e empresários fazendo a balança perder massa neste lado e causando um desiquilíbrio. A falta de encantamento e crença no judiciário brasileiro advindo da falta de participação política levou a essa ideia de desiquilíbrio, onde só existe uma opção Moro continuar onde está e achar um ministro substituto enérgico com os políticos investigados.

O ativismo e a militância seriam possíveis remédios para esse esquecimento da política. Mas no mundo moderno o que se procura é a felicidade pessoal e o interesse individual, o político garante assim o direito civil. Teríamos também os partidos políticos brasileiros caso não fossem em excesso e banalizados e desligados dos anseios da população. Por último resta o “ser cidadão”. Não só usando o voto, mas informando-se diariamente por diferentes canais, buscando desenvolver uma consciência política ativa. Só assim vamos afastar os fantasmas da conspiração do nosso país. Há ainda os impotentes. Ai já é história para outro texto.

Mito e política.jpg Mito e verdade. Fonte: Blog do Dércio


Rafael Nogueira

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